Com o dedo polegar examinou o lugar. De repente, com um movimento brusco, revelou-se um vasto. Uma grandeza cupular e oca. Rapidamente, com o coração a disparar, atirou o polegar à boca e começou a chupá-lo como uma criança. Assim, avidamente. Tinha ficado muito assustada. Aterrorizada. Pois, sabia, à propósito da descoberta, que teria de aprofundar-se nesse oco que escuro, embora na mente, com uma luz no fim do túnel. Novomundo.
Quando imaginava a si entregue, parodiando a ciência dos forenses, imediatemente, ao reconhecer-se na imagem mental, retrocedia. Claramente derramava culpa e por mais que tentasse dissipá-la, lá estava e a luta, tácita; entretanto, implacável. Relentless. Invariavelmente, conseguia contentar-se com seu próprio despudoramento – a que chamava moralmente de ‘perversão’ – apenas quando vestia-se de máscara. E a nova imagem trazia a máscara, e sentia-se até confiante, resoluta e protegida. Cobria-se do certo e da verdade ou no mínimo, de um desejo incontrolável, que por isso mesmo, manto cheio de direitos. Carta branca, álibi, justificativas e prerrogativas. Salvo-conduto.
Sua máscara: a favorita. Lábios profundamente carmins. O corpo típico dos sonhos de todo dia há muito. Não altiva, mas suficiente. Com a máscara podia percorrer as gargantas mais profundas. E por mais que achasse riquezas, ali sempre habitaria o vasto.
É que recentemente, trajava para seus apetites uma resolução que por ora lhe cabia muito bem. Achava curioso estar cheia de vazio ainda que portando a fome. E queria comer as carnes e os livros para saciar-se de si e ser tão plenamente quanto o vazio. Comia olhos verdes, pêlos, sonhos, pianos e palavras. Arrotava um medo exaustivo de passar. No mosaico digestivo, o anti-alimento.
No fim, sustentar a máscara era esconder a fome e a falta, no velho ou no novo mundo. Era iludir-se, era encorajar-se e encobrir-se. E a máscara, como não poderia deixar de ser, era feita de espelhos. Côncava e convexamente falando.
Mas o que a velha feiticeira lhe havia dito, era que largasse das coisas velhas e que desse ao tempo, tempo. Desta feita, fez-se ver que por trás da máscara esgueirava-se sempre a criatura a chupar o polegar de olhos arregalados. Estupefata. De prontidão para o revoar de temores no estômago. Ciente de que nada restaria incauto. A não ser suas miudezas, pois as impurezas e as dádivas ou fenecem ou se aprimoram.
No oco de porta trancada, pensava em sua resolução, em sua fome mascarada. Via o quão maquinalmente ligados estavam os fenômenos devirescos visíveis de sua própria janela e de sua pele. Glimpse-like, achou outra máscara, que estava na cara. E descobriu as máscaras bailando uma dentro da outra. Ad infinitum.
Todavia, sua máscara ideal, a favorita, era utilizada com muita timidez nas ruas. Era apenas um o lugar onde podia e precisaria, por questão de vida ou morte, usar a tal máscara. Paixão. Porque, de resto, preferia usar uma máscara precisamente adornada de sombras e de ouvires. Costumava optar por essa que não era tão bela, uma mais discreta, para ser vista sob a luz do sol. Os rituais cotidianos não habitam a paixão com frequência. Eis a lei da favorita. Ideal para os abundantes matizes lunares.
De qualquer maneira, nutria grande apreço por ambas as peças. Uma, instigava cautela às entranhas e trazia nos olhos estórias fantásticas. De uma pintura única e irresistível, digna de um mestre, una preciosidad. Seu cheiro era reconhecível em qualquer parte, era vermelho e dourado. Os dentes eram todos feitos pérolas e a pele brilhava em brocados finos. Moldura clássica, e por isso mesmo misteriosa. Elegância e torpor embutidos em gargalhadas a ecoar nas formas. Os movimentos cortantes como a fina lâmina, dura e fria, meticulosamente calculada e calculista, aparentavam porcelanas e se partiam ao mesmo som. Distante e soberana, inconsequentemente livre, era puro susto.
A outra tão mais humana, tão baixa e passional, irritantemente pudica, e humildemente simpática e agradável. Tinha o dom de ser invisível e muda, a não ser em breves momentos de falácias e falazadas gafes e controvérsias à moda naive. Sentia quaisquer das coisas de gente, vivia a posse em doses prescritas e sabia de cor o gestual piegas das intensidades. Estava como que ligada por um cordão umbilical às memórias, o que lhe dava um tom como o da pele queimada de sol, envelhecida e perecível. Tinha medo de ser grande, porque teria assim muitas responsabilidades. Era só um pouco diversa, nada de extravagâncias, pois lhe causavam ressacas.
Sabeis que era o vasto que habitava o meio do vazio que se espalhava entre mulher-menino-menina-homem. E isso, por ora, lhe cabia muito bem. O caso é que não podia calcular temperaturas nem quereres; tampouco podia controlar os pensares. E devia conviver com a náusea, e tentar torná-la digna e tentar suprimi-la. Seus andares eram zonzos, cada um de uma tal embriaguez, à caminho do vácuo. (...) Não parecia haver um lugar de onde não poderiam brotar outras máscaras. Nas falésias de mármore, nos chãos de barro batido, sob tapetes quilométricos de valor inestimável, nas águas que descem apressadas ralos e galerias, nas loucuras travestidas pelas artes, no mil de sensações, em cada parte de um corpo que pode ser mais mil.
As máscaras depois de um tempo, viram fantasmas. Vampiros que não aparecem no espelho. Mas é o tal esquecimento, diz-se, ‘apenas’. Pois qualquer sopro, fá-las voar de encontro ao rosto, e logo tomam o peito como lufadas de vento forte. Algumas prenunciam tempestades, como se sabe, mas outras vêm de praias de céu aberto e areias brancas. E há ainda, aquelas que são sussurros e aquelas que são bafos quentes.
Pode-se dizer que o caso das máscaras é um labirinto com múltiplas entradas e saídas, escadas e alçapões. Uma doença sem cura, uma angústia infindável, uma alegria constante. E transtorna-se, porque não tem direção, não tem razão, não tem sim e não tem não. Amorfo. No interminável jogo das paralelas e das perpendiculares, as máscaras são causa e efeito. São sabidas e são surpresas. São insípidas ao entendimento. Que o leitor não o gaste.
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