quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O Miguel [ou Avec les Yeux Pleins de Larmes]

(Esta postagem dedico a Wantouile, que conheceu o Miguel...)

Quando me lembrei do Miguel me foi tão bom. O Miguel cabe na boca. Muito bom pensar e pronunciar o Miguel. Quando lembrei o Miguel, justamente dali um tempo conheci o Miguel. Homem que era como eu sonhava e seu nome: o Miguel.

O Miguel era o outro. Quem diria que um dia, por um capricho da vida nos encontraríamos frente a frente conversando, como fizemos jovens; naquele tempo. Eu perguntaria se teve filhos. O Miguel está velho, mas eu não consigo imaginar. Estamos na mesma sala dantes, nas mesmas poltronas. Eu não envelheci: em meu olhar continuo a amá-lo. Ora, estivemos longe e ele talvez não tenha tido saudade. Nunca mais nos encontramos.

O Miguel nasceu quando sua mãe tinha vinte e um anos. Ela foi abandonada no cartório pelo pai do Miguel. Seu pai ensinou ao Miguel tudo o que ele aprendeu. O Miguel buscava, sob o olhar dos outros, onde é que eles estavam e o que estavam olhando? O que você vê em mim, era o que o Miguel balbuciava. Os rostos para o Miguel eram borrões, porém mais próximos eram-lhe inexpressivos. O Miguel não podia entendê-los.

Naquele tempo o Miguel tentava. Hoje, nessa eternidade, construiu uma fortaleza. As paixões tolas lhe tomavam muito tempo e lhe serviam bem; mas no céu há tanto nada, que o Miguel quis abandoná-las. Todas. De uma vez por todas.

É claro que isso entristeceu o coração do Miguel. Mas ele é tão ridículo que não chorou. Nem sorriu. Nem. Isso foi bom, ele achou. Chegou mesmo a se sentir forte. Como se notasse que ainda era dotado de certo vigor. Porque já se subestimara muito e olhava a si próprio agora, bem de cima; dizia-se: é isso? Deixava as pálpebras baixas, o olhar tomado de desprezo.

Ah, o Miguel. É o único jeito. Ele achava que devia haver um meio de ser outro, Outro o Miguel, que não, nunca mais, fosse como ele. Pois para o Miguel certas coisas são insuportáveis. E o Miguel (m)sorria um pouco mais de cigarro em cigarro, cedendo a caprichos, seus e dela.

Aquela menina, o Miguel havia decidido esquecer. Pensava nas suas palavras e no quanto ele a incomodava. Ela já lhe pedira várias vezes que a deixasse e ele entendia. O que ela não poderia entender, é que ele não conseguia. O Miguel era estupidamente feliz ao seu lado. Às vezes ele se conformava com o fato de que ela talvez não pudesse amar. Eu nunca disse a ele o segredo dela. É que ela já se ocupava de amar outro homem, o qual o Miguel também já amava, mesmo que só pudesse imaginar o quê naquele homem ela amava.

O Miguel é o nome do meu filho. O Miguel e eu sempre uma dupla de mãe e filho. O Miguel me salvou e eu vi minhas amigas tendo filhos que reencontrei depois que já tinham vinte anos. O Miguel não sai da minha cabeça. Sempre que o procuro ele me recebe. Ele é lindo. Coitado do Miguel, ele está cansado. Eu também, o Miguel, estou tão cansada. Eu faria tudo diferente. Eu te odeio, o Miguel.

Ter de esquecer o Miguel não foi agradável, porque o Miguel não se esquece. Quando me lembrei do Miguel é que me dei conta de que já o tinha esquecido.

Depois daquela hora, quase de tarde, passaram-se outras horas, dias, semanas, meses e anos. Uns vinte e poucos. Como fui me lembrar dele?

O Miguel era um qualquer, como qualquer outro, não tinha nada demais, não despertava grandes paixões. Como algumas pessoas são especiais... vez por outra não conseguia ficar sozinho então entregava-se à gula das vontades como que por legitimar sua mesquinhez e sua covardia. Mas ele sabia que não funcionava. Há momentos, disse-me o Miguel, em que é preciso interferir. Porém , tamanho é o poder de interferir que tenho e maior ele se torna a cada vez em que o emprego, que viro um bárbaro. De repente estou a disparar inconseqüentemente, tomado pelo deslumbre dos alvos. Apaixonado. Refrear até uma gélida parada é calar muita coisa, pois se fala cada besteira... Ainda bem que não as fazemos todas, eu lhe respondi.

Hoje o Miguel não virá mais ao meu encontro. Também porque o Miguel jamais me procurou. Ah! O Miguel! Eu estou tão apaixonada por você! Como eu estou apaixonada por você. Estou morta de amor. Esse homem me enlouquece. Então está tudo bem. Passará, logo, eu penso.

O Miguel tem o poder de desaparecer. Conquanto que nunca se tenha lembrado, o Miguel se esquece. Há vez que pego o Miguel pensativo. Eu errei e erro sempre com o Miguel. Eu o namorei, sim por um tempo. Nos beijamos uma única vez. A boca do Miguel.

Já cheguei a pensar que o Miguel era eu, ou eu o era. Engraçado isso. Um dia eu me virei e ele me olhava. Um dia pensei: para o Miguel aquela menina era o que via e só queria ver se fosse além dela. Impossível. Porque era só eu que estava ali. Só eu, o Miguel, desculpe-me.

Quando o Miguel finalmente foi embora, eu queria ir com ele. Mas claro que não fui. Eu trabalhava como dubladora de filmes. Muitos europeus e alguns latinos. Por isso narro do Miguel, sua vida era um filme. O Miguel sempre foi muito inteligente. Ele inclusive tentara suicidar-se uma vez. Às vezes eram mulheres, noutras homens. Nouvelle Vague para Denise, Otto para o Lucas e assim sucessivamente. Depois Otto nunca mais por ninguém, só pelo Miguel alto mesmo.

Os dias para o Miguel eram arrastados pelas tantas coisas a fazer e ao despertar já passara tudo, todos os dias, tão rápido. O Miguel parecia que podia ser beijado a qualquer momento. Mas ninguém jamais ousaria.

O Miguel não parece tão velho. Ele já era assim quando éramos jovens, naquele tempo em que nada tínhamos a perder e nada queríamos fazer. Nos divertíamos em vão, com tantas pessoas, histórias de cada noite.

Ele se esforçou muito para ser quem é hoje. O Miguel conseguiu, eu acho. Mas ele não fala sobre isso. Quando leio as cartas do Miguel eu o reconheço. Percebo que nos encontramos num deserto e entre nós há somente o deserto. O Miguel acha isso. Eu acho isso bonito.

Quando o Miguel nascer eu nem vou acreditar. Será mesmo possível que tenhamos sido feitos uma para o outro? Sempre somos feitos para o outro – ele me disse num domingo a tarde. Dias antes esteve em presença do homem que aquela menina amava. Ele nunca tinha amado tanto outro homem na vida. Estava sereno na hora da morte.

O Miguel era de ficar horas calado, em choque com a profundeza dos seus pensamentos. Não adiantava ninguém falar com o Miguel. Ele ouvia muito bem. O Miguel no sol, o Miguel caminha, o Miguel encontra tantos conhecidos, leva uma prosa. Sozinho, fala consigo sobre isso.

Eu queria falar umas coisas com o Miguel. Eu até falei muitas. É que ele sempre parecia não lembrar de mim. Quando eu me lembrei do Miguel, era hora de sair. Eu sempre acabo falando do Miguel.

O Miguel, onde é que você está agora? Você pode me ouvir? Você teve filhos? Com ela? Eu gostaria que o Miguel lesse todos os meus papéis. É por causa dele que temo sempre me deparar no espelho. O Miguel, eu estive doente. Você está me matando. Mas você me disse que o faria.

Somos tão diferentes, o Miguel e eu. Eu o observo pelos cantos dos olhos, tento flagrá-lo. Mas o Miguel é tanto mais. Já tive pena dele porque ele não me amou. Pena eu não conseguir ser o que você esperava. Porque você nunca espera nada. Eu espero, o Miguel. Já te contei que vou ser professora, que não vou ter filhos, que serei feliz quando da velhice, quando eu o vir daqui uns vinte e poucos anos. A minha mãe já é falecida, acho que também já lhe falei sobre isso. Espero que você goste do que lê. Do que foi meu um dia será seu ainda depois da minha morte.

O Miguel já quis o mundo. Tinha dia que era muito ao alcance das mãos. O Miguel sempre riu dos bêbados; riu de si quando descobriu que procurava a verdade. Parou de rir assim que entendeu que a queria sempre. Um espírito admirável, esse Miguel. Quando começa não pára mais. Eu tenho inveja dele e uma vez lhe falei, talvez até mais de uma só que com outras palavras. E o Miguel permaneceu indiferente. Muitas coisas eu lhe falei às quais ele se manteve indiferente. Ele mente para mim o tempo todo. O monstro que ele é, o Miguel não quer que eu veja. Nem mais ninguém. E uma coisa ele me disse com muito orgulho: que era um egoísta. No fundo, o Miguel sempre soube o quanto eu o amava. A quem ele amava sei que foi muito. É muito de um jeito que parece não ter fim.

Sonho com o dia em que nos conheceremos e eu saberei imediatamente que é você, o Miguel. Mon petit diable qui est doux. Isso eu nunca lhe disse. Quando estava para dizer, entendi o olhar de quem não queria ouvir. É que parece que toda aminha vida eu lhe posso contar. Ouvir-me é como se me amasse ou ao menos pudesse.

Foi o Miguel quem abriu a porta pela primeira vez. Agora, se eu vou embora, não é que eu queira, foi o Miguel quem me pediu. O grande amor do Miguel é também o meu grande amor. Quando eu era menina o Miguel me disse que por amor se sofre e que é melhor não falar. Pode-se, no entanto, correr.

Pergunto-me se o Miguel se lembra daquela canção. Toda vez que eu saia ele podia dobrar uma esquina, a qualquer momento. Ele me visitava quando éramos jovens. Conversávamos sobre muitas coisas sérias e dele dependia o meu humor. Ele fingia não saber.

Mas com o Miguel tudo era diferente... é verdade, ele já tentou, entretanto, essas coisas com mulher são muito enfadonhas para o Miguel. É que ele era meu amigo. O Miguel morreu sem me dizer isso. Já perguntei para outras pessoas se ele já lhes contou que era meu amigo. Ele não conversa muito com outras pessoas. Conversa um pouco comigo e muito com ela e com ele, já há anos. Eu também quero passar muitos anos com o Miguel, quero estar lá quando for a hora de chorar. Mas pode ser que não seja eu. O Miguel ganha sempre muitos encontros, embora dificilmente ele os aceite, uma vez que um encontro pode ser um grande transtorno.

Combinamos, o Miguel e eu, de sairmos para uma longa viagem no mundo da lua. Quando chegarmos lá vamos nos divertir como não pudemos por muito tempo. O Miguel me faz bem às vezes.

Se ele sente alguma dor, nunca se sabe. Quando ele diz que dói, não parece, mas acho que ele sabe o que diz. Sempre. Até sem palavras. Só o Miguel gosta das coisas que escrevo. O que escrevo não sou eu, por isso que ele gosta. Ele disse que não queria me ver nunca mais enquanto eu chorava em silêncio e aparentava sorrir compreensiva. Quando ele me acordava era bom, era dia, e não nos lembrávamos de nada na noite anterior. Acho que não pensávamos quando éramos jovens, apenas estávamos lá.

Eu me precipitava mas ele era paciente. Outras mulheres amavam o Miguel. O Miguel atravessa os pensamentos, eu entendo. Pode ser que ele apareça e eu terei que fingir que não me importo. Na verdade sempre fiz isso, não é nenhuma novidade. E o Miguel nunca acreditou em novidades. O Miguel não acreditava em muitas coisas. Eu mesma passei a desacreditar na vida. Nesse dia, sequer pudemos nos encarar.

O Miguel, quando eu era jovem, eu sonhava muito com você. Eu nunca mais sonhei e meus sonhos já são muito velhos. O Miguel guardava de mim seus sonhos. Eu nunca fui digna de conhecê-los.

Era o corpo do Miguel sob o lençol. Era o não-querer. O amante que jaz impotente perguntando-se o que dele se pode ambicionar. Eram as luzes difusas sobre o Miguel. Ele não parecia daqui. Estava sempre tão longe o Miguel, desde menino, como eu. Te quero, o Miguel, com uma flor na orelha. Te quero como se pode esquecer, como poesia que não se memoriza. Eu nunca na sua memória, assim, nem feliz, nem infeliz.

Tudo o que eu disse aquela noite era isso mesmo. Entretanto, nada do que eu disse importa. Eu sei. O Miguel às vezes escreve como eu. Só assim soube que ele sabia que eu existia.houve muitos momentos em que o aborreci, ele é de muita sensibilidade.

Não vale a pena conhecer o Miguel. Ele é certeiro e nada há que perdure depois dele. Nem palavras, nem eu mesma. Nenhum sentimento ou desejo. E falando do Miguel, nenhuma razão, nenhuma argumento, nenhuma desculpa, nem os planos, nem mesmo a fome.

O Miguel foi forca na minha vida de lobo em pele de cordeiro.

O Miguel se despediu de mim sem pesar. Ele não via a hora. Eu já tinha acabado para ele, já tinha sido suficiente. Das segundas às sextas eu pensava nele e nos fins de semana eu só queria dormir, inteiros o sábado e o domingo. Assim eu podia estar calma, sem dores de estômago. Deitada no peito do Miguel eu me esvaziava. Eu era silêncio e o Miguel era uma interrogação. Quando o tinha em meu colo, tinha medo até de respirar, não queria acordá-lo. E depois ele sumia, ia assistir a um filme com ela, quem sabe. Um dia cheguei em sua casa e eles estavam na sala. Tomavam café e riam felizes um em companhia do outro. Ela disse que eu podia ficar ali. Eu agradeci e sentei-me quieta num canto a amá-los. Ela era tão suave e todas as coisas que dizia eram dignas de nota. Nesse dia eu enganei as horas e desmanchei os compromissos. Sabe que o Miguel nem me viu entrar? Eu senti um alívio porque o Miguel a amava. Ela entende tudo, sabe como as coisas acontecem. O Miguel só existia por causa dela e só ela existia para ele, dentre todas as outras. Ela era linda. Ela é inesquecível para o Miguel e para mim. O dia em que a beijei foi o mais triste da minha vida. Desde então eu não era mais jovem e nunca mais seria. Aquela menina, as músicas que ela ouvia, as suas belas mãos. Dificilmente se viu alguém tão perfeita, pois ela era perfeita para o Miguel. Ele mesmo me disse e desejou-me sorte.

O Miguel sempre me quis livre. Ele é a lua que surge de dia, que à noite é encoberta pelas nuvens. A noite sou eu, é ela o dia.

Ele não precisava fingir que gostava de mim. Nunca soube por que ele insistia.

Ah, o Miguel. Fala, não me deixa pensar. Anos atrás, perto dele, eu era o meu pior. Vejo por esse reencontro fortuito que não poderia ser diferente. Perto dele eu nunca podia ser eu mesma. Talvez tenha sido por isso que ele foi embora. Eu tive que ouvir cada coisa. Mas ele era o único que não podia me odiar. Hoje, fitando-o já tão maduro, imagino de onde vêm todas essas cicatrizes. Porque ele nunca me contaria.

Com o Miguel não se pode contar. Poucas histórias foram tão conturbadas quanto minha história com o Miguel. Ele era um caprichoso, mudava de intenção a seu bel prazer e comigo mantinha sempre um pé atrás. Nós dançávamos nos fins de semana, abraçados, bem juntos. Um dia eu decidi que o queria; logo, fui embora. Deixei o Miguel. Saí sem ele ver com a minha mala cheia. Ele estava distraído e levou alguns dias para sentir uma ausência. Alguém que não bate à porta, que não está no sofá, que não dormiu em casa, que não fumou seu cigarro, alguém que não lhe busca os olhos.

Certa vez o Miguel me perguntou se estava tudo bem. Suspirei. Fiquei em dúvida: responderia’ está tudo no lugar’ ou ‘está tudo como deveria estar’. Não é a mesma coisa. Pois toda vez que eu tentava dizer a ele que nada ia bem, eu tinha que dizer que eu sou louca, e se, em algum momento, eu lhe dissesse que era por ele que eu sofria, ele ficava desconfiado, pesado e saía andando lenta e silenciosamente para trás, afastando-me com as mãos, devagar sendo engolido pela escuridão do corredor até chegar no seu quarto e fechar a porta na minha cara.

Nunca mais, não é, Miguel...

Pássaros são tão livres. Aqueles lá no céu. Não se pode querer mais nada além de voar? O Miguel disse que eu não mudei nada. Enquanto eu estive fora. O Miguel conheceu outras pessoas. Um dia ele estava na cidade a trabalho. Nosso abraço me soou tão estranho, tão duvidoso e cheio de pontas de dedos. Debaixo de seus óculos ele via meus dedos trêmulos. Ele já não me amava. E como eu lhe poderia beijar as mãos? É tão bom conhecer o outro Miguel. Uma sentença, ponto final. Outra e ponto final. É assim que ele pensa. Ou ele não articula muito bem ou sou eu. Eu podia segui-lo como um cão.

O Miguel, isto é um solilóquio. Eu o amo porque sou poeta.

Eu tive novos amigos depois de você. Quanto a namorados, nuca mais pude, nunca mais tocada, eu nunca mais quis. Eu li outros livros depois dos seus. Porque nenhum outro homem jamais me olhou como você. Não me olhou. Quando se encontra o Miguel é preciso sorrir. Pela feliz coincidência. E seguir intacto e esquecê-lo.

Vejo hoje jovens casais pelas ruas e penso nas pessoas que nos viram jovem casal naquele tempo. Não éramos um casal e não podíamos admitir que pensassem isso de nós. Daí o Miguel me disse que éramos tão orgulhosos e dogmáticos como deveríamos ser quando se é muito jovem.

Quando o Miguel falava era um acontecimento e todo mundo queria ouvi-lo. Bom, pelo menos eu queria. No fim todos sabiam que ele não poderia ser levado muito a sério.

Saiam todos. Desapareçam vocês três. Eu estou aqui toda encolhida e vocês não percebem? Pela primeira vez me senti muito irritada com as conversas deles. Pela primeira vez desde que nunca mais estive com o Miguel. Ele me irritava. Eu lhe retornava ainda mais cheia de questões. Ele acha até hoje que eu cedo, mas eu o estou sempre a desafiar.

Tinha dias em que eu estava muito bonita. Nesses dias eu percebia coisas. Vi isso: uma gritava que o outro não a queria ouvir. Vi o interior de uma bela casa. Está vendo: nem tudo é o que aparenta. Uma porta torta, uma janela apenas e dentro a aristocracia. Voltei a pensar naquele caso, quem seria o mais surdo ou o que não queria ouvir. É que tem dias que me deparo com tantas certezas que me canso. Estou parando por aqui e neste momento não vou pensar...

O Miguel, às vezes a filosofia é o virtuosismo da burrice. Estou um pouco abstrata, um pouco indignada com... Olha o deserto, o Miguel. Talvez eu sugira algo, ou tente convidá-lo. Estou tão perdida. Do teu lado tenho espasmos. Você me vê: estou tranqüila. Vou deitar e dormir ao som de um piano. É só um piano. Nossa despedida foi tão sutil, eu não posso falar. Vacilei na guia; você está sem mim, mas foi bom? Bom lembrar de tudo? Eu me envergonhei, senti-me humilhada. Corei e te procurei. Eu, e também o Miguel, não gostamos de falar, não queremos entender. Mas nossos corpos estão impacientes. Como quando éramos jovens. Nossas bocas foram deixadas por beijar. Até mais, até.

Eu tento ser o vento, o Miguel. Eu me sentava no fundo da sala, perto da porta. Pronta a sair. Era você ali, hoje. Com uma sala de aula. Luz branca, o Miguel, no prédio colonial, você assim mais velho, aliança de casamento. Eu não mudei nada, o Miguel. Conversava em pensamento com você. Queria o meu nome escrito com o teu. Como se algo pudesse nos abarcar. As ruas que estou. Quando o Miguel se foi, a cidade ficou gelada. Frio dentro e frio fora. Não pude evitar a rima de estar assim agora.

Estou lendo aquele livro e te espero no café. Andei pensando em tudo o que matamos. E em tudo o que não deixamos morrer, mas essa conversa anda meio aborrecida entre nós. Nós dois queremos sangue, nós dois. Você se lembra do meu nome? Eu tenho uma coisa dura que me salvou de morrer no Miguel. O Miguel é poesia, não sabe. Tenho estado muito bem desde que ele não voltou.

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