quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Eu assim correndo o poema correndo porque
[ele me sai
Eu morrendo o poema meu movimento
[de resistência
Eu cega cada vez mais
da folha branca sob as palavras meus olhos

[s a l t a m a n é v o a]

Eu cega
Eu perigo
--------------------------------------E tu correste?
Eu perigando o poema

Receio
Que te perdi os olhos

Encruzilhada nossa
Dentre tantos brinquedos
Você me escolhe justo o de doer
As lágrimas me saquearam a voz

Suspiro.

Teu antemão por meu exílio
Senti-me traça sobre o livro
Bicho repugnante que devora páginas
Não se pensa duas vezes antes de esmagar

Tocada pela calidez do sol
Que o vento quase frio vem temperar
Neste dia, quando sob o céu de opressiva solidez
O pesar carrega minha face.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

stand still
stubborn one
smooth death
for a sick heart
silly head
smoke yo' grass
bite the fuss
split the mess
spent soul
sand inside the eyes
send me source
since...

silence

Experiências culinêuticas

Tabuleiro untado
branquinho como nuvem
olho no forno
hora cheirando a casa toda
bolo no sereno
para desenformar inteiro

O Miguel [ou Avec les Yeux Pleins de Larmes]

(Esta postagem dedico a Wantouile, que conheceu o Miguel...)

Quando me lembrei do Miguel me foi tão bom. O Miguel cabe na boca. Muito bom pensar e pronunciar o Miguel. Quando lembrei o Miguel, justamente dali um tempo conheci o Miguel. Homem que era como eu sonhava e seu nome: o Miguel.

O Miguel era o outro. Quem diria que um dia, por um capricho da vida nos encontraríamos frente a frente conversando, como fizemos jovens; naquele tempo. Eu perguntaria se teve filhos. O Miguel está velho, mas eu não consigo imaginar. Estamos na mesma sala dantes, nas mesmas poltronas. Eu não envelheci: em meu olhar continuo a amá-lo. Ora, estivemos longe e ele talvez não tenha tido saudade. Nunca mais nos encontramos.

O Miguel nasceu quando sua mãe tinha vinte e um anos. Ela foi abandonada no cartório pelo pai do Miguel. Seu pai ensinou ao Miguel tudo o que ele aprendeu. O Miguel buscava, sob o olhar dos outros, onde é que eles estavam e o que estavam olhando? O que você vê em mim, era o que o Miguel balbuciava. Os rostos para o Miguel eram borrões, porém mais próximos eram-lhe inexpressivos. O Miguel não podia entendê-los.

Naquele tempo o Miguel tentava. Hoje, nessa eternidade, construiu uma fortaleza. As paixões tolas lhe tomavam muito tempo e lhe serviam bem; mas no céu há tanto nada, que o Miguel quis abandoná-las. Todas. De uma vez por todas.

É claro que isso entristeceu o coração do Miguel. Mas ele é tão ridículo que não chorou. Nem sorriu. Nem. Isso foi bom, ele achou. Chegou mesmo a se sentir forte. Como se notasse que ainda era dotado de certo vigor. Porque já se subestimara muito e olhava a si próprio agora, bem de cima; dizia-se: é isso? Deixava as pálpebras baixas, o olhar tomado de desprezo.

Ah, o Miguel. É o único jeito. Ele achava que devia haver um meio de ser outro, Outro o Miguel, que não, nunca mais, fosse como ele. Pois para o Miguel certas coisas são insuportáveis. E o Miguel (m)sorria um pouco mais de cigarro em cigarro, cedendo a caprichos, seus e dela.

Aquela menina, o Miguel havia decidido esquecer. Pensava nas suas palavras e no quanto ele a incomodava. Ela já lhe pedira várias vezes que a deixasse e ele entendia. O que ela não poderia entender, é que ele não conseguia. O Miguel era estupidamente feliz ao seu lado. Às vezes ele se conformava com o fato de que ela talvez não pudesse amar. Eu nunca disse a ele o segredo dela. É que ela já se ocupava de amar outro homem, o qual o Miguel também já amava, mesmo que só pudesse imaginar o quê naquele homem ela amava.

O Miguel é o nome do meu filho. O Miguel e eu sempre uma dupla de mãe e filho. O Miguel me salvou e eu vi minhas amigas tendo filhos que reencontrei depois que já tinham vinte anos. O Miguel não sai da minha cabeça. Sempre que o procuro ele me recebe. Ele é lindo. Coitado do Miguel, ele está cansado. Eu também, o Miguel, estou tão cansada. Eu faria tudo diferente. Eu te odeio, o Miguel.

Ter de esquecer o Miguel não foi agradável, porque o Miguel não se esquece. Quando me lembrei do Miguel é que me dei conta de que já o tinha esquecido.

Depois daquela hora, quase de tarde, passaram-se outras horas, dias, semanas, meses e anos. Uns vinte e poucos. Como fui me lembrar dele?

O Miguel era um qualquer, como qualquer outro, não tinha nada demais, não despertava grandes paixões. Como algumas pessoas são especiais... vez por outra não conseguia ficar sozinho então entregava-se à gula das vontades como que por legitimar sua mesquinhez e sua covardia. Mas ele sabia que não funcionava. Há momentos, disse-me o Miguel, em que é preciso interferir. Porém , tamanho é o poder de interferir que tenho e maior ele se torna a cada vez em que o emprego, que viro um bárbaro. De repente estou a disparar inconseqüentemente, tomado pelo deslumbre dos alvos. Apaixonado. Refrear até uma gélida parada é calar muita coisa, pois se fala cada besteira... Ainda bem que não as fazemos todas, eu lhe respondi.

Hoje o Miguel não virá mais ao meu encontro. Também porque o Miguel jamais me procurou. Ah! O Miguel! Eu estou tão apaixonada por você! Como eu estou apaixonada por você. Estou morta de amor. Esse homem me enlouquece. Então está tudo bem. Passará, logo, eu penso.

O Miguel tem o poder de desaparecer. Conquanto que nunca se tenha lembrado, o Miguel se esquece. Há vez que pego o Miguel pensativo. Eu errei e erro sempre com o Miguel. Eu o namorei, sim por um tempo. Nos beijamos uma única vez. A boca do Miguel.

Já cheguei a pensar que o Miguel era eu, ou eu o era. Engraçado isso. Um dia eu me virei e ele me olhava. Um dia pensei: para o Miguel aquela menina era o que via e só queria ver se fosse além dela. Impossível. Porque era só eu que estava ali. Só eu, o Miguel, desculpe-me.

Quando o Miguel finalmente foi embora, eu queria ir com ele. Mas claro que não fui. Eu trabalhava como dubladora de filmes. Muitos europeus e alguns latinos. Por isso narro do Miguel, sua vida era um filme. O Miguel sempre foi muito inteligente. Ele inclusive tentara suicidar-se uma vez. Às vezes eram mulheres, noutras homens. Nouvelle Vague para Denise, Otto para o Lucas e assim sucessivamente. Depois Otto nunca mais por ninguém, só pelo Miguel alto mesmo.

Os dias para o Miguel eram arrastados pelas tantas coisas a fazer e ao despertar já passara tudo, todos os dias, tão rápido. O Miguel parecia que podia ser beijado a qualquer momento. Mas ninguém jamais ousaria.

O Miguel não parece tão velho. Ele já era assim quando éramos jovens, naquele tempo em que nada tínhamos a perder e nada queríamos fazer. Nos divertíamos em vão, com tantas pessoas, histórias de cada noite.

Ele se esforçou muito para ser quem é hoje. O Miguel conseguiu, eu acho. Mas ele não fala sobre isso. Quando leio as cartas do Miguel eu o reconheço. Percebo que nos encontramos num deserto e entre nós há somente o deserto. O Miguel acha isso. Eu acho isso bonito.

Quando o Miguel nascer eu nem vou acreditar. Será mesmo possível que tenhamos sido feitos uma para o outro? Sempre somos feitos para o outro – ele me disse num domingo a tarde. Dias antes esteve em presença do homem que aquela menina amava. Ele nunca tinha amado tanto outro homem na vida. Estava sereno na hora da morte.

O Miguel era de ficar horas calado, em choque com a profundeza dos seus pensamentos. Não adiantava ninguém falar com o Miguel. Ele ouvia muito bem. O Miguel no sol, o Miguel caminha, o Miguel encontra tantos conhecidos, leva uma prosa. Sozinho, fala consigo sobre isso.

Eu queria falar umas coisas com o Miguel. Eu até falei muitas. É que ele sempre parecia não lembrar de mim. Quando eu me lembrei do Miguel, era hora de sair. Eu sempre acabo falando do Miguel.

O Miguel, onde é que você está agora? Você pode me ouvir? Você teve filhos? Com ela? Eu gostaria que o Miguel lesse todos os meus papéis. É por causa dele que temo sempre me deparar no espelho. O Miguel, eu estive doente. Você está me matando. Mas você me disse que o faria.

Somos tão diferentes, o Miguel e eu. Eu o observo pelos cantos dos olhos, tento flagrá-lo. Mas o Miguel é tanto mais. Já tive pena dele porque ele não me amou. Pena eu não conseguir ser o que você esperava. Porque você nunca espera nada. Eu espero, o Miguel. Já te contei que vou ser professora, que não vou ter filhos, que serei feliz quando da velhice, quando eu o vir daqui uns vinte e poucos anos. A minha mãe já é falecida, acho que também já lhe falei sobre isso. Espero que você goste do que lê. Do que foi meu um dia será seu ainda depois da minha morte.

O Miguel já quis o mundo. Tinha dia que era muito ao alcance das mãos. O Miguel sempre riu dos bêbados; riu de si quando descobriu que procurava a verdade. Parou de rir assim que entendeu que a queria sempre. Um espírito admirável, esse Miguel. Quando começa não pára mais. Eu tenho inveja dele e uma vez lhe falei, talvez até mais de uma só que com outras palavras. E o Miguel permaneceu indiferente. Muitas coisas eu lhe falei às quais ele se manteve indiferente. Ele mente para mim o tempo todo. O monstro que ele é, o Miguel não quer que eu veja. Nem mais ninguém. E uma coisa ele me disse com muito orgulho: que era um egoísta. No fundo, o Miguel sempre soube o quanto eu o amava. A quem ele amava sei que foi muito. É muito de um jeito que parece não ter fim.

Sonho com o dia em que nos conheceremos e eu saberei imediatamente que é você, o Miguel. Mon petit diable qui est doux. Isso eu nunca lhe disse. Quando estava para dizer, entendi o olhar de quem não queria ouvir. É que parece que toda aminha vida eu lhe posso contar. Ouvir-me é como se me amasse ou ao menos pudesse.

Foi o Miguel quem abriu a porta pela primeira vez. Agora, se eu vou embora, não é que eu queira, foi o Miguel quem me pediu. O grande amor do Miguel é também o meu grande amor. Quando eu era menina o Miguel me disse que por amor se sofre e que é melhor não falar. Pode-se, no entanto, correr.

Pergunto-me se o Miguel se lembra daquela canção. Toda vez que eu saia ele podia dobrar uma esquina, a qualquer momento. Ele me visitava quando éramos jovens. Conversávamos sobre muitas coisas sérias e dele dependia o meu humor. Ele fingia não saber.

Mas com o Miguel tudo era diferente... é verdade, ele já tentou, entretanto, essas coisas com mulher são muito enfadonhas para o Miguel. É que ele era meu amigo. O Miguel morreu sem me dizer isso. Já perguntei para outras pessoas se ele já lhes contou que era meu amigo. Ele não conversa muito com outras pessoas. Conversa um pouco comigo e muito com ela e com ele, já há anos. Eu também quero passar muitos anos com o Miguel, quero estar lá quando for a hora de chorar. Mas pode ser que não seja eu. O Miguel ganha sempre muitos encontros, embora dificilmente ele os aceite, uma vez que um encontro pode ser um grande transtorno.

Combinamos, o Miguel e eu, de sairmos para uma longa viagem no mundo da lua. Quando chegarmos lá vamos nos divertir como não pudemos por muito tempo. O Miguel me faz bem às vezes.

Se ele sente alguma dor, nunca se sabe. Quando ele diz que dói, não parece, mas acho que ele sabe o que diz. Sempre. Até sem palavras. Só o Miguel gosta das coisas que escrevo. O que escrevo não sou eu, por isso que ele gosta. Ele disse que não queria me ver nunca mais enquanto eu chorava em silêncio e aparentava sorrir compreensiva. Quando ele me acordava era bom, era dia, e não nos lembrávamos de nada na noite anterior. Acho que não pensávamos quando éramos jovens, apenas estávamos lá.

Eu me precipitava mas ele era paciente. Outras mulheres amavam o Miguel. O Miguel atravessa os pensamentos, eu entendo. Pode ser que ele apareça e eu terei que fingir que não me importo. Na verdade sempre fiz isso, não é nenhuma novidade. E o Miguel nunca acreditou em novidades. O Miguel não acreditava em muitas coisas. Eu mesma passei a desacreditar na vida. Nesse dia, sequer pudemos nos encarar.

O Miguel, quando eu era jovem, eu sonhava muito com você. Eu nunca mais sonhei e meus sonhos já são muito velhos. O Miguel guardava de mim seus sonhos. Eu nunca fui digna de conhecê-los.

Era o corpo do Miguel sob o lençol. Era o não-querer. O amante que jaz impotente perguntando-se o que dele se pode ambicionar. Eram as luzes difusas sobre o Miguel. Ele não parecia daqui. Estava sempre tão longe o Miguel, desde menino, como eu. Te quero, o Miguel, com uma flor na orelha. Te quero como se pode esquecer, como poesia que não se memoriza. Eu nunca na sua memória, assim, nem feliz, nem infeliz.

Tudo o que eu disse aquela noite era isso mesmo. Entretanto, nada do que eu disse importa. Eu sei. O Miguel às vezes escreve como eu. Só assim soube que ele sabia que eu existia.houve muitos momentos em que o aborreci, ele é de muita sensibilidade.

Não vale a pena conhecer o Miguel. Ele é certeiro e nada há que perdure depois dele. Nem palavras, nem eu mesma. Nenhum sentimento ou desejo. E falando do Miguel, nenhuma razão, nenhuma argumento, nenhuma desculpa, nem os planos, nem mesmo a fome.

O Miguel foi forca na minha vida de lobo em pele de cordeiro.

O Miguel se despediu de mim sem pesar. Ele não via a hora. Eu já tinha acabado para ele, já tinha sido suficiente. Das segundas às sextas eu pensava nele e nos fins de semana eu só queria dormir, inteiros o sábado e o domingo. Assim eu podia estar calma, sem dores de estômago. Deitada no peito do Miguel eu me esvaziava. Eu era silêncio e o Miguel era uma interrogação. Quando o tinha em meu colo, tinha medo até de respirar, não queria acordá-lo. E depois ele sumia, ia assistir a um filme com ela, quem sabe. Um dia cheguei em sua casa e eles estavam na sala. Tomavam café e riam felizes um em companhia do outro. Ela disse que eu podia ficar ali. Eu agradeci e sentei-me quieta num canto a amá-los. Ela era tão suave e todas as coisas que dizia eram dignas de nota. Nesse dia eu enganei as horas e desmanchei os compromissos. Sabe que o Miguel nem me viu entrar? Eu senti um alívio porque o Miguel a amava. Ela entende tudo, sabe como as coisas acontecem. O Miguel só existia por causa dela e só ela existia para ele, dentre todas as outras. Ela era linda. Ela é inesquecível para o Miguel e para mim. O dia em que a beijei foi o mais triste da minha vida. Desde então eu não era mais jovem e nunca mais seria. Aquela menina, as músicas que ela ouvia, as suas belas mãos. Dificilmente se viu alguém tão perfeita, pois ela era perfeita para o Miguel. Ele mesmo me disse e desejou-me sorte.

O Miguel sempre me quis livre. Ele é a lua que surge de dia, que à noite é encoberta pelas nuvens. A noite sou eu, é ela o dia.

Ele não precisava fingir que gostava de mim. Nunca soube por que ele insistia.

Ah, o Miguel. Fala, não me deixa pensar. Anos atrás, perto dele, eu era o meu pior. Vejo por esse reencontro fortuito que não poderia ser diferente. Perto dele eu nunca podia ser eu mesma. Talvez tenha sido por isso que ele foi embora. Eu tive que ouvir cada coisa. Mas ele era o único que não podia me odiar. Hoje, fitando-o já tão maduro, imagino de onde vêm todas essas cicatrizes. Porque ele nunca me contaria.

Com o Miguel não se pode contar. Poucas histórias foram tão conturbadas quanto minha história com o Miguel. Ele era um caprichoso, mudava de intenção a seu bel prazer e comigo mantinha sempre um pé atrás. Nós dançávamos nos fins de semana, abraçados, bem juntos. Um dia eu decidi que o queria; logo, fui embora. Deixei o Miguel. Saí sem ele ver com a minha mala cheia. Ele estava distraído e levou alguns dias para sentir uma ausência. Alguém que não bate à porta, que não está no sofá, que não dormiu em casa, que não fumou seu cigarro, alguém que não lhe busca os olhos.

Certa vez o Miguel me perguntou se estava tudo bem. Suspirei. Fiquei em dúvida: responderia’ está tudo no lugar’ ou ‘está tudo como deveria estar’. Não é a mesma coisa. Pois toda vez que eu tentava dizer a ele que nada ia bem, eu tinha que dizer que eu sou louca, e se, em algum momento, eu lhe dissesse que era por ele que eu sofria, ele ficava desconfiado, pesado e saía andando lenta e silenciosamente para trás, afastando-me com as mãos, devagar sendo engolido pela escuridão do corredor até chegar no seu quarto e fechar a porta na minha cara.

Nunca mais, não é, Miguel...

Pássaros são tão livres. Aqueles lá no céu. Não se pode querer mais nada além de voar? O Miguel disse que eu não mudei nada. Enquanto eu estive fora. O Miguel conheceu outras pessoas. Um dia ele estava na cidade a trabalho. Nosso abraço me soou tão estranho, tão duvidoso e cheio de pontas de dedos. Debaixo de seus óculos ele via meus dedos trêmulos. Ele já não me amava. E como eu lhe poderia beijar as mãos? É tão bom conhecer o outro Miguel. Uma sentença, ponto final. Outra e ponto final. É assim que ele pensa. Ou ele não articula muito bem ou sou eu. Eu podia segui-lo como um cão.

O Miguel, isto é um solilóquio. Eu o amo porque sou poeta.

Eu tive novos amigos depois de você. Quanto a namorados, nuca mais pude, nunca mais tocada, eu nunca mais quis. Eu li outros livros depois dos seus. Porque nenhum outro homem jamais me olhou como você. Não me olhou. Quando se encontra o Miguel é preciso sorrir. Pela feliz coincidência. E seguir intacto e esquecê-lo.

Vejo hoje jovens casais pelas ruas e penso nas pessoas que nos viram jovem casal naquele tempo. Não éramos um casal e não podíamos admitir que pensassem isso de nós. Daí o Miguel me disse que éramos tão orgulhosos e dogmáticos como deveríamos ser quando se é muito jovem.

Quando o Miguel falava era um acontecimento e todo mundo queria ouvi-lo. Bom, pelo menos eu queria. No fim todos sabiam que ele não poderia ser levado muito a sério.

Saiam todos. Desapareçam vocês três. Eu estou aqui toda encolhida e vocês não percebem? Pela primeira vez me senti muito irritada com as conversas deles. Pela primeira vez desde que nunca mais estive com o Miguel. Ele me irritava. Eu lhe retornava ainda mais cheia de questões. Ele acha até hoje que eu cedo, mas eu o estou sempre a desafiar.

Tinha dias em que eu estava muito bonita. Nesses dias eu percebia coisas. Vi isso: uma gritava que o outro não a queria ouvir. Vi o interior de uma bela casa. Está vendo: nem tudo é o que aparenta. Uma porta torta, uma janela apenas e dentro a aristocracia. Voltei a pensar naquele caso, quem seria o mais surdo ou o que não queria ouvir. É que tem dias que me deparo com tantas certezas que me canso. Estou parando por aqui e neste momento não vou pensar...

O Miguel, às vezes a filosofia é o virtuosismo da burrice. Estou um pouco abstrata, um pouco indignada com... Olha o deserto, o Miguel. Talvez eu sugira algo, ou tente convidá-lo. Estou tão perdida. Do teu lado tenho espasmos. Você me vê: estou tranqüila. Vou deitar e dormir ao som de um piano. É só um piano. Nossa despedida foi tão sutil, eu não posso falar. Vacilei na guia; você está sem mim, mas foi bom? Bom lembrar de tudo? Eu me envergonhei, senti-me humilhada. Corei e te procurei. Eu, e também o Miguel, não gostamos de falar, não queremos entender. Mas nossos corpos estão impacientes. Como quando éramos jovens. Nossas bocas foram deixadas por beijar. Até mais, até.

Eu tento ser o vento, o Miguel. Eu me sentava no fundo da sala, perto da porta. Pronta a sair. Era você ali, hoje. Com uma sala de aula. Luz branca, o Miguel, no prédio colonial, você assim mais velho, aliança de casamento. Eu não mudei nada, o Miguel. Conversava em pensamento com você. Queria o meu nome escrito com o teu. Como se algo pudesse nos abarcar. As ruas que estou. Quando o Miguel se foi, a cidade ficou gelada. Frio dentro e frio fora. Não pude evitar a rima de estar assim agora.

Estou lendo aquele livro e te espero no café. Andei pensando em tudo o que matamos. E em tudo o que não deixamos morrer, mas essa conversa anda meio aborrecida entre nós. Nós dois queremos sangue, nós dois. Você se lembra do meu nome? Eu tenho uma coisa dura que me salvou de morrer no Miguel. O Miguel é poesia, não sabe. Tenho estado muito bem desde que ele não voltou.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Banal
Do seu lado sou banal e
Banana
Vou tocar na banda
do meu mundinho banal
o sucesso mais batido
dos versos tão banais
desse amor banana esmagada
escorreguei na sua casca...

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Série Cartas - Caríssimo

Estive trabalhando muito. Em quê? Trabalho braçal, marretando muros, implodindo pilares, escavando fossas, revolvendo terras, arrebentando canos, retorcendo vigas de aço, jogando fora a mobília, sacudindo tapetes, queimando papéis, arrancando raízes, arreganhando janelas, apedrejando telhas, rasgando roupas, enfim, burning down the house. É que vou viajar; já é hora de partir.
Um cigarro antes? Bom... (acendo o cigarro – meu isqueiro é branco, meu cigarro é branco) Uma folha e uma mente em branco. E letras. O que fazer? Veja bem, depende – um pouco – de onde se quer chegar. Mas não quero me repetir. Quem é você a quem dirijo as minhas vergonhas?
Dedico-me a escrever que é para não pronunciar. O ato pronúncia é que me fere. Há muito e sempre o que ouvir. Ainda assim, minhas sentenças na página são carregadas de metafísica vocálica. Mas, não sei o que falo, escapa-me, como todo o resto da composição.

Dia desses, quero ouvir da tua trajetória. Não quero saber.

Vacilo sempre diante da tua porta. Pressinto tal densidade por detrás dela. Hoje entendi isso: pode se querer companhia querendo continuar sozinho. Querer ficar só em alguma companhia. Uma vizinhança, talvez. Vão livre: toda vez que batemos o cigarro no cinzeiro sem que haja cinza para cair.
Hoje o tempo me foi milharal. No silêncio estalado da palha nos beijamos. Não. Sentamo-nos lado a lado, rodeados por uma filosofia longilínea. Trazíamos baixas as cabeças, a olhar os pés sobre as palhas que descansavam em decomposição depois de já terem cumprido sua função. Não acho que elas tiveram qualquer dúvida.

Ontem isso era devaneio, era mesmo o silêncio.

Num encontro com a rua pela madrugada, ela era só violência: atropelos, sermões, olhos fechados, pessoas de quinta, copos quebrados, quedas e saltos, cabelo queimado, maço fumado, tempo imaginado. Blasfemei a mágica. Eis, pois, minha confissão. Talvez tenha chorado aos pés dela como menina boba de olhar embriagado. No entanto, ela continuava irrefletida no espelho à minha cara. Só a poucos minutos percebi o que lhe fiz. E o que ela me fez: assim como deus mostrou-me várias vezes onde punha o dedo - na época em que lhe acreditava - também a mágica puxou-me a orelha em direção a seus glimpses. Ela, veementemente, eu. Jogou sobre mim uma chuva fina depois de ter-me feito rir o dia todo pela não-noite anterior. Abusou-me com o frio vento no rosto. Fez-me gato a saltar, soturno no escuro, brincando de ciranda com loneliness. Caminhou-me pelas ruas aos pensamentos de estar dançando e depois, escrevendo-os com cores, esgueirava-me.
Minha voz é grave agora, meu blues é doído, minha escrita torta. Torta na cara. Ao menos você sabe que não pode entender. Eu perdoei deus pelos aleijados. Tive de fugir. Sim, de mim. Sempre. Ouve: a noite de ontem tinha violence and violins, mas percebi hoje, já que esta outra noite estava menos hostil, que não era violence que a tornaria, como aquela, ríspida, mas os danados dos violins. E já que hoje eles não cortam o ar, violence está acolhedora. A grande violência está no calar.
Deixe-me falar um pouco sobre os violinos. Que audácia! Sobressaiam-se nas ruas dentre ruídos tortuosos. Tão sinuosos são os violinos – por isso escorregam pelos vãos entre os ruídos. É uma hipótese. Os violinos são de uma sutileza serelepe. São capazes de nos fazer passeios nos ouvidos, passeios sonhados e profundos, longos como a cadência dos segundos. Eu seria um violino agora.

Violência é buzina de carro no domingo.

Violência, é a necessidade. Como dizer do que me ocorreu agora à noitinha? Quando presenciei em teu rosto algo que não compreendi mas compartilhei. Galerias subterrâneas, uma complexa malha de túneis cortando toda a cidade embaixo dos pés. O lugar de não ver. Sombrio, quieto, lúgubre, escorregadio, claustrofóbico. Escrevo e a caneta me falha. Emociono-me. Também a memória falha, a voz falha. Falha o sentido. Agora é assim: olho para você e tenho uma encruzilhada.
Tento o que procuro. Estou sempre tentada. (Tenho um poemóide dedicado às minhas tentações.) Estou a escarafunchar. A palavra tem som e tom tão grosseiros, que me cabe. Estou esfomeada. Terreno que comporta infinito varal de lençóis brancos, o eterno esconde-esconde para o fôlego da criança. Desejo deseja. Olhando daqui, chegadas são vulgaridades.

Esta carta me sai diferente. De outra cor folha, letra outra. Sai desconfiada. Sai magoada. Sai pensando em encontrar um analista. Sai cheia de pausas. Cheia de vãos... Envolta por duros apontamentos. Tenho de recorrer a palavras e formulações que na são minhas. Afeta-me muito isso das cartas. Não têm nomes, não têm datas e assim permanecerão como um grito no vácuo. Não há para onde se propagar. Não há sequer bom ou ruim nisso. É somente mais uma dimensão em aberto. Cartas são para mim como mulheres e cigarros, fetiche.

Imundice será o mesmo corpo poder sentir frio e calor ao mesmo tempo?

As palavras se me vão gastando no tempo, no pão dormido, na garrafa vazia. O que tenho feito é aguardar tranquilamente pelo meu convidado especial para brindarmos ao tempo pela surpresa. Eu que não me conformo apenas por pura convenção ou teimosia, direi a ele quando adentrar por minha porta: sinta-se à vontade, faça o que quiser, estou devidamente concentrada em deixar. E não direi mais uma palavra sequer pela boca. Falarei antes pelas mãos e respirarei lenta e profundamente pelos meus ouvidos. Os olhos sempre ficam perguntando, por isso lhes providenciei cortinas e calmantes, os olhos degustarão apenas. Enquanto isso, a cabeça há de se devorar numa orgia de fogos de artifício.
Estou me perdendo dia após dia e não me decido a respeito de salvar-me ou não. Salvar-me do quê? É uma grande questão. Correr, correr para longe, para nunca, mas correr do quê? Sinto que ao correr me aproximo e então, num impulso saco uma lâmina afiada para assassinar tudo o que me põe em cheque. É que às vezes não me perdôo. Simplesmente porque ainda me preocupo com o que tenho a perder. Mas, tenho o quê? Perder. Ganhar. Desculpe-me, tenho de rir disso tudo. Afinal, pode ser tão aceitável que ser alguma coisa seja não ser suscetível de interpretação (salve Alberto Caeiro). Estive com um fotógrafo e revoltei-me. Só por alguns instantes, pois estou sempre confusa o suficiente para desistir e esperar a poeira assentar. É que não foi ele em si que me provocou. Usamos muitos instrumentos, ferramentas de diversas naturezas e com variadas utilidades. De repente ele me clareou que não nos servimos muito bem dos instrumentos – uma vez que lhes atribuímos fins e lhes pensamos manuais. Escondemo-nos atrás deles e pensei como poderia ser estar por sobre eles. Não para desprezá-los ou assim, usá-los e descartá-los, nem elevá-los, mas para que mostrem a quê vêm quando vêm. A ferramenta é incompleta, qualquer uma delas, lhe falta um objetivo. Falta? Acreditaria que criei outra língua por não suprir a falta da ferramenta? Onde está falta nisso? Está algo que não domino, que inaugura a percepção de outro fluxo que me desvia, que me lança, que me abre. Aff... quanta asneira.

Sonhei que tramavam acabar comigo. Um homem regia tudo, era uma espécie de xamã, ora negro, ora índio, ora de cabelos brancos, ora ria, ora gordo, ora aparecia e depois apenas pairava. Mas eram dois seus executores e estavam em toda parte, seguiam-me, usavam capas negras, sem rosto, manejavam espadas. Às vezes eram homens de sombras e outras vezes eram espectros. Nesse sonho, o ambiente era desértico, humilde – não, decadente está melhor - , coisa de roadmovie, ou de livro do Castañeda. Eu corria, tentava me proteger, estava tensa. Num dado momento, passei muito perto dessas três figuras e voei em direção a uma adaga de cabo branco pendurada num poste que sabia de alguma forma ser minha única defesa. Voei mesmo. Senti um enorme frio na barriga, olhei nos olhos de meus algozes. Quando achei que estava segura depois de sair correndo e tê-los enfrentado com o olhar, ao chegar em casa, alguém mulher me mostrou aflita o musgo se infiltrando e se espalhando pela minha parede: era o sinal de que eu não poderia me salvar. Alguém tinha plantado minha morte, e aquela coisa que se espalhava pela minha parede vinha anunciar que não havia jeito, eles iriam me pegar. Minha casa cheirava a óleo de cozinha. Sinto-me completamente ameaçada.
Já não quero idealizar meu fluxo, como se ele mesmo tivesse uma missão final, então, contradigo meus pés. Tampouco sei até que ponto posso suportar Mme. Contingência. No entanto, quero intimidades com ela. Quero também um choque de alta voltagem e até ando procurando por aí pelas pessoas, pelos olhos, pelos caminhos, pelas vontades, tomadas. Estou cultivando a crosta. Uma hora, vôo curva afora. Ou grito sufocada no travesseiro, entre lágrimas, baba grossa e nós no peito. Não me culpe, fico até com certo mal-humor diante da situação. Começo disfarçando, mas é tão baixo fingir. Entretanto posso fazê-lo, sempre posso fazer o que quiser. Agora, quando te vejo, lembro-me de que você já sabe.
Sinto medo, um medo terrível, tal qual o medo de passar. O que você pensa quando se deita para dormir? Não sei se temo mais dormir ou acordar. Se me perguntasses: passou? Diria que não, de maneira nenhuma. Tudo se há intensificado. O único artifício que tenho é o do disfarce. Sou um ator. É uma dor que age leve. É tão pura como não se pode defini-la.

Sempre eu, eu e eu. Mesmo assim, deixo-me andar por outras pernas. É irritante. O problema sou eu e também a solução. Mas é líquido. Pego-me enlouquecida e tenho de correr para não me derramar. Apelo às lágrimas, gostaria de explodir nelas, só que não consigo. Tudo está sempre pronto a me confundir. Você mesmo, confuzzles me, my dear. A única saída que vejo é meu edredon quente, músicas favoritas e pesadas demolições de EU. Escrevo devagar e trago no olhar tanta dor. Incrível como passei um dia tão cheio de sorrisos e autoconfiança e tudo fundamentado num lixo: a esperança. É realmente uma paixão triste. Penso, penso, penso, não paro de pensar, tenho que deixar e preciso macerar os nódulos, jogar a merda no ventilador. É isso a que chamo de inteligência, pegar o descontrole pelos chifres. E pouco pode me importar todo o resto, ou todas as pessoas. Nada disso me diz respeito. Como escreveu um grande poeta, o que quero ainda não tem nome. Quero a maneira de circular, quero subir à superfície para respirar e depois pesar ao fundo como âncora.
Caras que surgem na madrugada, se revelam aos minutos eternos, e depois, outra noite qualquer, desdobram-se uma vez mais, e de novo, e me tiram a noção. É cada vez outra e outra cara que aparece, que abre uma fenda sob meus pés, sobre minha cabeça ou nela mesma, que me fazem desejar a vida e a morte, numa oscilação sem fim, que me esforço por não tentar entender, mas por viver os momentos raros de deleite que rompem a dúvida, a dor e a expectativa. Minha luz está acesa, não consigo apagá-la. Ouço passos na rua, estou sempre sendo tocaiada pelo aguardo. Ele não me abandona, não me dá descanso. É tortura refinada. Compartilhamos uma coisa, todos nós: nosso gosto pela ficção, pela película do pensamento que gira histórias que jamais acontecerão. É o arrebatamento pelo drama.
I seek for granted access, onde possa reconfigurar alguns sentimentos; a primeira impressão deles não é, na verdade, a primeira. Busco a segunda, a terça, a quarta, a quinta ou a sexta parte. Não concordo com minha entrega de fim de semana. Sou uma pobre devota. Minha atitude devocional, meu caro, me é tão fácil. A culpa não é de ninguém mais a não ser minha, e a culpa me chupa os ossos, me desidrata, é tão difícil deixá-la. Culpa por não já ser algo pronto a caber. Estou morrendo, sim. Vou morrer grávida de raiva, dor, repressão, nostalgia, vontade, apatia, posse, revolta, nojo, felicidade, azedume. Sou culpada. Sou uma grande merdinha. Sou uma grande obsessão no buraco da noite a evocar cúmplices do meu delírio. Não sei me comportar. Sei sofrer. Sei doer. Sei gargalhar. Sei cantar e gritar. Sei correr. Sei me convencer. Mas não sei não querer.
Se em algum momento de hoje pensei que você talvez estivesse guardando um segredo para me dar, me perdoe. Mas me conte. Me conte tudo, encha minha cabeça, me mata de você. Lembra-te que depois de todo crime, lava-se as mãos com esmero. Estou sim, agora sim, é claro, suplicando por algum valor, porque estou tão chão, tão exausta. Pena não conseguir simplesmente virar as costas. Olho as horas porque certamente alguém as olha e com elas se preocupa. Eu não. Preocupo-me apenas com o que elas me trarão. E tenho a intuição de que será sempre assim, insuportável. Terrível.
Tenho dançado andar, tenho atravessado as ruas como aprendi com ela, the emptiness who crosses the path. Estou cansada. Estou com aquilo dentro do peito. E sempre me pergunto como é que se faz por aí? Tomo um porre? Ponho tudo a perder? Esse tudo tão cheirando a nada, essa instabilidade do solo que pode ser inundado a qualquer momento, faz-me saltar de um platô para outro numa corrida infernal contra mim mesma. Ah! Eu também, se fosse como você, rir-me-ia, sem mais nem menos, dessas palavras. Não peço nada além de que acaricie teu espanto diante de mim, com cada uma das tuas caras quando na minha frente ou pelas costas, você sentir nada. Eu aceito, eu sou antes e depois. Eu vou dormir, apesar de tudo, tenho sono nesse momento. Isso é fácil, às vezes, quando não estou perturbada demais sem conseguir distinguir sonhos e pensamentos. Os acidentes que vão se atropelando, me esmagam de inesperado.
Nasci sabendo to weep and moan... mas só agora a pouco adquiri o direito de me calar diante dos incidentes nas palavras e nas atitudes. Que sujeitinho, eu. Que mente doentia quando quero estar longe, muito longe, em algum lugar onde ninguém nunca poderá me alcançar e, no entanto, procuro alcançá-lo. Que tipo de reconhecimento é esse que se busca nos rodamoinhos da imaginação? Onde você está agora? Olhe ao seu redor.
Deixo minha mente passear, transitar por imagens redistorcidas, como um navio quebra-gelo. Ela tem muito o que dar e não há quem possa receber, é só meu. Isso sim, é o meu e o será na sua duração.

Tenho uma cauda longa e garras de rapina para orientar-me na descida vertiginosa da colina de espelho prateada. As faíscas fazem festa aos olhos do transeunte desprevenido. No pescoço uma pesada placa esculpida em advertência de que não me tome pelos olhos, vermelhos em farpas, esfumaçados pela horda de afecções. Esse animal que sou é capaz ainda de cartografar rostos no escuro, através do hálito morno e mordaz. Infectado por um vírus responsável pelo distúrbio dos toques e dos grunhidos, esse animal rasteja sobre as próprias feridas e as lambe lascivamente enquanto as lágrimas escorrem pelos poros junto com a alma. Lama é sua comida e sua companhia, até a linha imediatamente abaixo dos olhos. Ainda assim, ele desliza. Serais ce possible alors?

Lapso no dicionário: 1. Espaço de tempo; 2. Engano involuntário. ‘Isso’ é a parafina da vela sendo consumida pela chama acesa.

Beije-as todas, meu querido, beije-as sempre que possível. Todas as flores da noite. Intensamente. Intensa mente. E depois, se tiver tempo, descreve-me os sabores, responde tua própria pergunta, aquela, do sabor do inefável. E sequer precisa falar algo. Não há cuidado maior que te possa pedir. E sempre, obrigada pelos abraços sinceros.


P.S.: desde que vomitaste em mim, te sonhei três vezes. Foram bons sonhos. Não querem dizer nada, eu creio.

Série Cartas - Carta II

Acendi um cigarro para te escrever e uma vela. Não sei o quanto isso há de me custar. Mas se escrevo é porque venho contar-te minhas últimas. Não conheço seu interesse por elas. Por isso comecemos assim: palavras ao sabor dos ventos, palavras enxurradas na música do riacho que contorna minha casa.
Explico-me. Acordei e era dia. Não sabia então qual algo estava por vir. É óbvio. Aconteceu de tornar-me assistente de mágico logo pela manhã. Fui enfiada numa caixa escura e atravessada por sem número de facas de papel afiadas pela pedra de uma densa poesia em prosa. Cheguei a chorar, se me permites confidenciar sem constrangimento. Fora isso, fazia sol, hoje, depois de dias cinzas.
Foi tão bonito o atravessamento, tão comovente, que vislumbrei um mito, creio eu. Mas não sei precisar a origem, apenas supus - por alguma maneira boba e qualquer de olhar as coisas que acontecem - que se tratava de uma manifestação em alguma medida mítica. É simples: fui dilacerada, morri em horror e sangrando cada frase senti-me tão plena! Tão nada! Tão plácida! Lia a correr, espantada com tamanha identificação, que me lanço agora aos meus próprios papéis para jorrar conjecturas ressurreicivas. Não sei como, já há tempos, não sei quanto, pensei em você para escrever. Não digo que tento o dividir pois seria bobagem. Não consigo jamais.
No momento em que lia minha boca tremia, a voz vacilava, meu corpo se debatia. Convulsionava pensamentos e queria falar, falar o quê? Queria escrever esta carta que não sei como termina. Precisei parar e organizar alguma coisa saltitante que coubesse ao menos em linhas, sem nunca esperar que essas linhas contivessem qualquer sentido ou serviço. A clareza nas linhas é fim de túnel. A sensação de dentro do túnel se perde na luz do seu fim. Perde-se o melhor. Esquece-se. Enfim, pude ver-me escrevendo estas palavras inexatas, como quem titubeia, em papel vegetal à tinta preta. Para mim, são assim cartas. Ou em folhas amareladas de caderno velho. Possuo um. O caderno velho é bonito, parece que faz a gente escrever como grandes poetas; penso até que inspiraria certa ancestralidade poética, certa visceralidade incontestável daquilo que se molda às palavras num rompante generoso mas que permanece suspenso. As musas. Devem ser elas feitas de papel amarelado e nesse caso, só poderia escrever no papel vegetal, ou seria heresia. Até porque nele a palavra vaza do outro lado. É rara. É latente. É contrária. Não é publicada. É fugidia. Transparente. Não é inspirada, é segredo. Escreveria no ar, mas poderias ler? E para que ler? Se não queres ler, ateia fogo a este papel e a esta tinta. Eu continuo ecoando em algum lugar que não me diz respeito.
Desta não-feita, prossigo. Antes de estar aqui esparramada, fui caminhar, sonhando minha pele estava com o toque do grande sol. Piegas, mas ele é grande mesmo. Pedi a meus pés que me levassem em direção à flor que habitaria uma garrafa de vinho vazia na minha casa. Acreditei que seria levada, e isso existiu porque acreditei. Existir é feito de fé, não é? Essa flor é para você, porque eu nunca te daria flores. Mas a flor que encontrei eram duas, que arranquei do meio de outras muitas flores laranjas. Vívidas sob o sol, trouxeram a mim estupor e inveja... por que eu não sou assim tão, brincalhona? Perto das flores havia três meninas, era uma praça, era de tarde. Olhei pra elas, cheia de vergonha com as duas flores na mão, me sentido a quarta menina e então galopei sumindo do seu campo de visão. Lembrei da menina de cabelos vermelhos que fui eu um dia e da qual resta agora tão pouco, a não ser o fato de que sou ela desde antes e dela nasci. Não faz tempo, foi ontem, talvez.
As flores. Não peguei duas porque pretendia. Antes eram elas as mais proeminentes e pendiam do mesmo galho. Eram como olhos de lagarto, uma para cada lado, mas, diferente dos olhares tensos dos répteis, os pequenos olhos fluorescentes em flor olhavam estrabicamente despojados, sincronizados à vontade com o balanço do meu corpo e o do vento que também dançava meus cabelos.
Se pensas que estou feliz e cor-de-laranja, não me superestime. Essa capacidade bucólica eu não encontrei. Passam dias sem que eu sinta seu cheiro. Apenas te falo. Falo aqui, e talvez preferisse o silêncio, mas ele tem o hábito de me fugir, vez em quando.
Vou te falar uma coisa agora: andei pensando muito em morte nos últimos tempos. Acordava querendo saber a cara da morte. Como se eu não morresse a todo momento possível. Morro agora do medo do que são nos teus olhos minhas palavras. Cheguei aqui onde poderia: nos olhos. Não uso mais óculos escuros, o que não se deu espontaneamente. Só que ainda a pouco vi meus olhos num espelho e vi que são bonitos. Não vou mais omitir meus olhos. Por ora. É que o espelho estava fundo dentro deles, mas não falo de espelhos porque teria de falar em olhos. E isso é assustador. Os olhos.
Ando tão à espreita de algo em onda perpetuamente por vir. Quero falar-lhe sobre as ondas, porque delas eu nada sei. E me rio disso. Salve os trocadilhos infames. As ondas são isso, o que fica por falar na próxima linha, ou tudo aquilo que já se pensou e se perdeu. E decidi de hoje para mais não me apegar às idéias que me voam. Olho o céu absurdamente azul, liso de toda nuvem e minhas idéias se colam cúmplices ao seu infinito nada límpido. C’est le mystère qui m’ensorcelle...
Divirto-me com as idéias desvairadas. Quem passa à frente de minha porta bem agora? Coisas de quando se é um só. Digo um solitário. Você quer falar de solidão? Não é possível. A solidão, déesse et immortelle. Você não quer falar.
Esta carta, não sei a quê vem. Com que propósito, me é vago. Não tome mal minhas palavras. Não respondo por elas porque não as sei senão como algo infinitamente vasto e indigesto. Um buraco lotado de conexões vazias, enfim, de porquês fortuitos. De lampejos. Da irresponsabilidade de quem não sabe escrever. E se são para você e para ninguém, não é culpa minha. A culpa é do que não se pode dizer.
Se dou voltas e voltas é por ser uma dançarina, e como os cães, os dançarinos gostam de correr atrás do próprio rabo. Se falo de mim, perdoa-me, mas é que tento falar-te, só que não sei tua língua. O que posso fazer com uma língua? Pintar um quadro, como se pode fazê-lo com dedos, pincéis ou cotonetes. Com o cotovelo, com imaginação. Sempre começo a pintar com contornos pretos. Esta carta. Não sei por que, o preto chama depois as cores que lhe convém. Talvez não tenha pinturas sem o preto porque ele é o xamã. É o por trás, um regente – ou seria eu? Ele evoca a pujança das cores. E sobre as cores tudo desliza, a verdade desnuda. Logo, é mentira.
Eu também sou um quadro, e como a mim mesma, tomo os quadros que faço e deles enjôo. Destruo-os e pinto novamente e há que se ter força. Por acaso, ou não? Eu sempre apareço nas minhas próprias pinturas. Há quem sempre apareça nos próprios sonhos, mas nos meus sonhos às vezes eu falto, todavia, nas pinturas sou sempre. Nelas, meus olhos costumam estar fechados. A cabeça venta e os olhos estão fechados em pleno derretimento. Estou na sala e os olhos cerrados em dura introspecção. Estou no palco, e dominada por minhas paranoidelias, a face remexida em angústia e gozo, lá estão eles, os olhos, cada um dos dois, fechados. Até quando sou outra natureza, aí é que talvez sequer haja olhos. Um ao menos, bêbedo. Sempre estilhaço com o poder dos olhos de arrepiar vértebras por aí.
Preferiria cortar os pulsos a entregar-te esta carta. No entanto, sendo ela o desdobramento de um pequeno poema ingênuo que fiz há algum tempo atrás e que ainda me engasga, sinto que devo fazê-lo. Porque é para você. É para você também porque é tão meu tudo o que digo, mas não sou eu.
E sobre o tempo nos calemos. Ele é frio. Tão frio quanto se pode ser quente. Não achas? O que vem depois do tempo? E onde é que ele está? Aqui, com você, ou lá, comigo? Faço as perguntas erradas? No tempo em que te encontrei casualmente pelas ruas de pedra, minha voz para você foi cálida. A mais cálida voz que pronunciei. Não a conhecia. Obrigada. Você percebeu? Eu nunca tinha lhe falado daquela forma. E, no entanto, dois passos adiante eu já pensava borboletas com outra voz, a saber, uma que habita minha cabeça e que sou eu sem parecer ser. É que me confundo agora: será sempre a mesma voz, ou sempre diferente sem que me dê conta? O que estou tentado te dizer agora?
Pausa.
Sobre o tempo. O tempo hoje me foi montanha. A montanha é um acontecimento. Ela consegue nos enganar, parece parada e dinossáurica. A mim, ela traz certa palpabilidade ao que sempre esteve e sempre estará. Um remedinho para a cabeça. Suas dobras, são assim, registro inexpressivo do atempo. Ela se acontece; se faz ela mesma horizonte. Parece mas não é, acontece.
Não se trata de algo conhecido. No meu penoso exercício de segundo a segundo – e o tempo não me deixa mentir, mente ele mesmo – o que minha mão quer tocar não é teu rosto. E se tento através de palavras, é porque talvez eu realmente goste de me sabotar. Delicio-me com os solavancos que a facticidade me proporciona. Se me ouvires gargalhar descuidadamente, é que nasci aos trancos, sob a égide de uma coragem súbita que me impulsiona para o stand by. Eu permaneço, eu perpasso, eu consigo. Eu vivo, com tudo isso.
Mas sobre viver, não posso me adiantar. Vivo aqui e já acabou. Viva! Já se foi o que era ontem e o que é agora, porque quando chegas ao final da palavra agora, acabou-se, toda tentativa apenas reverbera, sem que se tenha qualquer domínio sobre os encadeamentos curiosos de um todo inalcançável pois fatalmente inexistente. Fatalmente aficcionada. Cheguei perto de dizer algo que queria, mas não queria dizer. Já se foi o disco-voador.
Não quero cercas. Vim revoltada aos papéis gritar que não sei de nada. E que não me cobrem nunca, pois eu mesma já não o faço. Não olho as horas no relógio. Se como? Muito pouco. Se durmo? Muito menos. Como sou pequena. O que chamo de realidade é uma montanha-russa. E vou comer e dormir? E tudo o mais?
Ontem que era hoje já, dancei a noite, ao som do meu próprio canto. Meu canto é a corda no labirinto. Meu canto são as migalhas de lucidez no ébrio devaneio. Ah, como sou poética. É de matar...
Há momentos em que paro de escrever, que já está bom, que já fracassei em tentar falar, entretanto sinto-me como uma pílula efervescente que não se gasta, mas se nutre das próprias bolhas, umas nascendo de dentro das outras. Talvez seja por isso que me caiba tão bem, ao que parece, ter esses olhos de caleidoscópio. Esses pés que levitam sobre as pedras, essas mãos tensas emanando energia que ora pulsa laranja, ora azul turquesa, dos dedos para o quadro do grande, amplo sei lá o quê que me contém sem que eu abarque qualquer traço. Esse corpo que pensa bailando junto ao ar, cada partícula frenética, tudo girando, pessoas, objetos, noções, plantas, animais, velhas. Nessas horas, posso até morrer.
Toda dose de drama é friamente calculada. Não sei quem calcula pois eu mesma não me entendo com a exatidão matemática. Ela me inspira a mais nobre admiração, me consterna, mas não me quer. E vivemos assim, a nos esbarrar pelas ruelas e goelas, como acontece também conosco. Digo eu e você, a quem endereço esta infame carta não datada.
Quando também eu for uma velha, aquela velha que vejo no fundo do espelho através dos meus olhos caleidoscópicos, não quero me lembrar destes meses, destes dias ou sequer deste lugar. Quero lembrar-me de outra forma, lembrar de uma forma que não se possa chamar de lembrar, que seja outra coisa, assim também contida e suspensa. Mas deve ser coisa de doido, porque poderia fazer tudo de outra forma, se assim quisesse. E por que não mudar os sensos? Isso é delicado. Eu poderia inventar novas palavras. Qualquer um poderia. Se chamasse amor de ‘gantere’. Bom, ele seria a mesma coisa, certo? Digo, da maneira como aprendi que se dá em mim. Então é preciso torturar o termo até que ele se torne um fio. Um mero fio condutor. Porque amor ou gantere, enquanto tal, o que é, para além das letras? Mais interessante talvez fosse explodir ou implodir, não sei, o amor sem que se soubesse, deixá-lo escapar entre o misto de pensamentos e sensações sem tentar encerrá-lo em sílabas, para que ele pudesse ser cada dia coisa nova, movediça, vacante e gauche. Assim, toda qualquer outra coisa poderia ser um desarollo inexprimível e vivível. Engraçado e anárquico – o sentir mesmo, corpo absurdo. Claro que, nesse caso, dar nomes seria pura brincadeira, seria por pura diversão e exercício de fantasia. Finda a brincadeira, findo o mundo.
E agora, por exemplo, me vem à tona o fundo. O fundo profético. O fundo que me guarda, que te guarda, que aguarda a tudos nós. Fundo como sábio que é, não nos aguarda. É óbvio. O fundo só é. É na noite, é no dia, meu caro. E quando digo que me és caro, é porque o é profundamente. É obscuro. No escuro, te trago um pequeno segredo. Havia uma escada na minha vida, quando menina. Dia desses, eu conversava ao telefone com minha mãe, e entre seu pensamento ziguezagueante e sua fala frívola ela diz: ‘a escada de madeira da casa da sua madrinha, lembra? Quebraram tudo. Uma pena... blá blá blá...’. Saí do ar, tomada que fui pelas horas que passei sozinha brincando na tal escada de madeira encerada... a parede de pedras do lado direito de quem desce, do lado esquerdo de quem sobe. As telhas transparentes sobre a escada pelas quais eu via se era noite, a cor do dia, se chovia. No estreito corredor feito da escada, eu era pura criança. Ficava sozinha ali, separada, entre o primeiro e o segundo andar da casa da minha madrinha. Penso qual outra coisa na minha vida lamentarei tanto quanto saber que essa escada só existe nas memórias da família como escada de madeira encerada. Mesmo depois de adulta, voltava lá e passava a mão pelas pedras, procurando as soltas, para ver o que tinha por trás, ou descia sentada deslizando pelos degraus e depois escalava-os como um felino sorrateiro.
Será que encerro por aqui? Peço a conta e afogo-me nos cheiros do meu lençol, do meu cobertor, morro como cigarro aceso afundada na grande angústia que só o próprio quarto pode proporcionar? Há muitas páginas que apontam atalhos para o fundo derradeiro. Tenho tanto a ler. Certas leituras trazem-me um sabor de vazio tão intenso que faz-se em mim a cicatriz da fome, aquela marca indelével dos sem nome.
Eu não tenho um nome. Eu poderia ser Gabriela. Poderia ser Valquíria e adoraria ser Magali. Se meu nome fosse Sandra, quereria chamar-me Beatriz, e invejaria as Isabelas. Mas se fosse Paula, amaria ser chamada de Denise e talvez acordasse Maria Cecília, ou Maria. Já pensei em ser Guilherme e já fui Calímaco. É o de menos, como me chamas. Podes inventar para mim um nome agora mesmo e assinar esta carta. Fica como um segredo teu, porque de qualquer maneira, se me chamasses por esse nome, eu não te atenderia. Estou muito condicionada a ser eu mesma.
Escuta. Estou na tua frente e minha boca se abre cheia de fumaças. O rio continua a correr ele mesmo, Outro. Escrevo rápido tentando amontoar palavras que justifiquem toda essa parvoíce que embrulho e fecho com um belo laço de fita para te entregar. Não posso garantir nada do que disse. Tomemos um café para discutir essas contradições. Em algum lugar no futuro. Sendo que não há o futuro e nunca houve, passado, O passado, não mais desde agora. Se eu te disser que quero uma carta-resposta. Se eu te disser que não quero nada. Que tenho medo. Que não sei. Que não há quando. Que sou isso mesmo e me envergonho. Que me orgulho. Que não sei se estou pronta, se você está. Que não sei para quê.
Se não pude sequer datar esta merda, não poderias esperar que a finalizasse como exige a formalidade das cartas. Mas é simples: estou nas últimas linhas. Escrevi porque senão morreria. E cada palavra é, na dúvida e em certeza, a minha morte mais tenra. Entretanto, é a vida que te quero. É ela a todo momento, e não me tomes por uma otimista simplória. A vida e a felicidade, se quiser falar sobre isso também, são fontes da mais cristalina dor que pode um homem. Sem reducionismos, por favor. Eu, como homem que sou, como mulher que desisti, como essa coisa de espírito feito cativo de corpo, só posso dizer que não existo, mas sinto, na medida em que aconteço. Eu sinto muito que você me acontece.
Olho tuas mãos e vejo nelas encerrados muitos dizeres. Na impossibilidade de tomá-las, digo eu tudo o que me vem à mente atordoada. Não espero mais. Espero a todo instante. O instante que ronda e explode em passado. Olho as minhas mãos e recuso-me a me reconhecer. Não aceito estar assim, dentro de um self-portrait que não sou eu e não é ninguém mais. Eu devo dizer, atenção, leia com muita atenção, que estou passando. Que não sou flor. Estou a passar. Obrigada.
Pensei em revisar a carta, mas desisti. Umas sete vezes. Não faz sentido isso. Não há nada sendo acordado aqui, isso não é um tratado, são linhas, papéis e tinta preta. É dor na mão. Isso não é brega, não é carta de amor, pois o amor me esconde a cara, quer jogar. O amor é tão infinitamente mais outra coisa do que ele mesmo. Desculpe-me, mas vivo amor. Pare já, caso esteja sentindo revirado o estômago, lendo o amor como isso que se vende por aí. Não mereço entrar neste lugar, sou indigna de qualquer piedade e devo ser mal-entendida, miss-under-stood. Quero dizer entendida de outra forma. Mas isto é fácil. Desconfia de mim. E estou mesmo sendo bem clara agora. Pode me chamar Clara. Clara ama a vida. Clara não sabe o que seria amar. Não sabe o que é a vida. Saberia a morte algum dia? Pouco importa. Viste tudo o que escrevi até aqui? Consigo deixar se entrever a diferença no fundo do cômodo?
Conheceste a minha letra. Como fiquei agora bastante constrangida, penso que é hora de parar. Olho minhas mãos e elas me ignoram. Eu também ignoro todo o resto. É preciso rever. Não revisar, tampouco reconhecer. É preciso rever. É como se fosse possível ver. Eu pura textura nas tuas mãos. Eu palavras sem dizer dizendo um mundo de dentro que se desdobra em querer ser. E o ter anda tão démodé... ultimamente a boca anda cheia de paroles que não cessam de se calar, umas engolindo as outras em tumultos de não entendimento, numa caçada atroz ao ato destruidor de tudo que era. Porque não há o que tenha de ser.
O jeito é rir. O jeito é.
A campainha tocou. Que susto. Estou agora sem cigarros. Não se surpreenda se eu lhe enviar outra carta um dia. Não se surpreenda. Deixe-se surpreender, e isto não é conselho, não é nada. Histrionismo literário, falo por falar. Falando, parece que tem outro sentido. Equivoco-me, as palavras me sobem pelos tornozelos, entrelaçando-se, tombam-me de boca na caneta falaciosa. Estou surpreendida de assalto. Roubada de úngulo sentido. Arrombada de mirolhos anfanchantes qui sebariondam porálias laciduantes. Por tudo, por nada e qualquer coisa. Obrigada.

Série Cartas - Carta Zero

I. Sobre como se pode ser cego

Gosto de tocar meus ossos. Apalpo as carnes com suas diferentes densidades e atento-me a textura das peles, mas o que busco mesmo é o que está lá dentro, aquilo duro de formas tão bonitas. Esculturas de matéria tão humana, os ossos me assombram. Penso nos longos ossos e sinto falta do fêmur que jamais toquei. Gosto do rosto porque nele a carne é fina, e os locais onde se pode aprofundar os dedos são muitos. Também gosto porque me pasma saber que não me identifico à toa com os crânios. Enterro o polegar nas bochechas, abro e fecho as mandíbulas e posso ainda perscrutar com a ponta dos dedos as órbitas oculares, movendo os globos de um lado para o outro, empurrando-os para dentro, tanto faz. Uma coisa que aprendi durante as horas que passava no banheiro cantando – o banheiro é um grande sintetizador: meu efeito favorito, o reverb – é que a região palmar medial das mãos encaixa-se perfeitamente sobre a depressão dos olhos e pressionando-as um pouco sobre eles, tudo se vai tornado escuro e basta esperar até que surjam os primeiros pontos cintilantes que escorrem, piscam, e depois os padrões geométricos pululando coloridos com cores incomuns, próprias do encontro mão-olho. Gosto de sentir minhas escápulas deslizando sobre as costelas quando abro as asas. É tão frágil todo o corpo; às vezes percebo que bastaria um movimento mais brusco apenas para dilacerar as camadas do invólucro da cavidade abdominal para desvendar o mistério da organização dos órgãos, suas cores e tamanhos, seu cheiro. Ao mesmo tempo, os ligamentos são tão fibrosos que parecem duros como os ossos, e estes por sua vez, são esponjosos e flexíveis, cheios de nervos e irrigados pelo sangue, como qualquer outra parte. Não é surpreendente, todavia ensinaram-me dos ossos através dos ressecados, calcificados, fossilizados e pálidos esqueletos. Sempre me fora difícil conseguir imaginar um esqueleto dentro de mim tal qual via nas figuras dos livros de anatomia ou nos laboratórios da escola. De certo, quem me falava sobre anatomia descartava a possibilidade de haver algum tipo de dúvida sobre o corpo, pois muitos corpos já foram completamente vasculhados, seccionados, dissecados, atropelados, estripados, embalsamados, vivos ou mortos, enfim, estudados. Passo muito tempo tocando meus próprios dentes, com a boca seca para sentir-lhes devidamente como ossos que são, projetados para estar em contato com o exterior ao corpo. São ossos, os sorrisos. Nos ouvidos, tão menores, participam da cadeia do maravilhoso fenômeno da captação do som como timbre e cor, pela transmutação das ondas em impulsos nervosos, ah! pura alquimia, a sensação auditiva. Ora, para ser cego não basta que as vistas falhem. Pode-se ser cego dos ouvidos, dos ossos, dos instintos, das intuições, das palavras, etc. Também não é só querer estar cego. O que tem me intrigado é se, de fato, há alguma maneira de não estar cego; algum momento, talvez, onde não haja cegueira e tudo seja nítido; mas se é cego no claro ou no escuro, um cego no outro. A prática tátil é uma alternativa à absoluta cegueira que me envolve. Penso meu corpo todo feito de olhos, - como se olhos fossem as próprias células, ou pior, as partículas dos átomos - assim mesmo, de cima à baixo, revezando-se em suas piscadas e sonecas. Um ou outro sempre se demora mais para enxergar o que lhe cabe antes que o corpolho saia do lugar; ainda há aqueles que enxergam mal e os que identificam as formas e poderiam desviar-se, mas ignoram e chocam-se contra o poste. Os mais cegos entristecem-me. Estes, são os que vêem a solução, a verdade, ou coisa que o valha. Por assim dizer, eles vêem, então, estes olhos sorriem até adormecer. Ao se abrirem no despertar, só podem ver que o corpo mudou de lugar e o tesouro que encontraram já não serve, ou continuarão cegos. Acredito que estes olhos queiram mesmo livrar-se da dor da confusão de serem tantos, entretanto só há confusão a ser enxergada e o resto, são escolhas. Abrir ou fechar, virar para qual direção, qual filtro usar, pilotar ou não... distrações para incrementar o jogo dos cegos perdidos. Ainda bem que as bengalas, as bengalas existem. Sou uma colecionadora.

II. Minha mãe

Carrego o fardo de lhe desfazer a história sobre mim. Sua sombra amorosa suscita em mim grande desprezo, vontade de me desprender do cordão umbilical. Tanto amor que sinto, quanto mais longe muito melhor. Estou com preguiça de tentar atualizá-la sobre minha cabeça e suas produções. Nunca fomos assim, a mesma coisa, como eu pensava que era naturalmente. Vez ou outra eu a procuro nas lembranças e lembro-me vagamente dos pequenos milagres domésticos e dos rompantes de humor. Desisti de procurar algo mais forte na poeira da memória além da ausência. Mas há aqueles momentos em que abro minha boca e a sou. Que me movo, e a sou. Momentos em que olho as pessoas e olho o mundo, e a sou. Sobe-me o medo de já sê-la sem saber. Já tive oportunidades nas quais descarreguei minha fúria pela sua referência um tanto tola, quase sem expressão, sem brilho, mas por deus! (‘para falar à moda antiga’) não é mais ou menos coitada que eu. De repente me dou conta de que não a conheço! Jamais a conheci, não sei de sua história e já temia repeti-la. Diante dela sou criança, menos porque ela diga sempre isso do que por minha postura equivocada, meu adultismo agudo. Minha mãe chama-se responsabilidade e já nascemos aborrecidas. Seu corpo é âncora dela e de mim. Sua cabeça, mistério e consequentemente, desgaste. É assim a natureza juvenil. Carregar a palavra mãe me dói.

III. Meu pai.

Só posso admirar alguém que faz o que tem de fazer. Admiro quem foge, sim. Admiro quem não aceita. São atitudes muito férteis, senão, donde viriam os remorsos, as lições tão preciosas sobre a vida e os componentes da ‘personalidade’ doentia?
‘Papai, papai. Eu o chamo agora aos pés da minha cama, papai, para que você me ouça uma única vez, papai, para que não se esqueça, papai, nunca nunquinha, do que nos aguarda. Papai, dá tua mão na hora da morte. Papai, papai, papai. Cuidado na curva da estrada, você vai me dizer. Cuidado com os meninos, você vai me dizer. Vai ficar orgulhoso de mim, papai. Papai, eu estou viva. Obrigada papai, por não me decepcionar, por me poupar, por me ensinar a ser outra coisa que não eu. Papai, não responde, papai. Não fala nada.’

IV. Sonhos

Sonhar todas as noites foi uma questão de princípio. Não seriam os sonhadores mais felizes? Mais sensíveis? Videntes disfarçados. Ou talvez espelhos ambulantes sufocados na anatomia do eco. Sonhos líquidos, metálicos, amorfos, líricos, pesadelos. Quando sonho acordo curiosa, intrigada, mexida. Detesto os sonhos comuns, os que parecem com a ‘vida normal’. Prefiro que os dias de ‘vida normal’ se misturem com os sonhos sem chão, com tudo o que não existe porque não se quer. Estou à procura do grande sonho, daquele que ao tomar outro tipo indescritível de consciência não mais retornarei. Daquele sonho onde o tempo definitivamente não faz questão nenhuma de se mostrar e expõe-se como tudo o que não é. Impõe-se como única ordem: a desordem. Inconsciência, inconstância assumidamente fluentes. Sonhar o tempo todo, independente dos astros escravos do ciclo, é tal tipo de embriaguez que quase me faz feliz. Pergunto às pessoas sobre seus sonhos, o que lhes são, como funcionam em suas vidas acordadas. Já ouvi estórias impressionantes. O que mais se repete, é que o sonho é subversão.
Sonhei durante muito tempo sem me ater a qualquer significado e de fato, tinha pouca distinção entre dia e noite. Divertia-me apenas, delirava sem culpa. Hoje sonho com colete à prova de balas. Com um pára-quedas reserva. Com spray de pimenta no bolso. Hoje desde que acordei grande.

V. O balé da Inspiração

Rasguei muitas folhas até que conseguisse escrever esta carta. Não consegui, como se vê. Digo, estão aqui as palavras, mas o que quero dizer talvez esteja mais presente em pinturas e músicas. Nos meus olhos certamente. Na minha boca que balbucia, rumina. Te fiz uma canção.
As musas não são feitas de papel amarelado. Um dia elas brilham dentre rostos, com seu perfume de mistério, e quase sem saber nos atraem para perto. Seu encanto é forte, tão forte que se confunde com as nossas pequenas coisas de mortais. Mas são tão generosas, continuam a girar os véus translúcidos numa dança emocionada, puro feeling. Sobre a questão do feeling. É difícil captá-lo. Não se pode pretendê-lo. Ele é.


VI. Sobre o óbvio

Talvez a única solução mesmo, seja um longo olhar pousado em seus olhos, meu querido. Pois não preciso mais desviar-me uma vez que entendi, e você estava certo, certíssimo: é óbvio; é óbvio agora como o era tempo todo sem que eu visse, ou quisesse ver, ou ainda, sem que eu devesse ver naquele cada instante. Obrigada pela surpresa: eu não imaginava o seu tamanho.
É estranha tal sutil sintonia que desenrola o caminho sob os pés e o toque das mãos. É de rolar no chão rindo quando uma epifania quebra um mundo inteiro de acontecimentos, derrapa-nos na estrada e atira tudo às profundezas do penhasco. O sangue tinge as bochechas de repente de enorme constrangimento, calando a risada e o lampejo de libertação de frações de tempo já atrás. Pergunta-se: onde estava com a cabeça? Ou coisas do tipo: por quê? como? O melhor lugar para presenciar um muro que desaba é de cima dele, nem de um lado nem de outro. Acontece que esse lugar não permanece e cedo ou tarde, pende-se para um lado outro. A sorte (...) é poder vislumbrar o que estava escondido e por à prova a imaginação.
Há muros sólidos, fortificações intransponíveis; também muros que oscilam com o vento, de barro, de pedras, de tijolos. Muros baixos e muralhas como a da China. Se bem que essa é única. Muros para os quais seriam necessárias as mais pesadas artilharias para uma queda. Mas sempre é possível que um estrangeiro chegue com certa espécie de explosivo ainda desconhecida em outras terras e detone o que seja preciso. A questão é: o que fazer com os entulhos da demolição? Amontoados na paisagem, sob os pés de quem finca a bandeira da vitória... pensemos de maneira politicamente correta: que tal reaproveitar os materiais dos destroços para novas construções... que não sejam muros, mas quem sabe, bancos de praças onde se possa sentar e contemplar o dia ou a noite, ler um bom livro, ou passar horas conversando com um bom amigo.
Com o passar do tempo os muros vão envelhecendo em belas ruínas, carregadas de história, invadidas pelas trepadeiras e arbustos, verdadeiros monumentos, como as memórias de uma dor grande que se sentiu em algum lugar da vida, antes de agora.
Muros têm de ser erguidos e demolidos. É isso,um dia acordo e descubro de toda minha vaidade, meu egoísmo, logo eu...

VII. Os livros

O cheiro. A edição. A revelação. A ilustração. A quantidade de palavras. As referências. O registro. A invenção. A espessura. As possibilidades. A utilidade. A poesia. Os clássicos. Os piores. O seu. A obra. A força. O começo. Não ler o final antes de começá-lo?

VIII. As palavras

Abundância. Boca. Carcará. Damascos. Espadachim. Flanco. Gooseberries. Halo. Indolência. Jolie. Longitude. Moan. Nêutron. Ócio. Propedêutica. Querela. Regurgitar. Sussurros. Thunder. Urgência. Veloz. Xadrez. Zonzo. Uma piada...

IX. Fome

Eu não quero o que desejo. Parece-me bastante claro isso, bem agora e desde uns dias já. Não estou dizendo que descobri o que realmente desejo. Será possível essa instância do ‘realmente’? O que quero, o que suponho desejar, está na superfície. O que de fato move os desejos atuais e os quereres sem eira nem beira está muito mais profundamente se movendo. É algo - ou são - inexoravelmente despido de sentido, algo que traça linhas por baixo disso que reconheço como eu. Formam-se aí as direções percorridas no momento em que nelas imprimo minhas pegadas, e é claro que isso tudo deixa-me muito mais perdida. Sigo como um flanêur do recôndito. O que quero não é isso, é outra coisa. Sempre e no momento mais intenso do desejo, é coisa outra. Não é nada disso que minha mente conscientemente me diz que é. Aquilo que quero, os meus desejos, não têm nome, cor, forma, substância, não são dizíveis. Não apontam; antes são a própria desorientação e a mais impura perfeição das linhas tortas. Padrões e molduras para desejos solidificados. Por mais que eles mudem de tempos em tempos – hoje quero sorvete, amanhã chocolate quente – a questão é que há um forte hábito de petrificar o querer em uma forma à qual seja possível apegar-se. Torno-o um, como se fosse possível aglutinar óctuplos em um só filho, e ainda, aniquilar os conflitos entre eles. De maneira que, instaurada essa dureza, envolvo meu desejo em quentes mantas e por ele tenho muito apreço. Costumo ainda niná-lo e passo a alimentá-lo com meu próprio leite, no ato mais devoto e destrutivo. Como o bebê a sugar o seio da mãe, o desejo me suga as forças, o mínimo discernimento. Ele baliza meu agir e qualquer injeção de prudência ou de sensatez é por ele dosada. Ele sufoca a desmedida nela mesma. Não há como abrir-me para o que venha – e isso possui um alto teor de mau gosto. Não posso esperar que meu desejo diga sobre mim qualquer coisa. Ele nunca diz nada, ele é uma ponta de iceberg, uma porta aberta, é tão muitos quanto eu mesma. O meu desejo, assim, um, é tirano. Eu, nele me escravizo, com e sem meu próprio consentimento. Não se trata de saber por que desejo, quero, trata-se de admitir que me escoro nos desejos para amenizar a incompreensão da existência que ele traduz quando tento concatená-los. Fico rodeando em seu entorno, mordiscando pitadas de norte. E ainda assim, a única coisa que me resta é desejar, mas deixar desejar, sem nomear o que quero, ou fazê-lo ciente, até onde seja possível, que me escapa ao entendimento. Que apenas me mantém com os pés a tocar o chão. O que se apresenta como um grande paradoxo, uma vez que sinto o desejo como aquilo que me descola a cabeça do pescoço. O que o desejo produz é-lhe completamente distinto, sem causalidade. Quando digo ‘quero isso ou aquilo’ apenas dou um nome, extravaso algo fora de alcance, incontrolável e impermeável pela clareza. Quando digo ‘quero isso ou aquilo’, não quero. Torturo-me, aprisiono-me, defino-me. O exercício não é o não-desejo: é o silêncio da mente e a pulsão do corpo.
Se não acredito no acaso absoluto é porque algo parece seguir seu curso. Mas são vários cursos, nem é questão de que ‘poderiam’ ser outros; isso nem vale à pena pensar. Os que são, não os que seriam. Você disse, as peças devem ser trocadas. Pensei a respeito de investigar atentamente a anatomia do tabuleiro, a fisiologia das regras e as possibilidades de cada peça, como único jeito de jogar. Um grande jogo onde apenas trata-se de jogar... perder ou ganhar, compreender. Jogar, viver. As estratégias, eu; as decisões, o Outro.
Claro que o tempo nos pregava peças. Uma criança brincalhona, inconscequente, grave. O tempo sim, nos pregava peças e assim continuará. O que seria de nós, pobres humanos sem as mãos para se dar. Isso de não ter pé nem ter cabeça, é muito fácil. Eu nem acredito na sua chegada!
Choco-me frente à velocidade com que certos movimentos cuidam de mudar os ângulos de leitura. Insisto que não posso dizer que entendi alguma coisa, todavia, fui provocada a ponto de me mover bruscamente, e olhando para trás, tudo cai, tudo se desconstrói como parece necessário que seja. De que adianta escrever, falar ou pensar sobre o acontecimento que nos envolve. Obrigada pelas canções, pelas poesias, pelas pinturas, pelas cartas, pelos ouvidos. Cantarei belas músicas, aquelas que são mesmo de mim para você tanto quanto de mim para mim mesma. É que as palavras faltam tanto que apenas consigo lembrar-me de músicas para tentar comunicar algo...
Não cabe.


X. Let’s have a cup of coffee in Paris

Meu querido! Meus olhos vertem lágrimas quentes, lágrimas de quem se desdobrou. Como poderia dizer-lhe. Nada. Olharemo-nos longamente, e agora, tão diferente. Meu querido! Estou tentando dizer da pedra de toque que você perguntou-me uma vez: qual é? Eu não podia tocá-la naquele momento, porém, ela voltou-se em direção a minha cabeça, cortou-me a testa e o sangue escorreu sobre meus olhos, modificando todas as cores, como um filtro. Não, a vida não é morte, não é triste, não é dor e sangue. Sei lá o que é, mas muda de cor.


p.s.: Por que é que estou tentando descrever o que me acontece agora; é muito grande, ainda está batendo...

Série Cartas - Carta para mim

Hoje o tempo me foi rebelde. Falou-me sobre estar e faltar. Hoje o tempo me foi um presente que se desiste de dar.

A mim, piloto da nave que passageiro de tempo(s)-espaço(s), sobraram nada além de lágrimas secas. É tão forte a morte enquanto se vive.

Sou quando ando rastro de minúsculos grânulos a se desprenderem do meu corpo. Não posso mais fingir de catá-los à medida que se libertam. Evito sequer olhá-los, sorriso amarelado na boca de quem sabe que se perdeu. Olhos, narinas, garganta, secos todos dentro da nuvem que paira em partículas cintilantes.

Subo na ponta dos pés para depositar um segredo nos ouvidos. Proximidade sinto, distância sei. Flanêur do recôndito.

A pólvora queima produzindo uma onda de deflagração subsônica.

Materiais voláteis.

Na dinastia Han, na China alquimistas procuravam pelo elixir da longa vida e descobriram a pólvora.

Sine qua non

Há aqui menos a oportunidade de concordância que o impasse radical.

Inconciliabilidade

Válvula de gás propano

Autonomia caudal

Mas não ter pé nem cabeça é muito fácil.

Noites de Ficide

Num arroto do mundo passada a indigestão dos homens, Ficide nasceu. Uma cusparada de plasma da pior cor que os olhos podem conceber, algo como o cinza dos mortos cheio de sulcos, aquilo era filho de todos. Ficide era uma máquina que veio ter com a realidade um tanto quanto irremediavelmente avariada. A começar pela sua incapacidade de cruzar as pernas e braços, passando ainda pela dificuldade de falar: a língua se enrolava em grunhidos e gritinhos agudos sem qualquer pronúncia conhecida de fonemas. Ficide era dejá vu a todo momento, para si e para os outros, o que era assustador. Como fedia um bocado, era mais do que impossível permanecer por perto de tal ser. Fedia a algo seco, bastante agressivo às delicadas narinas. Ficide nascera com uns muitos anos. Os cabelos, não possuía, e eram de um marrom apodrecido. Junto com os cabelos cresciam-lhe pés na cabeça, o que lhe causava tremenda burrice. Seu pensamento cheirava a chulé. Cada vez que Ficide comprava pães, assustava as pobres moças detrás do balcão porque tinha coragem de se dirigir a elas. No seu interior, Ficide sabia que o coração que lhe batia não fazia qualquer som, nem tum-tum, nem nada do gênero. Sua pele fazia barulho ao roçar nos pântanos de contato entre as pessoas; urrava de dor e os demais, urravam de nojo. Mas Ficide tinha uma incompreensível capacidade de sorrir. Fazia-o toda vez que caía de cabeça no chão e tinha aberto um rasgo a sangrar. O sangue, que fedia mais que todo o resto, lhe escorria percorrendo o caminho das sobrancelhas e depois contornavam o resto deformado do que seria um rosto em direção a boca. Sorrir permitia que o sangue fosse direto para a boca sem que Ficide perdesse uma gota sequer. A parte que mais lhe inspirava afeto em si era o ânus. Porque não fora nunca um feto, antes um ânus, desde o começo de sua formação desprezível. Do ânus lhe partiu a coluna a crescer mais torta que o normal, e assim é Ficide, sua coluna é enterrada no próprio cu, o lhe dá uma sensação de algo a espetar enfiado sempre. Uma das poucas coisas que entendeu, quando por estupidez alguém qualquer lhe dirigiu a palavra, é que a isso chama-se fogo no cu. Achava bonito o fogo, se é que essa criatura lamentável pode achar qualquer coisa bonita. O fato é que admirava muito o poder de retorcer todas as coisas, qualquer coisa, e deixá-las absolutamente em negrume que cabia ao fogo. Assim, vez em quando checava o ânus para certificar-se de que ele estava devidamente carbonizado. Tal operação lhe custava um bocado, pois, seu pescoço, demasiado curto e tosco, de pele endurecida, não podia de fato voltar-se para baixo, para cima e nem de um lado ao outro. Ficide olhava apenas para frente, os três olhos boiando, e claro que não enxergava nada. Imagine que tinha então que pedir a alguém que lhe checasse o ânus. Não ouso dizer o que aconteceram aos imbecis que lhe atenderam – pois há no mundo gente terrivelmente bondosa e esse era o passatempo favorito de Ficide: escalpelar quem lhe lançava aquele olhar horrorosamente gentil depois de ver seu cu. Deixava que tentassem se aproximar apenas para dar o bote. Ficide usava um chapéu de chumbo pesado, bem rebuscado. Desde sempre, acho que nascera com ele. É que vez ou outra, quando caminhava pelas ruas, corria em direção aos muros e chocava-se com a maior violência contra os chapiscados, especialmente. Sequer pode-se descrever como era possível que corresse; os ossos também tinham problemas, eram esmagados e as articulações eram secas, inclusive, faziam ruídos ensurdecedores ao se movimentar. Ficide não aparentava. Não teve cães e gatos, pois comia-lhes os pêlos e as unhas, já que isso fazia-lhe vomitar. O vômito sempre lhe foi favorável ao paladar. Comeria as próprias mãos, se as tivesse, no entanto, o que possuía eram cotocos atados com uma fibra dura que era para que o pus abundante não caísse pelo chão. Sua experiência com isso era exaustiva: sempre que deixava pus pelo caminho, escorregava nele e caía de costas ao chão. Eram ao menos dias para que pudesse levantar-se. O que acontecia era que gritava muito durante todo o tempo em que se estendia no solo. Não pela queda em si, mas pelos pesadelos que começavam automaticamente ao tocar o chão: sonhava que se levantava e que ria do tombo; pessoas vinham aos montes ficar ao seu redor e lhe punham o dedo no nariz, ou ainda, cavalos lhe lambiam as axilas e diziam para acalmar-se, acariciando-lhe as orelhas com seus cascos sujos de suas próprias fezes. Ou pior: um arco-íris impresso em negativo lhe saia goela a fora e tudo girava em cores, o que, definitivamente, magoava-lhe. Chorar? Quando chorava, Ficide sentia-se gente. Então não chorava nunca. O que fazia era apenas murmurar uns xingamentos quaisquer – e até aí nenhuma grande novidade, sendo esse seu pequeno repertório de palavras inteligíveis – ou podia jogar terra nos olhos para ver se neles causava algo. Geralmente, o único efeito que surtia era o amor pela terra que lhe tragaria. E que fosse em breve. Se Ficide orava, era por isso. O abraço da terra, não o superficial, mas o completo enterro, era o que lhe fazia esgueirar-se pelas noites eternas onde até o sol participava. Esperava pelo dia em que explodiria a tempestade que lhe afogaria, este animal nojento, nos grânulos da terra marrom e suas raízes cortantes. Nesse dia choraria. Prometeu-se sem a menor intenção de cumprir. Nunca lera ou saíra do lugar que não habitava, e de deus tinha a seguinte impressão: era feito a sua imagem e semelhança. Ficide nunca pintara, escrevera, bebera. O álcool compunha os fluidos de seu corpo. A língua era asquerosamente longa, fina e bipartida. Antes parecesse uma serpente, ou um lagarto, mas o que parecia, seria insulto descrever. Usava-a apenas para reconhecer terrenos e paredes. Às vezes também para pegar algum objeto, e como nunca sabia o que fazer com eles, lançava-os em direção a vidros e janelas alheios. Não se pode dizer ‘pobre Ficide’, ou coisa que o valha. Na verdade se alguém lhe pudesse realmente notar, poderia apenas ser tomado pelo mais profundo desgosto. Repensaria toda a sua visão de mundo, especialmente se fosse positiva demais. Ficide tinha esse único dom: o de matar a alegria das pessoas. Mas não há o que temer, pois basta pisar na cabeça de Ficide para que se recolha ao limbo. Uma coisa que Ficide nunca tivera é a memória. O mundo se ofenderia se houvesse um baú de memórias de Ficide, ou se achassem um dia algum diário contendo-as. O mundo se ofenderia pois seria simplesmente insuportável a descrição desse animal inclassificável que surgira assim, tão natimorto.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Borra de um café inusitado

Hoje tomei café da manhã com um amigo amado.
Ele hoje me diz:
É um psicopata que lhe fala.
Quantas gargalhadas.
Ele duvida de tudo.
Psicopata, assassino do amor,
assassino de si.
Invejamo-nos mutuamente
com muito afeto.
Enfim, estavamos todos à mesa:
o psicopata, o capeta e a histérica.

Runaway blues

Caneta na mão, mais uma vez na mão tão indecisa, balança a caneta de tanta idéia na mão enfim cascateia palavras uma atrás da outra, com sentido, com pressa. Queria escrever algo interessante, algo lindo eu queria escrever. Vasculho nos dias um depois do outro sinto minha vida cada acontecimento script, trechos de películas rodando na esteira da imaginação. Eu de chapéu preto, kinda poet tonite. A devassa, boêmia, estive no bordel, fui pela diva, havia mais artistas, na noite blue, mais uma, assim inferninho com luz negra, velas e papel de pão para desenho. Que venha a cachaça e a boa cerveja o brinde regar e que me saiam as palavras em forma de poesia do que não se quer mais falar. Até o limite da dor é lá que vou. Quiçá lá estou. Nua no frio, frio de morrer. Cut the rope de um dia aberto ao dourado do dia esfumaçado. Cigarro de filtro vermelho eu velha sozinha e grande. Assim tão potente como se a ponta da caneta fosse o próprio pensamento. E as mulheres sempre tão lindas. Gole no bico da garrafa, eu tomo queimando a goela adoro goela holding the bottle of cachaça com unhas pintadas bonito assim jabuticaba com anel no dedo. Goela fervendo notas. Canto. Canto os rins que doem. Aqui, rendez-vous. Me enamoro, um tributo às fantasias falecidas de morte matadas e não morridas. Como as olheiras na tumba, as ervas em pança de formiga, a língua em boca de espírito de porco. Será pior estar calado com tanto a dizer? Do calar talvez bom, talvez momento.
Mas que energia têm as grandes cidades, suas luzes de tela de cinema, degraus de decadência, tudo corroído, profundamente poético, profético. Como prosa in bloom, cabeça de guarda-chuva, como carta que não se manda, carta de falência.
Convidados somos a todo momento e convidamos aussi fantasmas a nos assombrar. O corpo não se esvazia dos desejos louros dos medos vindouros das certezas sepultadas. Páro logo esta canção e me ponho a chorar eu mesma e por que não? Folha cheia e frio feito o peito vazio: salve, salve, sanidade. Minha zelosa guardadora, se a ti me confiou a piedade divina, sempre me rege, me guarde, me governe, me ilumine, amém. Pois agora as palavras não me servem para tentar exprimir o que não é dizível, as palavras são minha volta no que falta em palavras que não posso mais pronunciar. Sorriso achatando os lábios esticados para cima das bochechas a boca sempre tensa, bicos de todos os tipos querendo falar. Fechando não sei o quanto já estive realmente tão aberta, uma ou duas vezes... assim ouvindo um escarrar francês... ah! E fiz minha viagem sine qua non. Como ela, a diva, musa toujours merveilleuse faz pose!
Bom, Jesus te ama e eu também. Eu escrevi porque não cantei. Porém escrevi como cantasse, pois a dor é a mesma. Se é que te arriscas a crer nesta cortesã que lhe fala arreganhada dos mais sinceros brinquedos de passar. Há em guerra retirada estratégica, há em amor túmulos de cada flor roxa coração do cão de estimação. A pressa é a esperança que a gente espera. Cousa douda, loica.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

O negrume da Inspiração

"Descompassadamente os beijos se descolam das bocas mais profanas em vôos altos."

Depois de datilografar esta frase, a única que conseguira formular nas horas em que esteve tentando desenvolver certa poesia em prosa, Lúcia desceu as escadas e pegou seu sobretudo negro dependurado atrás da porta de entrada. Vestiu-o com muita presteza e parou ainda por dois minutos diante da porta com a mão direita a maçaneta. Ficou ali por dois ou três minutos, e digo ao leitor que não se sabe o que passava em sua cabeça. Então, abriu a porta e lançou-se no ar gelado da noite.

A cidadela era um convite aos passeios noturnos, alheios à realidade e Lúcia lambuzava-se de tanta quietude. Caminhou pela ruela demoradamente, como quem não quer incomodar as pedras, seguindo a noção dos pés apenas, pois o pensamento, não podia ser acompanhado.

As luzes da noite, já é sabido há muito, tem grande poder sobre as almas mais passionais, de maneira que Lúcia andava um tanto alucinada, perdida entre os ouriços de raios de luz dos postes. O mergulho que dava vez ou outra nas sombras das árvores e dos altos muros daquela gente precavida e ávara com seus jardins lhe fazia na verdade, tanto bem quanto os ouriços luminosos. Lúcia sentia-se ela mesma o lado escuro da lua, punha uma pitada de invisibilidade a sua passagem.

Esqueceu-se porém da possível força de sua inexistência quando a cabeça que fitava ora os pés, ora os postes, fez o seguinte percurso: dos pés a uma porta que lhe barrara o caminho. Não era, no entanto, a porta de sua casa, tampouco a porta de Carlos, seu amigo favorito e algo mais. Era uma porta muito simples, sem relevos, uma porta de madeira escura.

Bateu. O coração simcopado às batidas da porta não cessou como as mãos depois do terceiro knock. O que fazia? Eram já duas e meia da madrugada e sequer sabia diante de quem estaria caso alguém abrisse a porta. Pensou correr, mas não teve tempo: a porta abriu-se tão violentamente produzindo um vácuo que puxou-a para dentro.

O susto foi assaz grande. Imagine que Lúcia mal soube o que aconteceu pois; de repente estava com a face enterrada num peito que bloqueava a entrada da porta. Não tinha cheiro. O certo é que era um homem alto e magro.

Eis que a voz sonolenta e grave lhe ordena:

- Senta.

A porta se fechou e Lúcia foi tateando no escuro vários móveis, esbarrou em coisas, livros, retratos, copos, não sabia direito a não ser pelos ruídos. Achou então um sofá, deixou-se cair nele e irrompeu em um choro comovente e estrépito. Assim ficou, com as mãos sobre o rosto até parar, mas é impossível dizer o quanto isso durou. Quando já se recompunha, ainda no mais absoluto negrume, um isqueiro acendeu-se e alumiou brevemente um rosto barbado com olhos que não a fitavam. Lúcia esforçou o olhar ao máximo para apreender a imagem; não pôde. Foi muito rápido, vira um vulto e agora permanecia apenas a brasa do cigarro acesa, movendo-se de vez em quando de baixo para o alto, na direção de onde lhe pareceu ver a boca do homem.

Sentia o cheiro do cigarro. Ouvia a respiração dele. Pensou em falar-lhe, creio que chegou a mover os lábios, mas deteve-se. Ele estava de pé, bem uns dez passos a sua frente. Era o que supunha. Pensou em perguntar seu nome, ou antes desculpar-se. Logo indagou a si própria porque não pedia licença e se retirava. Talvez devesse dizer que enganou-se de endereço. Então ocorreu-lhe pedir que acendesse as luzes. Aquilo tudo começava a sufocar-lhe, sentia uma angústia crescente embolando-se no peito. Era possível que esse homem lhe fizesse algum mal. Se lhe quisesse o corpo, lutaria até a morte. Depois, voltando-lhe à memória o esboço da figura à luz efêmera do isqueiro, ponderou sua atitude. Um amor no escuro, sem nome, sem rosto, sem cheiro.

- Cigarro? - indagou-lhe o fantasma.

Antes que ela respondesse, ele pegou-lhe as mãos depositando nelas um maço de cigarro e o tal isqueiro. Lúcia ficou gelada, as mãos eram grandes e nem quentes, nem frias, foi tudo o que sentiu; ele já se tinha afastado quando ela levou um cigarro aos lábios. É que Lúcia não fumava. Mas naquele momento nada poderia ser melhor, refletiu.

O silêncio devastador só foi quebrado quando ela o ouviu deslocar-se a passos calmos até uma outra porta que se abriu sem que ela precisasse a direção, problema que foi resolvido quando dentro da tal porta uma luz foi acendida. Não, ela não o viu, viu de relance que tinha cabelos castanhos e era realmente alto. Notou que ele tinha se dirigido à uma cozinha pelo pouco que via iluminado dentro daquele cômodo à sua direita. Pensou em adentrá-lo, talvez fosse um convite à claridade. Mas ele não a chamara. Melhor esperar.

Fazia chá e oferecer-lhe-ia? Preparava a faca com a qual iria matá-la dali a cinco minutos? Seria um gentleman ou um monstro? E não lhe diria nada à respeito de sua estranha visita? Bom, dada sua própria conduta, Lúcia achou que ele não estaria mesmo em condições de julgá-la.

Já se passaram quantos minutos desde que chegara ali?

- Horas.

Pelo diabo, ele lera seu pensamento! Já chega, era preciso sair dali. Lúcia levantou-se de supetão e saiu tropeçando em coisas que imaginou serem tapetes e talvez muitos livros pelo chão rumando à porta, a qual encontrou trancada e sem chave. Voltou-se para os lados buscando algum móvel onde a chave a aguardaria tranquilamente, mas o que encontrou foi um abajur que não suportando o choque contra as mãos estabanadas de Lúcia, espatifou-se no chão estrondosamente. Perdera a chance de dar à situação uma luz.

- O que você está fazendo?

Ela olhou na direção da voz: diante da porta da cozinha, a luz vinha pelas costas revelando a silhueta esguia. Foi então que notou que também a sala onde se encontrava estava levemente iluminada pela mesma luz. Era bonito o lugar.

- Quer sair?

- Apague a luz, por favor.

Ele ascentiu e tudo voltou à mais perturbadora escuridão. Ela o buscou nas trevas. Tocou levemente seu rosto como que delineando as formas, depois tocou-lhe os cabelos finos e fartos. Ele não se moveu. Não precisava.

- Eu já estava te esperando. Mas esqueci de passar o chá.

Dizendo isso, ele saiu ao alcance das mãos de Lúcia que ficaram saudosas no ar. Ele era um bom homem, pois lhe supriu a dor do vazio rapidamente, entregando-lhe um livro volumoso de capa dura. Lúcia agarrou o livro com força e deitou-o de encontro ao peito.

- Eu não volto para devolvê-lo.

Ele abriu a porta da rua. Os cabelos de Lúcia agitaram-se do mesmo ar gelado da madrugada que lhe abraçara ao deixar a própria casa.

Quando deu por si, vagava por ruas e becos que já estavam iluminando-se em dia vindouro. Esforçou-se por lembrar de como fora a despedida daquele desconhecido, porém não guardara sequer o barulho da porta se fechando, ele dentro e nunca mais, ela de fora e para além.

E assim que deu-se conta de que os dedos, as mãos e os braços doíam pela força com que apertava o livro, resolveu olhá-lo e abri-lo. Uma bela capa verde escuríssima, sem uma palvra, e dentro, muitas, muitas páginas amarelas por escrever; Lúcia olhou para o céu divertidamente, o sol se achegava sem pressa e os pássaros que começavam a cantar traziam-lhe à pena os cheiros, os olhos, as formas e expressões que não vira, os pensamentos que não soube. Tinha todo um livro para desenhar palavras no escuro.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

mais um dia

mas, verdade seja dita, não me enamoro a fundo por prudência: seria derramamento de sangue! batalha perdida já na idéia, porquanto não se rouba um coração já apaixonado!

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

O caso das máscaras no centro do mundo

Com o dedo polegar examinou o lugar. De repente, com um movimento brusco, revelou-se um vasto. Uma grandeza cupular e oca. Rapidamente, com o coração a disparar, atirou o polegar à boca e começou a chupá-lo como uma criança. Assim, avidamente. Tinha ficado muito assustada. Aterrorizada. Pois, sabia, à propósito da descoberta, que teria de aprofundar-se nesse oco que escuro, embora na mente, com uma luz no fim do túnel. Novomundo.

Quando imaginava a si entregue, parodiando a ciência dos forenses, imediatemente, ao reconhecer-se na imagem mental, retrocedia. Claramente derramava culpa e por mais que tentasse dissipá-la, lá estava e a luta, tácita; entretanto, implacável. Relentless. Invariavelmente, conseguia contentar-se com seu próprio despudoramento – a que chamava moralmente de ‘perversão’ – apenas quando vestia-se de máscara. E a nova imagem trazia a máscara, e sentia-se até confiante, resoluta e protegida. Cobria-se do certo e da verdade ou no mínimo, de um desejo incontrolável, que por isso mesmo, manto cheio de direitos. Carta branca, álibi, justificativas e prerrogativas. Salvo-conduto.

Sua máscara: a favorita. Lábios profundamente carmins. O corpo típico dos sonhos de todo dia há muito. Não altiva, mas suficiente. Com a máscara podia percorrer as gargantas mais profundas. E por mais que achasse riquezas, ali sempre habitaria o vasto.

É que recentemente, trajava para seus apetites uma resolução que por ora lhe cabia muito bem. Achava curioso estar cheia de vazio ainda que portando a fome. E queria comer as carnes e os livros para saciar-se de si e ser tão plenamente quanto o vazio. Comia olhos verdes, pêlos, sonhos, pianos e palavras. Arrotava um medo exaustivo de passar. No mosaico digestivo, o anti-alimento.

No fim, sustentar a máscara era esconder a fome e a falta, no velho ou no novo mundo. Era iludir-se, era encorajar-se e encobrir-se. E a máscara, como não poderia deixar de ser, era feita de espelhos. Côncava e convexamente falando.

Mas o que a velha feiticeira lhe havia dito, era que largasse das coisas velhas e que desse ao tempo, tempo. Desta feita, fez-se ver que por trás da máscara esgueirava-se sempre a criatura a chupar o polegar de olhos arregalados. Estupefata. De prontidão para o revoar de temores no estômago. Ciente de que nada restaria incauto. A não ser suas miudezas, pois as impurezas e as dádivas ou fenecem ou se aprimoram.

No oco de porta trancada, pensava em sua resolução, em sua fome mascarada. Via o quão maquinalmente ligados estavam os fenômenos devirescos visíveis de sua própria janela e de sua pele. Glimpse-like, achou outra máscara, que estava na cara. E descobriu as máscaras bailando uma dentro da outra. Ad infinitum.

Todavia, sua máscara ideal, a favorita, era utilizada com muita timidez nas ruas. Era apenas um o lugar onde podia e precisaria, por questão de vida ou morte, usar a tal máscara. Paixão. Porque, de resto, preferia usar uma máscara precisamente adornada de sombras e de ouvires. Costumava optar por essa que não era tão bela, uma mais discreta, para ser vista sob a luz do sol. Os rituais cotidianos não habitam a paixão com frequência. Eis a lei da favorita. Ideal para os abundantes matizes lunares.

De qualquer maneira, nutria grande apreço por ambas as peças. Uma, instigava cautela às entranhas e trazia nos olhos estórias fantásticas. De uma pintura única e irresistível, digna de um mestre, una preciosidad. Seu cheiro era reconhecível em qualquer parte, era vermelho e dourado. Os dentes eram todos feitos pérolas e a pele brilhava em brocados finos. Moldura clássica, e por isso mesmo misteriosa. Elegância e torpor embutidos em gargalhadas a ecoar nas formas. Os movimentos cortantes como a fina lâmina, dura e fria, meticulosamente calculada e calculista, aparentavam porcelanas e se partiam ao mesmo som. Distante e soberana, inconsequentemente livre, era puro susto.

A outra tão mais humana, tão baixa e passional, irritantemente pudica, e humildemente simpática e agradável. Tinha o dom de ser invisível e muda, a não ser em breves momentos de falácias e falazadas gafes e controvérsias à moda naive. Sentia quaisquer das coisas de gente, vivia a posse em doses prescritas e sabia de cor o gestual piegas das intensidades. Estava como que ligada por um cordão umbilical às memórias, o que lhe dava um tom como o da pele queimada de sol, envelhecida e perecível. Tinha medo de ser grande, porque teria assim muitas responsabilidades. Era só um pouco diversa, nada de extravagâncias, pois lhe causavam ressacas.

Sabeis que era o vasto que habitava o meio do vazio que se espalhava entre mulher-menino-menina-homem. E isso, por ora, lhe cabia muito bem. O caso é que não podia calcular temperaturas nem quereres; tampouco podia controlar os pensares. E devia conviver com a náusea, e tentar torná-la digna e tentar suprimi-la. Seus andares eram zonzos, cada um de uma tal embriaguez, à caminho do vácuo. (...) Não parecia haver um lugar de onde não poderiam brotar outras máscaras. Nas falésias de mármore, nos chãos de barro batido, sob tapetes quilométricos de valor inestimável, nas águas que descem apressadas ralos e galerias, nas loucuras travestidas pelas artes, no mil de sensações, em cada parte de um corpo que pode ser mais mil.

As máscaras depois de um tempo, viram fantasmas. Vampiros que não aparecem no espelho. Mas é o tal esquecimento, diz-se, ‘apenas’. Pois qualquer sopro, fá-las voar de encontro ao rosto, e logo tomam o peito como lufadas de vento forte. Algumas prenunciam tempestades, como se sabe, mas outras vêm de praias de céu aberto e areias brancas. E há ainda, aquelas que são sussurros e aquelas que são bafos quentes.

Pode-se dizer que o caso das máscaras é um labirinto com múltiplas entradas e saídas, escadas e alçapões. Uma doença sem cura, uma angústia infindável, uma alegria constante. E transtorna-se, porque não tem direção, não tem razão, não tem sim e não tem não. Amorfo. No interminável jogo das paralelas e das perpendiculares, as máscaras são causa e efeito. São sabidas e são surpresas. São insípidas ao entendimento. Que o leitor não o gaste.

Happiness is 'Really' a Warm Gun... Doses de Poemóides Espasmódicos

I.

sabia que nisso de comer-se
nisso de envenenar-se
havia um hábito mordaz de minar as defesas
por anos vacilei em perceber
com tanta claridade
que sou eu a deformar as coisas
a engolir sem pestanejar
todos os fetiches
a tratar-me às chibatas
a colocar bolas de cera sobre os ouvidos
e a calar-me com fibras de linho esgarçadas

agora sei quando me como.

II.

Eis, pois, minha nova paixão. Não dói, não foge, não isso, não aquilo.
Minha nova paixão não me afoba, não me ignora.
Essa nova paixão não sabe de nada mas vai saber.
Saber que não quero nada demais.
Que quero apenas...
Muito mais do que se imagina por aí.
Minha nova paixão não é igual, não faz sofrer, não é normal.
Eis, pois, o que quero sem medo, sem vergonha, sem dedos.
Conheser.

Porque, pelo que me consta, é o que há de paixão nisso tudo.


III.


Se me tomas pelas mãos, faz-me um favor
Tenta ouvir as palavras mais rebuscadas que não sou capaz de saber
Mas delas, embriaga-te apenas do seu mais simples
Dos harmônicos que lhes escapam ao significado.
Na praia, as palavras são areia
Diante de você, acredita, sou mar


IV.

Como é pobre
Essa metade em gente
Essa inclinação enganosa
Como é dissimulado
Esse talento em esboço
Esse truque mal-feito


V.

O buraco na goela
Cato no rasto
Um cheiro, um quero
A ex-lágrima
O sem tido
O fim do não-começo
Dor no olho da lua
O refluxo da questão
Passente do preturo doído
Moído
Peito tísico
Estômago gastrítico
Amargor de partida
A punhalada do impossível


VI.

Outrora
Roga o pensamento que a chance não
tenha Passado Semana passada cheguei
a tentar Tentada que estava diante de
tantos Nãos talvez quem sabe se
verdade se outro dia outro agora
Outrora.


VII.

Meu coração bate ansioso.
Fruto do cão que ladra
e nada morde.

Só agora meus pés fincam o chão
São sugados pela realidade gravitacional.
O pensamento bate as asas
longe, longe
Mas a carne jaz na porra dos pauís da terra

Sei muito! Ora!
sei que falar menos
é [querer] ser mais
E no susto do veraneio
Do janeiro que veio
Nem consigo pensar no meu próprio aniversário.

É hora de fazer planos – eu digo.
Canso-me de planar sobre a merda
Achando que lá:
longe, longe
estão as flores no campo

Eu nesse tempo de se
Não semeei
Mas ainda posso se não colher flores
Tomar chá de cogumelo


VIII.

O Duro da pedra
Dura
Contra o osso
Outch!
Que estupidez
o osso duro
vibra
contra a pedra
Dura


[...]