terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A rua São José naquela madrugada era cousa p'ra gênio da pintura. A fileira de portas fechadas, trios e duplas de portas coloridas, as mesmas portas do comércio de todo dia, cada uma calada e reticente. Os sobrados que as portas guardavam formavam uma enorme garganta de histórias a céu aberto e cobrindo a curva sem fim, as luzes, muitas luzes, paralelas e compridas faziam as vezes de céu, faziam as vezes de ares, faziam o mundo parecer maravilhoso, mesmo na noite mais triste.
Eu, que vinha caminhando só, sob a chuva, seguindo pelo tapete de paralelepípedos, escuros, molhados, sem saber o que pensar, não podia mais que dançar ao som de um piano que não tocou.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Sobre a intempestividade das almas penadas

Enfim...passei um pano sobre a poeira grossa e fez-se aquela mancha prateada. eram então meus olhos chafurdados em olheiras escuras. depois de tanto silêncio e de tanta censura, senti o des-gosto das palavras que me fugiram. chorei por elas. frases soltas foram tudo o que me restaram. foi por isso que voltei àquela casa.

caminhei vagarosamente sobre o assoalho esperando a mágica acontecer, esperei que as palavras se aglutinassem a cada ranger de madeira, a cada nuvem de pó que subia quando eu mexia nas cortinas, a cada vez que eu me dirigia ao sótão e abria os livros abandonados. desci a escada espiralada e vaguei pela cozinha, pelo banheiro, pelo jardim procurando os textos, procurando as razões, procurando, quiçá, a poesia. já não havia mais nada lá, nada que remetesse a coisa alguma.

quando dei por mim, já não tinha dormido e havia muito que isso não acontecia, ficar desperta toda uma madrugada esperando amanhecer para poder esquecer o dia anterior. foi quando percebi que não estava realmente sozinha. me acompanhava, com a mão sobre meu ombro, um fantasma sem correntes e sem memórias, me perseguindo, me entrando nos sonhos, ou melhor ainda, nos pesadelos. nunca tive muita convicção sobre nenhuma teoria de pós-morte, mas realmente tentei buscar na mente algo que justificasse tal presença. em vão. tácito e curvo, ele não tinha olhar e nem falar.

por mais que eu estivesse à base de remédios para aliviar a dor, aquela presença sutil não parecia ser alucinação. quando eu gritava no casarão, o fantasma era meu próprio eco; quando eu agachava num canto qualquer, ele era minha ressaca moral. e a casa toda continuava vazia, embora eu pudesse ouvi-los rindo da louca miserável, com as expressões deformadas pela complacência, eles todos que encheram aquela casa já há tanto tempo atrás.

também a lua andava morta nesses tempos e eu não entendia tamanha turbulência que provocava o estalido de alguns nomes nos meus tímpanos. voltei aos meus olhos e ordenei que ficassem indiferentes, e disse-lhes duramente que chorar era cousa de criança. o espectro desceu as escadas da entrada e dando a volta pelo lado de fora da casa, conduziu-me até o limite do terreno. o vento frio engrossou, senti o cheiro de papel queimado no quintal e zás! o uivo desesperado dos cães bem dentro do meu peito, como aconteceu no dia em que ele morreu. comecei a lembrar-me vagamaente de suas feições e foi como, inconseqüentemente, cutucar um vespeiro. a verdade é que isso durou dias, essa reconstituição e o cheiro do papel queimado sobrara do feitiço que eu fiz com as próprias mãos para matá-lo. Mas alguma coisa saiu errado, algo faltou, talvez mais do meu sangue, e o feitiço parece não ter-se dado por completo. Meus sorrisos, minha inquebrantável força, minha aparente tranqüilidade, tudo mostrou-se ineficaz no fim das contas, pois nada disso cegou-me o suficiente para esconder o que mais machuca: a pura alucinação do vivo que num passe eu criei e não fui capaz de destruir. agora me ronda e me põe depressa a fugir chorando feito menino dessa alma penada.