I. Sobre como se pode ser cego
Gosto de tocar meus ossos. Apalpo as carnes com suas diferentes densidades e atento-me a textura das peles, mas o que busco mesmo é o que está lá dentro, aquilo duro de formas tão bonitas. Esculturas de matéria tão humana, os ossos me assombram. Penso nos longos ossos e sinto falta do fêmur que jamais toquei. Gosto do rosto porque nele a carne é fina, e os locais onde se pode aprofundar os dedos são muitos. Também gosto porque me pasma saber que não me identifico à toa com os crânios. Enterro o polegar nas bochechas, abro e fecho as mandíbulas e posso ainda perscrutar com a ponta dos dedos as órbitas oculares, movendo os globos de um lado para o outro, empurrando-os para dentro, tanto faz. Uma coisa que aprendi durante as horas que passava no banheiro cantando – o banheiro é um grande sintetizador: meu efeito favorito, o reverb – é que a região palmar medial das mãos encaixa-se perfeitamente sobre a depressão dos olhos e pressionando-as um pouco sobre eles, tudo se vai tornado escuro e basta esperar até que surjam os primeiros pontos cintilantes que escorrem, piscam, e depois os padrões geométricos pululando coloridos com cores incomuns, próprias do encontro mão-olho. Gosto de sentir minhas escápulas deslizando sobre as costelas quando abro as asas. É tão frágil todo o corpo; às vezes percebo que bastaria um movimento mais brusco apenas para dilacerar as camadas do invólucro da cavidade abdominal para desvendar o mistério da organização dos órgãos, suas cores e tamanhos, seu cheiro. Ao mesmo tempo, os ligamentos são tão fibrosos que parecem duros como os ossos, e estes por sua vez, são esponjosos e flexíveis, cheios de nervos e irrigados pelo sangue, como qualquer outra parte. Não é surpreendente, todavia ensinaram-me dos ossos através dos ressecados, calcificados, fossilizados e pálidos esqueletos. Sempre me fora difícil conseguir imaginar um esqueleto dentro de mim tal qual via nas figuras dos livros de anatomia ou nos laboratórios da escola. De certo, quem me falava sobre anatomia descartava a possibilidade de haver algum tipo de dúvida sobre o corpo, pois muitos corpos já foram completamente vasculhados, seccionados, dissecados, atropelados, estripados, embalsamados, vivos ou mortos, enfim, estudados. Passo muito tempo tocando meus próprios dentes, com a boca seca para sentir-lhes devidamente como ossos que são, projetados para estar em contato com o exterior ao corpo. São ossos, os sorrisos. Nos ouvidos, tão menores, participam da cadeia do maravilhoso fenômeno da captação do som como timbre e cor, pela transmutação das ondas em impulsos nervosos, ah! pura alquimia, a sensação auditiva. Ora, para ser cego não basta que as vistas falhem. Pode-se ser cego dos ouvidos, dos ossos, dos instintos, das intuições, das palavras, etc. Também não é só querer estar cego. O que tem me intrigado é se, de fato, há alguma maneira de não estar cego; algum momento, talvez, onde não haja cegueira e tudo seja nítido; mas se é cego no claro ou no escuro, um cego no outro. A prática tátil é uma alternativa à absoluta cegueira que me envolve. Penso meu corpo todo feito de olhos, - como se olhos fossem as próprias células, ou pior, as partículas dos átomos - assim mesmo, de cima à baixo, revezando-se em suas piscadas e sonecas. Um ou outro sempre se demora mais para enxergar o que lhe cabe antes que o corpolho saia do lugar; ainda há aqueles que enxergam mal e os que identificam as formas e poderiam desviar-se, mas ignoram e chocam-se contra o poste. Os mais cegos entristecem-me. Estes, são os que vêem a solução, a verdade, ou coisa que o valha. Por assim dizer, eles vêem, então, estes olhos sorriem até adormecer. Ao se abrirem no despertar, só podem ver que o corpo mudou de lugar e o tesouro que encontraram já não serve, ou continuarão cegos. Acredito que estes olhos queiram mesmo livrar-se da dor da confusão de serem tantos, entretanto só há confusão a ser enxergada e o resto, são escolhas. Abrir ou fechar, virar para qual direção, qual filtro usar, pilotar ou não... distrações para incrementar o jogo dos cegos perdidos. Ainda bem que as bengalas, as bengalas existem. Sou uma colecionadora.
II. Minha mãe
Carrego o fardo de lhe desfazer a história sobre mim. Sua sombra amorosa suscita em mim grande desprezo, vontade de me desprender do cordão umbilical. Tanto amor que sinto, quanto mais longe muito melhor. Estou com preguiça de tentar atualizá-la sobre minha cabeça e suas produções. Nunca fomos assim, a mesma coisa, como eu pensava que era naturalmente. Vez ou outra eu a procuro nas lembranças e lembro-me vagamente dos pequenos milagres domésticos e dos rompantes de humor. Desisti de procurar algo mais forte na poeira da memória além da ausência. Mas há aqueles momentos em que abro minha boca e a sou. Que me movo, e a sou. Momentos em que olho as pessoas e olho o mundo, e a sou. Sobe-me o medo de já sê-la sem saber. Já tive oportunidades nas quais descarreguei minha fúria pela sua referência um tanto tola, quase sem expressão, sem brilho, mas por deus! (‘para falar à moda antiga’) não é mais ou menos coitada que eu. De repente me dou conta de que não a conheço! Jamais a conheci, não sei de sua história e já temia repeti-la. Diante dela sou criança, menos porque ela diga sempre isso do que por minha postura equivocada, meu adultismo agudo. Minha mãe chama-se responsabilidade e já nascemos aborrecidas. Seu corpo é âncora dela e de mim. Sua cabeça, mistério e consequentemente, desgaste. É assim a natureza juvenil. Carregar a palavra mãe me dói.
III. Meu pai.
Só posso admirar alguém que faz o que tem de fazer. Admiro quem foge, sim. Admiro quem não aceita. São atitudes muito férteis, senão, donde viriam os remorsos, as lições tão preciosas sobre a vida e os componentes da ‘personalidade’ doentia?
‘Papai, papai. Eu o chamo agora aos pés da minha cama, papai, para que você me ouça uma única vez, papai, para que não se esqueça, papai, nunca nunquinha, do que nos aguarda. Papai, dá tua mão na hora da morte. Papai, papai, papai. Cuidado na curva da estrada, você vai me dizer. Cuidado com os meninos, você vai me dizer. Vai ficar orgulhoso de mim, papai. Papai, eu estou viva. Obrigada papai, por não me decepcionar, por me poupar, por me ensinar a ser outra coisa que não eu. Papai, não responde, papai. Não fala nada.’
IV. Sonhos
Sonhar todas as noites foi uma questão de princípio. Não seriam os sonhadores mais felizes? Mais sensíveis? Videntes disfarçados. Ou talvez espelhos ambulantes sufocados na anatomia do eco. Sonhos líquidos, metálicos, amorfos, líricos, pesadelos. Quando sonho acordo curiosa, intrigada, mexida. Detesto os sonhos comuns, os que parecem com a ‘vida normal’. Prefiro que os dias de ‘vida normal’ se misturem com os sonhos sem chão, com tudo o que não existe porque não se quer. Estou à procura do grande sonho, daquele que ao tomar outro tipo indescritível de consciência não mais retornarei. Daquele sonho onde o tempo definitivamente não faz questão nenhuma de se mostrar e expõe-se como tudo o que não é. Impõe-se como única ordem: a desordem. Inconsciência, inconstância assumidamente fluentes. Sonhar o tempo todo, independente dos astros escravos do ciclo, é tal tipo de embriaguez que quase me faz feliz. Pergunto às pessoas sobre seus sonhos, o que lhes são, como funcionam em suas vidas acordadas. Já ouvi estórias impressionantes. O que mais se repete, é que o sonho é subversão.
Sonhei durante muito tempo sem me ater a qualquer significado e de fato, tinha pouca distinção entre dia e noite. Divertia-me apenas, delirava sem culpa. Hoje sonho com colete à prova de balas. Com um pára-quedas reserva. Com spray de pimenta no bolso. Hoje desde que acordei grande.
V. O balé da Inspiração
Rasguei muitas folhas até que conseguisse escrever esta carta. Não consegui, como se vê. Digo, estão aqui as palavras, mas o que quero dizer talvez esteja mais presente em pinturas e músicas. Nos meus olhos certamente. Na minha boca que balbucia, rumina. Te fiz uma canção.
As musas não são feitas de papel amarelado. Um dia elas brilham dentre rostos, com seu perfume de mistério, e quase sem saber nos atraem para perto. Seu encanto é forte, tão forte que se confunde com as nossas pequenas coisas de mortais. Mas são tão generosas, continuam a girar os véus translúcidos numa dança emocionada, puro feeling. Sobre a questão do feeling. É difícil captá-lo. Não se pode pretendê-lo. Ele é.
VI. Sobre o óbvio
Talvez a única solução mesmo, seja um longo olhar pousado em seus olhos, meu querido. Pois não preciso mais desviar-me uma vez que entendi, e você estava certo, certíssimo: é óbvio; é óbvio agora como o era tempo todo sem que eu visse, ou quisesse ver, ou ainda, sem que eu devesse ver naquele cada instante. Obrigada pela surpresa: eu não imaginava o seu tamanho.
É estranha tal sutil sintonia que desenrola o caminho sob os pés e o toque das mãos. É de rolar no chão rindo quando uma epifania quebra um mundo inteiro de acontecimentos, derrapa-nos na estrada e atira tudo às profundezas do penhasco. O sangue tinge as bochechas de repente de enorme constrangimento, calando a risada e o lampejo de libertação de frações de tempo já atrás. Pergunta-se: onde estava com a cabeça? Ou coisas do tipo: por quê? como? O melhor lugar para presenciar um muro que desaba é de cima dele, nem de um lado nem de outro. Acontece que esse lugar não permanece e cedo ou tarde, pende-se para um lado outro. A sorte (...) é poder vislumbrar o que estava escondido e por à prova a imaginação.
Há muros sólidos, fortificações intransponíveis; também muros que oscilam com o vento, de barro, de pedras, de tijolos. Muros baixos e muralhas como a da China. Se bem que essa é única. Muros para os quais seriam necessárias as mais pesadas artilharias para uma queda. Mas sempre é possível que um estrangeiro chegue com certa espécie de explosivo ainda desconhecida em outras terras e detone o que seja preciso. A questão é: o que fazer com os entulhos da demolição? Amontoados na paisagem, sob os pés de quem finca a bandeira da vitória... pensemos de maneira politicamente correta: que tal reaproveitar os materiais dos destroços para novas construções... que não sejam muros, mas quem sabe, bancos de praças onde se possa sentar e contemplar o dia ou a noite, ler um bom livro, ou passar horas conversando com um bom amigo.
Com o passar do tempo os muros vão envelhecendo em belas ruínas, carregadas de história, invadidas pelas trepadeiras e arbustos, verdadeiros monumentos, como as memórias de uma dor grande que se sentiu em algum lugar da vida, antes de agora.
Muros têm de ser erguidos e demolidos. É isso,um dia acordo e descubro de toda minha vaidade, meu egoísmo, logo eu...
VII. Os livros
O cheiro. A edição. A revelação. A ilustração. A quantidade de palavras. As referências. O registro. A invenção. A espessura. As possibilidades. A utilidade. A poesia. Os clássicos. Os piores. O seu. A obra. A força. O começo. Não ler o final antes de começá-lo?
VIII. As palavras
Abundância. Boca. Carcará. Damascos. Espadachim. Flanco. Gooseberries. Halo. Indolência. Jolie. Longitude. Moan. Nêutron. Ócio. Propedêutica. Querela. Regurgitar. Sussurros. Thunder. Urgência. Veloz. Xadrez. Zonzo. Uma piada...
IX. Fome
Eu não quero o que desejo. Parece-me bastante claro isso, bem agora e desde uns dias já. Não estou dizendo que descobri o que realmente desejo. Será possível essa instância do ‘realmente’? O que quero, o que suponho desejar, está na superfície. O que de fato move os desejos atuais e os quereres sem eira nem beira está muito mais profundamente se movendo. É algo - ou são - inexoravelmente despido de sentido, algo que traça linhas por baixo disso que reconheço como eu. Formam-se aí as direções percorridas no momento em que nelas imprimo minhas pegadas, e é claro que isso tudo deixa-me muito mais perdida. Sigo como um flanêur do recôndito. O que quero não é isso, é outra coisa. Sempre e no momento mais intenso do desejo, é coisa outra. Não é nada disso que minha mente conscientemente me diz que é. Aquilo que quero, os meus desejos, não têm nome, cor, forma, substância, não são dizíveis. Não apontam; antes são a própria desorientação e a mais impura perfeição das linhas tortas. Padrões e molduras para desejos solidificados. Por mais que eles mudem de tempos em tempos – hoje quero sorvete, amanhã chocolate quente – a questão é que há um forte hábito de petrificar o querer em uma forma à qual seja possível apegar-se. Torno-o um, como se fosse possível aglutinar óctuplos em um só filho, e ainda, aniquilar os conflitos entre eles. De maneira que, instaurada essa dureza, envolvo meu desejo em quentes mantas e por ele tenho muito apreço. Costumo ainda niná-lo e passo a alimentá-lo com meu próprio leite, no ato mais devoto e destrutivo. Como o bebê a sugar o seio da mãe, o desejo me suga as forças, o mínimo discernimento. Ele baliza meu agir e qualquer injeção de prudência ou de sensatez é por ele dosada. Ele sufoca a desmedida nela mesma. Não há como abrir-me para o que venha – e isso possui um alto teor de mau gosto. Não posso esperar que meu desejo diga sobre mim qualquer coisa. Ele nunca diz nada, ele é uma ponta de iceberg, uma porta aberta, é tão muitos quanto eu mesma. O meu desejo, assim, um, é tirano. Eu, nele me escravizo, com e sem meu próprio consentimento. Não se trata de saber por que desejo, quero, trata-se de admitir que me escoro nos desejos para amenizar a incompreensão da existência que ele traduz quando tento concatená-los. Fico rodeando em seu entorno, mordiscando pitadas de norte. E ainda assim, a única coisa que me resta é desejar, mas deixar desejar, sem nomear o que quero, ou fazê-lo ciente, até onde seja possível, que me escapa ao entendimento. Que apenas me mantém com os pés a tocar o chão. O que se apresenta como um grande paradoxo, uma vez que sinto o desejo como aquilo que me descola a cabeça do pescoço. O que o desejo produz é-lhe completamente distinto, sem causalidade. Quando digo ‘quero isso ou aquilo’ apenas dou um nome, extravaso algo fora de alcance, incontrolável e impermeável pela clareza. Quando digo ‘quero isso ou aquilo’, não quero. Torturo-me, aprisiono-me, defino-me. O exercício não é o não-desejo: é o silêncio da mente e a pulsão do corpo.
Se não acredito no acaso absoluto é porque algo parece seguir seu curso. Mas são vários cursos, nem é questão de que ‘poderiam’ ser outros; isso nem vale à pena pensar. Os que são, não os que seriam. Você disse, as peças devem ser trocadas. Pensei a respeito de investigar atentamente a anatomia do tabuleiro, a fisiologia das regras e as possibilidades de cada peça, como único jeito de jogar. Um grande jogo onde apenas trata-se de jogar... perder ou ganhar, compreender. Jogar, viver. As estratégias, eu; as decisões, o Outro.
Claro que o tempo nos pregava peças. Uma criança brincalhona, inconscequente, grave. O tempo sim, nos pregava peças e assim continuará. O que seria de nós, pobres humanos sem as mãos para se dar. Isso de não ter pé nem ter cabeça, é muito fácil. Eu nem acredito na sua chegada!
Choco-me frente à velocidade com que certos movimentos cuidam de mudar os ângulos de leitura. Insisto que não posso dizer que entendi alguma coisa, todavia, fui provocada a ponto de me mover bruscamente, e olhando para trás, tudo cai, tudo se desconstrói como parece necessário que seja. De que adianta escrever, falar ou pensar sobre o acontecimento que nos envolve. Obrigada pelas canções, pelas poesias, pelas pinturas, pelas cartas, pelos ouvidos. Cantarei belas músicas, aquelas que são mesmo de mim para você tanto quanto de mim para mim mesma. É que as palavras faltam tanto que apenas consigo lembrar-me de músicas para tentar comunicar algo...
Não cabe.
X. Let’s have a cup of coffee in Paris
Meu querido! Meus olhos vertem lágrimas quentes, lágrimas de quem se desdobrou. Como poderia dizer-lhe. Nada. Olharemo-nos longamente, e agora, tão diferente. Meu querido! Estou tentando dizer da pedra de toque que você perguntou-me uma vez: qual é? Eu não podia tocá-la naquele momento, porém, ela voltou-se em direção a minha cabeça, cortou-me a testa e o sangue escorreu sobre meus olhos, modificando todas as cores, como um filtro. Não, a vida não é morte, não é triste, não é dor e sangue. Sei lá o que é, mas muda de cor.
p.s.: Por que é que estou tentando descrever o que me acontece agora; é muito grande, ainda está batendo...
Nenhum comentário:
Postar um comentário