Estou cansado. É verdade, mas já não significa muita coisa. Já me cansei de estar cansado. Mas ainda mal comecei, ou então comecei mal. Devo tentar recomeçar? Pouco importa. Isso. Isso é que é importante. Devo começar por isso. “O Importante é que pouco importa”. Parece bem humilde. Eu poderia tentar explicar, poderia vasculhar minha memória em busca de sintomas e causas capazes de construir um laudo. Talvez eu até encontraria um culpado. Encontraria nele, no culpado, ligações subterrâneas com as mais inimagináveis desgraças. Feito isso, despejaria sobre ele toneladas e toneladas de fracassos existenciais que insistem em impedir meu caminho, aí com um pouco de sorte poderia me sentir melhor por 1, ou talvez 2 minutos. Posso contar e recontar essa história como tantos outros fizeram antes de mim, mas vou poupá-los, pois estou cansado e também porque sou humilde. Basta dizer por enquanto que de qualquer forma não faria muita diferença. Pois daqui a pouco tempo, eu, que me encontro neste momento no poder, eu, que seguro esta caneta como um cetro e que com ela desenho, vacilante, um esboço de meu reino, eu, o rei, serei destituído do poder e junto comigo todas as imagens e sons que carrego também perderão o comando. Darei lugar então a um outro, nem mais, nem menos humilde que eu, mas para o qual o culpado que criminalizei a pouco, aparecerá como um estranho qualquer, distante demais para ser acusado das desgraças da existência que agora responderão por outro nome e outro som. Libertarão então o ex-culpado e mais uma vez o machado não cairá sobre cabeça alguma. Portanto, enquanto não houver um carrasco para executar sua função, pouco importa. Nem sempre foi assim. Desconfio que nem sempre tenha sido assim. Há aqui comigo algumas histórias antigas, de outros reis provavelmente, Devo contá-las? Vou contá-las, não porque estou menos cansado mas porque gosto mais delas.
Um menino corre, corre e corre, ele tem os braços abertos e empurra o chão com toda força, ninguém está olhando pra ele, corre sozinho contra o vento. Então ele decide parar de respirar, assim ele pode correr mais rápido. E é verdade, ele está mais rápido, num momento ele sorri, no outro ele tem a impressão de ouvir um enxame em sua cabeça, seu estomago desesperado tenta pular pra fora da boca e seus olhos vão ficando escuros, escuros. O menino cai. E respira. Agora ele já sabe que não é livre.
É uma boa história, gosto dela, apesar do menino não ser muito humilde. Ela daria uma ótima história para carrascos, se houvessem carrascos. Vejam só, que ironia, eu, um rei, se é que ainda sou rei, estou completamente submisso a um carrasco. Na verdade nós reis somos muito mais submissos do que se pode imaginar. Eu mesmo mal consigo começar, quem diria então terminar. Deveria tentar ?.............o que ?
M.F.
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Série Cartas - Carta Provisória àquele que suplanta
Esta é a última carta que lhe escrevo. E assim espero. Embora às vezes eu até ache bonito se estiver fadada a continuar a lhe escrever por anos e anos.
Estou embrulhando cousas singelas, souvenirs dos gratos, que quero deixar para você, em nome das delícias e das mazelas que você me viveu e que não é possível pôr dentro de uma caixa; vindas de você, esteja certo de que são preciosidades todas as cousas. Ademais, essas tais, só existem depois de você, para você e por você. Este voluntarismo ingênuo não me envergonha, antes desloca-me para um dos poucos lugares onde me encontrei plena: meu pensar na tua figura. Talvez tua caricatura, você engraçado, assim mistura de E.P. e C,G. (e esse segredo fica entre nós).
Mando-te um retrato pintado de que gostas, músicas desse tempo de um ‘nós’ inconstante, um livro para lhe divertir e todas as cartas que não te mandei por falta de você querer, mas agora que estamos assim tão bem, tão amigos e tão distantes, fica com elas, guarda de mim essa cousa sincera que me brotou num dia qualquer em que te olhei e minha vida mudou para longe de seu uso ordinário.
Abriste para mim vários caminhos ao me destruir, pois, tudo o que senti, o que sinto e o que sentirei sempre - mesmo que no buraco de ti em meu peito um aterro de amores vindouros se faça - é o néctar do poeta que morre a sonhar com sua musa. Qual néctar este, que de nenhuma boca sorvi antes com tanta doçura! A tua boca ausente, tua boca que a mim não pertence e penso que é bom, uma vez que não te quero ser dona, ainda que eu lamente que outra pessoa tenha recebido tal honra, tal presente. Mas sei que é alguém que te faz feliz hoje e sempre, amém.
Nós que temos nossos eternos namorados, sabemos como é que o coração bate sincronizado com o abraço amado. Sabemos a respiração combinada dos pares. Pena talvez não termos espaço para mais abraços eternos. É o homem tão pequeno, é o dia tão curto, é o caso tão rápido. É a porta trancada, é a luz tão fraca, é a conversa tão disfarçada, é o desejo tão velado, é a abertura tão estreita, é o acolhimento ao diverso tão preguiçoso. Porém, é a companhia tão saborosa, é o momento tão propício, é o subtexto tão longo, é a saudade tão grande, é o beijo tão peculiar, é o olhar tão profundo, é o sono tão tranqüilo, é a mão tão pegar...
Entre suspiros e tiques nervosos, vi a cara dos meus demônios ante a luz das tuas palavras e dos teus gestos. E embora eles me parecessem horrendos no início, são todos, depois de você, obsoletos. No entanto, não estão ainda domesticados, serão sempre xucros sobre os quais ponho o arreio a fim de continuar a longuíssima viagem dos esquecimentos.
Meu querido... menino, na tua luta com deus – ou talvez na minha - fizeste-me tão feliz sem saber. Fizeste da minha palavra suja poesia e canção, do meu corpo cheiro e passagem, da minha cabeça vento e da minha língua teu nome sagrado. Tu es si charmant! Qu’en est-il écrit à ce sujet...? Un jour j’ai lu ce que vous écrivez, tout ce qui vient de votre âme...
Mando também num vidrinho as últimas lágrimas que te chorei, antes de secarem por completo em lembranças de um tal amor que cumpre sua sina de não se realizar. E choro, bem agora, ao escrever estas palavras, mas acredite, é mais felicidade que tristeza... pois não haverá um ocaso daqui para frente que não me traga o tom longínquo da tua voz e o tamborilar dos teus dedos sobre os móveis.
Lembra da última vez em que te toquei os cabelos? Disse-lhe que queria tudo o que você tivesse para me dar. Acusou-me de ambiciosa e eu agora admito; não obstante, aproveito e confesso que quis muito mais. Espero que você entenda o quanto você é. Agora, passada a tempestade da minha triste paixão, sei que há ainda uma cousa que te posso pedir, mesmo que me negues mais uma vez, mas é assim que eu te amo, é assim, é você. Então, lembra de mim de vez em quando. Lembra de mim e sorri, que este é meu ofício. Lembra de mim no meio de uma noite, que este é meu sonho. Lembra de mim no meio de uma rua, e segue teu caminho.
P.S.: Olha no fundo da caixa, uma partitura escolhida a dedo para teus dedos... que tua vida seja música para que você dance com a desenvoltura dos gatos os teus medos e muito mais o teus amores.
Estou embrulhando cousas singelas, souvenirs dos gratos, que quero deixar para você, em nome das delícias e das mazelas que você me viveu e que não é possível pôr dentro de uma caixa; vindas de você, esteja certo de que são preciosidades todas as cousas. Ademais, essas tais, só existem depois de você, para você e por você. Este voluntarismo ingênuo não me envergonha, antes desloca-me para um dos poucos lugares onde me encontrei plena: meu pensar na tua figura. Talvez tua caricatura, você engraçado, assim mistura de E.P. e C,G. (e esse segredo fica entre nós).
Mando-te um retrato pintado de que gostas, músicas desse tempo de um ‘nós’ inconstante, um livro para lhe divertir e todas as cartas que não te mandei por falta de você querer, mas agora que estamos assim tão bem, tão amigos e tão distantes, fica com elas, guarda de mim essa cousa sincera que me brotou num dia qualquer em que te olhei e minha vida mudou para longe de seu uso ordinário.
Abriste para mim vários caminhos ao me destruir, pois, tudo o que senti, o que sinto e o que sentirei sempre - mesmo que no buraco de ti em meu peito um aterro de amores vindouros se faça - é o néctar do poeta que morre a sonhar com sua musa. Qual néctar este, que de nenhuma boca sorvi antes com tanta doçura! A tua boca ausente, tua boca que a mim não pertence e penso que é bom, uma vez que não te quero ser dona, ainda que eu lamente que outra pessoa tenha recebido tal honra, tal presente. Mas sei que é alguém que te faz feliz hoje e sempre, amém.
Nós que temos nossos eternos namorados, sabemos como é que o coração bate sincronizado com o abraço amado. Sabemos a respiração combinada dos pares. Pena talvez não termos espaço para mais abraços eternos. É o homem tão pequeno, é o dia tão curto, é o caso tão rápido. É a porta trancada, é a luz tão fraca, é a conversa tão disfarçada, é o desejo tão velado, é a abertura tão estreita, é o acolhimento ao diverso tão preguiçoso. Porém, é a companhia tão saborosa, é o momento tão propício, é o subtexto tão longo, é a saudade tão grande, é o beijo tão peculiar, é o olhar tão profundo, é o sono tão tranqüilo, é a mão tão pegar...
Entre suspiros e tiques nervosos, vi a cara dos meus demônios ante a luz das tuas palavras e dos teus gestos. E embora eles me parecessem horrendos no início, são todos, depois de você, obsoletos. No entanto, não estão ainda domesticados, serão sempre xucros sobre os quais ponho o arreio a fim de continuar a longuíssima viagem dos esquecimentos.
Meu querido... menino, na tua luta com deus – ou talvez na minha - fizeste-me tão feliz sem saber. Fizeste da minha palavra suja poesia e canção, do meu corpo cheiro e passagem, da minha cabeça vento e da minha língua teu nome sagrado. Tu es si charmant! Qu’en est-il écrit à ce sujet...? Un jour j’ai lu ce que vous écrivez, tout ce qui vient de votre âme...
Mando também num vidrinho as últimas lágrimas que te chorei, antes de secarem por completo em lembranças de um tal amor que cumpre sua sina de não se realizar. E choro, bem agora, ao escrever estas palavras, mas acredite, é mais felicidade que tristeza... pois não haverá um ocaso daqui para frente que não me traga o tom longínquo da tua voz e o tamborilar dos teus dedos sobre os móveis.
Lembra da última vez em que te toquei os cabelos? Disse-lhe que queria tudo o que você tivesse para me dar. Acusou-me de ambiciosa e eu agora admito; não obstante, aproveito e confesso que quis muito mais. Espero que você entenda o quanto você é. Agora, passada a tempestade da minha triste paixão, sei que há ainda uma cousa que te posso pedir, mesmo que me negues mais uma vez, mas é assim que eu te amo, é assim, é você. Então, lembra de mim de vez em quando. Lembra de mim e sorri, que este é meu ofício. Lembra de mim no meio de uma noite, que este é meu sonho. Lembra de mim no meio de uma rua, e segue teu caminho.
P.S.: Olha no fundo da caixa, uma partitura escolhida a dedo para teus dedos... que tua vida seja música para que você dance com a desenvoltura dos gatos os teus medos e muito mais o teus amores.
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Essa noite, sou mais um dos caras
Falávamos dos loucos. Dos mais loucos e dos menos loucos. Dos quase loucos e dos sempre loucos. Sou louco. Não sou louco. Posso ser louco. Posso ficar louco. Loucos são eles. Loucos são estes. Loucos são vocês. Eu sou louca, mas você, meu amigo, é muito louco.
Falávamos dos ressentidos. Fale mais sobre isso. Como você fala comigo? Os papos das moças eu não sei corresponder. Nem os dos caras. Então virei a cabeça para o lado esquerdo, olhei o nada mais para baixo. As pernas cruzadas e cobri os joelhos com a saia preta. A mão direita sobre a boca. Respirei e mergulhei, saí dali, saí de vocês, estátua, pintura, sei lá o que eu fui.
Quem é aquele louco? Mas me senti sorridente quando olhei todos os caras, a gente na roda, cada pé apontando uma direção. Eu só vou quando você me chamar. Pensei nas minhas amigas, será que estarão pelas ruas, por aqui, por essas bandas? Será que algum louco chega bêbado de madrugada aqui na minha porta?
Falávamos das viagens. Falávamos das moedas. Falávamos do quanto era bom. Nós, jovens, achamos algumas coisas boas de verdade. Boas como deveriam ser. Me procura pela rua e me falta o ar. Falávamos da bebida e dos cigarros. Meu Marlboro, meu caso. Alecrim, o alecrim é dourado.
Quem quer parecer o que é? Quem quer dizer o que pensa? Não. Se for repetir, não diga mais nada.
Falávamos dos ressentidos. Fale mais sobre isso. Como você fala comigo? Os papos das moças eu não sei corresponder. Nem os dos caras. Então virei a cabeça para o lado esquerdo, olhei o nada mais para baixo. As pernas cruzadas e cobri os joelhos com a saia preta. A mão direita sobre a boca. Respirei e mergulhei, saí dali, saí de vocês, estátua, pintura, sei lá o que eu fui.
Quem é aquele louco? Mas me senti sorridente quando olhei todos os caras, a gente na roda, cada pé apontando uma direção. Eu só vou quando você me chamar. Pensei nas minhas amigas, será que estarão pelas ruas, por aqui, por essas bandas? Será que algum louco chega bêbado de madrugada aqui na minha porta?
Falávamos das viagens. Falávamos das moedas. Falávamos do quanto era bom. Nós, jovens, achamos algumas coisas boas de verdade. Boas como deveriam ser. Me procura pela rua e me falta o ar. Falávamos da bebida e dos cigarros. Meu Marlboro, meu caso. Alecrim, o alecrim é dourado.
Quem quer parecer o que é? Quem quer dizer o que pensa? Não. Se for repetir, não diga mais nada.
Sexta à tarde, sede na testa
Você se lembra? O mundo girando no burburinho de pessoas na rua do cinema, o dia em que o sol dá o ar da graça entre as nuvens como um naco do seio que se desnuda na camisa folgada, suave luz escapando pelo nublado; lembra do vento cheio de cheiros, trazendo risadas de clima ameno? Não é paz, é uma superfície fluida.
Eu sei que ela gosta de mim, talvez pela música que lhe fiz. Acho que ela gosta do jeito que eu preparo as coisas que ela não come. Eu gosto do jeito que ela entende.
Lavava o rosto, eu. Água gelada até o limite dos cabelos. Caradas nas mãos cheias d’água. Delícia. Vejo a luz do sol entrando pela janela, espalhando-se na tampa branca do vaso. O peito aliviou, respirou todo contente, vi no espelho.
Continue a nadar, ela diz, continue a nadar. Amasse a massa, separe-a, enrole-a, junte-a, corte-a, amasse-a... e sobretudo, continue a nadar.
Leitor caro, não me diga que isso que escrevo é auto-ajuda. Leitor raro, cuide de imaginar, não me amole com respostas.
Caneta nova caderneta, convida a café nos fundos dessa espelunca que tem alma de velha, butiquim, pardieiro, substrato poético. Tentam mudá-la, refiná-la,limpá-la, nivelá-la, mas sua arquitetura delata (para mim que a conheci antes da reforma).
Terei eu achado mais uma vez que matando a saudade, nesse caso sentando nesse banco e nessa mesa, terei eu achado mais uma vez que um surto de inspiração justificaria a ânsia, a fome?
A pior coisa é sentar de frente para o banheiro. Explicaria porque mas estou evitando a fadiga. Atende-me. Attendez-moi.
O que eu faço com tanta velocidade? As cores, os rostos, os sentidos, os sentimentos, os quases, as pausas, as vontades, as lembranças, os cheiros, as visões, as conversas, os sabores, os saberes. Parece que alimento uma bomba cuja dimensão do estrago eu não conheço. Pus até um relógio relíquia de família no pulso para a contagem regressiva.
Ah! Quando digo sentidos não são os bons e velhos cinco, são as anti-sacações.
Por que sentar aqui e escrever essas coisas, por que querer que você me leia? Eu não quero falar de você, estou aqui sozinha e não quero falar de você. Não estou olhando as horas no relógio automático para ver se já posso ir a sua casa.
Fiquei imaginando quem daqueles tempos (sim, puro saudosismo, até ela que mal chegou já sente) quem daquela galera mais [...?] iria aparecer por aqui, como eu revivendo um lugar povoado de histórias. Quem tomaria um café ou dois ou três e me presentearia com pérolas das linguagens?
Ao mesmo tempo que me espanta a quantidade e a densidade de livro que se pode ler nessa vida, diverte-me o quanto se pode escrever e as coisas sobre as quais se escreve dessa vida.
Acho que estou tendo uma reação alérgica. Não param de surgir pontos avermelhados pelo meu corpo, incham e coçam como mordidas de pulga. Lembro do momento em que surgem as duas primeiras.
Empolguei na fala de maneira tão comovente que meus companheiros de mesa explodiram em gargalhadas. Eu de olhos arregalados, todos comungando diante de muros brancos e aí coçam-me duas bolotas. Falava sobre algo que não tem controle.
Olha, eu já tentei escrever histórias e não consegui. Em mim a história se dá na boca porque o ritmo da escrita é outro, é esse caminho desencaminhado. Tudo bem, também não entendi o que isso quer dizer precisamente.
Relógio, relíquia, olho o relógio e tenho mesmo que treinar a leitura dos ponteiros. Chego a olhar às vezes, até prolongadamente, e me perder no desenho dos minutos e das horas ou ficar hipnotizada pelos segundos, sendo que deixo o beijo no relógio sem saber das horas. Esqueço-as tão espontaneamente. Porém, são elas, as horas, as minhas ninfas disfarçadas e serelepes banhando-me de caraminholas.
É o terceiro e último café. Um e cinqüenta. A garçonete olha para mim rindo ‘Gosta, né?’. Gosto, moça. Pensei rapidamente em dizer: ‘café para dar inspiração’. Café fresco, meus namoros, teu dedo no meu dente, teus dentes na minha língua. Ela me falou das gotas, me falou dos sonhos, do café.
Por que mesmo comecei a escrever esse texto? Você se lembra?
Ah! Esqueça! O caminho está límpido e vasto como um céu; há uma estrada prenhe e longa onde nos vêem seguir. Te encontro no caminho de casa, deliro te encontrar pelas ruas, é tão acidental. Você me adora quando é acidental. Obrigada, estou indo tomar alguma coisa e fumar um cigarro na sua casa.
Eu sei que ela gosta de mim, talvez pela música que lhe fiz. Acho que ela gosta do jeito que eu preparo as coisas que ela não come. Eu gosto do jeito que ela entende.
Lavava o rosto, eu. Água gelada até o limite dos cabelos. Caradas nas mãos cheias d’água. Delícia. Vejo a luz do sol entrando pela janela, espalhando-se na tampa branca do vaso. O peito aliviou, respirou todo contente, vi no espelho.
Continue a nadar, ela diz, continue a nadar. Amasse a massa, separe-a, enrole-a, junte-a, corte-a, amasse-a... e sobretudo, continue a nadar.
Leitor caro, não me diga que isso que escrevo é auto-ajuda. Leitor raro, cuide de imaginar, não me amole com respostas.
Caneta nova caderneta, convida a café nos fundos dessa espelunca que tem alma de velha, butiquim, pardieiro, substrato poético. Tentam mudá-la, refiná-la,limpá-la, nivelá-la, mas sua arquitetura delata (para mim que a conheci antes da reforma).
Terei eu achado mais uma vez que matando a saudade, nesse caso sentando nesse banco e nessa mesa, terei eu achado mais uma vez que um surto de inspiração justificaria a ânsia, a fome?
A pior coisa é sentar de frente para o banheiro. Explicaria porque mas estou evitando a fadiga. Atende-me. Attendez-moi.
O que eu faço com tanta velocidade? As cores, os rostos, os sentidos, os sentimentos, os quases, as pausas, as vontades, as lembranças, os cheiros, as visões, as conversas, os sabores, os saberes. Parece que alimento uma bomba cuja dimensão do estrago eu não conheço. Pus até um relógio relíquia de família no pulso para a contagem regressiva.
Ah! Quando digo sentidos não são os bons e velhos cinco, são as anti-sacações.
Por que sentar aqui e escrever essas coisas, por que querer que você me leia? Eu não quero falar de você, estou aqui sozinha e não quero falar de você. Não estou olhando as horas no relógio automático para ver se já posso ir a sua casa.
Fiquei imaginando quem daqueles tempos (sim, puro saudosismo, até ela que mal chegou já sente) quem daquela galera mais [...?] iria aparecer por aqui, como eu revivendo um lugar povoado de histórias. Quem tomaria um café ou dois ou três e me presentearia com pérolas das linguagens?
Ao mesmo tempo que me espanta a quantidade e a densidade de livro que se pode ler nessa vida, diverte-me o quanto se pode escrever e as coisas sobre as quais se escreve dessa vida.
Acho que estou tendo uma reação alérgica. Não param de surgir pontos avermelhados pelo meu corpo, incham e coçam como mordidas de pulga. Lembro do momento em que surgem as duas primeiras.
Empolguei na fala de maneira tão comovente que meus companheiros de mesa explodiram em gargalhadas. Eu de olhos arregalados, todos comungando diante de muros brancos e aí coçam-me duas bolotas. Falava sobre algo que não tem controle.
Olha, eu já tentei escrever histórias e não consegui. Em mim a história se dá na boca porque o ritmo da escrita é outro, é esse caminho desencaminhado. Tudo bem, também não entendi o que isso quer dizer precisamente.
Relógio, relíquia, olho o relógio e tenho mesmo que treinar a leitura dos ponteiros. Chego a olhar às vezes, até prolongadamente, e me perder no desenho dos minutos e das horas ou ficar hipnotizada pelos segundos, sendo que deixo o beijo no relógio sem saber das horas. Esqueço-as tão espontaneamente. Porém, são elas, as horas, as minhas ninfas disfarçadas e serelepes banhando-me de caraminholas.
É o terceiro e último café. Um e cinqüenta. A garçonete olha para mim rindo ‘Gosta, né?’. Gosto, moça. Pensei rapidamente em dizer: ‘café para dar inspiração’. Café fresco, meus namoros, teu dedo no meu dente, teus dentes na minha língua. Ela me falou das gotas, me falou dos sonhos, do café.
Por que mesmo comecei a escrever esse texto? Você se lembra?
Ah! Esqueça! O caminho está límpido e vasto como um céu; há uma estrada prenhe e longa onde nos vêem seguir. Te encontro no caminho de casa, deliro te encontrar pelas ruas, é tão acidental. Você me adora quando é acidental. Obrigada, estou indo tomar alguma coisa e fumar um cigarro na sua casa.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Série Cartas - Ditos de uma boca carmim
Na primeira carta que lhe escrevi, lembro-me de ter pedido que não se espantasse caso um dia, de repente, eu lhe remetesse ainda mais uma carta. Ah sim, eu já mandei outra, a ‘mais uma’. Todas as outras que escrevi, guardei, não tive mais coragem de te enviar outras cartas, mas elas existiram e são todas suas. Esta aqui está no impasse e por ora, penso em metê-la num envelope e lançá-la a você. Sei que não seria muito prudente que eu o fizesse, mas é quase irresistível. Aqui, na minha imaginação, você já tem essa carta na mão.
De qualquer maneira, sinto como se tivesse fôlego para escrever-lhe mil folhas à mão, tanto eu teria para te dizer, tanto eu tenho de amar você. As coisas que você me traz, ah meu anjo, essas coisas me deixam saber que amá-lo é aprender. E como dói.
Dor pula a janela me invade os pulmões e me levanta da cadeira do meu quarto roendo as unhas e gemendo, inquieta, com vontade de largar tudo, o orgulho, a força, o sorrisinho na cara e ir até sua casa, bater na sua porta e pular no teu peito e aninhar-me manhosa, carente cheia de touch e palavras de pura apaixonada. Mas não, pois agora me parece que você está de novo comigo, mesmo assim, a uma distância segura, parece que se aproxima à medida que percebe como posso me controlar e que não vou te matar e te embalsamar... hahaha...
Nessa angústia lancinante, vozes me perturbam os pensamentos e saio já de madrugada. Caminho quase tranqüila na rua, onde me sinto mais segura à mercê de acasos, de fantasias, de surpresas que me façam esquecer de você. A embriaguez torna-se soberana, palavra de ordem. E vendo meu corpo nessa noite, meu querido, vendo-o barato, deixo que seja mastigado e esfolado, sinto-me viva e sinto-me sem dono, sem ser sua, sem ser de ninguém, possuída pela poesia amoral da minha saudade de você. Sabia que pensei seriamente haver te esquecido? Cheguei a estranhar teu rosto naquela última conversa amigável que tivemos. Sobretudo quis mostrar-te isso, que não te amo mais. Ou melhor, que não te quero mais, você pensaria, já que eu nunca disse que te amo.
Enquanto qualquer outro homem digeria meu corpo, acendi a luz da cozinha e me pus a escrever o que seria essa carta aqui, que te pensei em mandar, depois de tanto tempo, de tanta corrida contra o tempo de te amar. Achei quatro rascunhos, pois eu me lembro, quase não conseguia escrever; num deles minha letra tornou-se rabiscos, não sei o que estava te dizendo ali, estou tentando ler...
Rascunho Um
‘Meu querido,
Como me pode ser ainda assim tão querido... Mas não vês que o teu nada fazer me é tudo? Que tua mão [...?] me é a maior prova de amor? Entendes, não é amor por mim, mas amor como é em você. Já interferiste[?] e vejo agora que acreditei nessa coisa que quero tão [...?]. Por favor, e pela primeira vez te peço sinceramente [...?] amor[?], me ouve distorcendo o que sinto, não vai ajudar, vive-me. Desculpe-me este querer que não sei dar-te [?] [...?]. Menti quando disse que não escrevia há muito.’
Troco de folha.
Rascunho Dois
‘Meu querido,
Quereria eu não te querer. Esse tanto te querer que me acontece, mais que fatos, quereria eu te dizer o quanto, mas não posso. Desculpe-me por tantos quereres.’
[...] Arranco a folha do bloco.
Rascunho Três
‘Meu querido,
Quereria eu não querer-te. Mas devo culpar-me por esse tanto que te quero?’
[...] Arranco a folha do bloco.
Rascunho Quatro
‘Meu querido,
Quereria eu não te querer. Esse tanto te querer que me acontece, mais que fatos, quereria eu te dizer, mas não posso. Desculpe-me por tantos quereres.
Fucking shit você diz e eu entendo. Digo o mesmo. Se eu apenas lhe puder dizer ‘estou indo’. Se pudesse dizer ‘eu entendo’, se pudesse dizer o quanto entendo, o quanto compartilho... Escolhi a letra ilegível porque quero te mostrar que é verdade nessa louca madrugada o quanto te quero amar e só posso com você.
Vem ser meu amigo, pára de fingir que não há nada. Larga mão de me resistir. Quero te abraçar, quero teus segredos.’
Percebes o teor dessa carta? As palavras repetidas, que encontras também nas demais cartas? Bordo minhas palavras nas folhas porque sei que se não, te sufoco. E tenho estado tão serelepe, tão cheia de novidades. Só não perdi a mania de correr para te contar tudo. Quero te ser interessante, menina boba! Não consigo te maltratar como maltrato a outros nos meus suculentos momentos sádicos. Ao contrário, quero ajoelhar-me na tua frente e abraçar você inteiro e sentado na posição em que me apaixono por você, os antebraços nus, as pernas azuis, o tênis bonito.
Da próxima vez que te ver, quero um encontro romântico e você todo sorridente, todo para mim, sem a chave da sua casa. Por que você não a perde? Sei, sei como é difícil perder. Da mesma forma como é assustador perder-se, caminhar rumo ao muro de frio das noites de Ouro Preto, a serração branca e avermelhada e alaranjada e rósea e azulada e molhada e fria. O que os teus ouvidos ouvem agora é a voz de uma outra mulher que te prende a atenção, quiçá ela apenas te distraia, ou te faça pensar em tentar mais uma vez, ou nada, nada demais.
Teu dedo no meu dente, assim, tua mão na minha boca. Teu vácuo, teu sorriso, os dentes teus. A folha que assinei com amor e com sangue e sigo teu conselho: tenho cuidado com a imaginação. Mas estar em estado de graça desde você; quando ouvi isso entendi que sentia o mesmo que o autor dessas palavras. Você é meu alívio imediato, minha droga pesada, meu orgasmo, minha entidade idolatrável. Teu dedo no meu dente, assim, cada segundo feliz com você, selando a promessa sussurrada de amor eterno, de amor enquanto durar e agora mesmo é para sempre. É o preço que pago por cada palavra que escrevo, cada música no meu violão, cada pincelada na tinta, cada agulhada no tecido, cada boca que beijo, cada lugar que visito, cada tapa na cara. Teu dedo no meu dente, assim, meu dedo no meu dente, de olhos fechados, rindo, rindo muito de quase chorar, pensando em você, desejando muito lindo nossos abraços e afetos, brincando de te namorar menino, tão leve brincalhão, sem medo do que vem depois, misturando as memórias breves e as longas fantasias, eu bonita no teu olho, iluminados os dois, mesmo que por um sonho.
Daqui a muito tempo, vou lembrar teu nome, teu rosto, e tudo estará tão longe que talvez não doa. Hoje mesmo quase não dói, e trago à luz o primeiro poema que fiz para você acreditando nele como se o tivesse acabado de escrever, porque eu sabia que você era muito tempo, de outro tempo, de outro jeito, que não passaria despercebido, que não seria daqueles que se esquece sem uma boa soma de esforços risonhos e chorosos.
Espero que ainda esteja usando barba. Você fica muito bem. Eu estou deixando os cabelos crescerem ondas de chocolate e não corto mais até que teus belos dedos os desbravem sem pressa. Meu bem, a essa altura, já desisti de te mandar essa carta. Talvez você me ouça dizer tudo isso em algum lugar da sua vida, de um lado ou outro, se você procurar atentamente... vou sumir só para continuar ali, no cantinho, travessa a te espiar com os olhinhos brilhando...
Comigo está tudo bem, entendi que tenho forças de te amar em absoluto segredo. Um beijo.
De qualquer maneira, sinto como se tivesse fôlego para escrever-lhe mil folhas à mão, tanto eu teria para te dizer, tanto eu tenho de amar você. As coisas que você me traz, ah meu anjo, essas coisas me deixam saber que amá-lo é aprender. E como dói.
Dor pula a janela me invade os pulmões e me levanta da cadeira do meu quarto roendo as unhas e gemendo, inquieta, com vontade de largar tudo, o orgulho, a força, o sorrisinho na cara e ir até sua casa, bater na sua porta e pular no teu peito e aninhar-me manhosa, carente cheia de touch e palavras de pura apaixonada. Mas não, pois agora me parece que você está de novo comigo, mesmo assim, a uma distância segura, parece que se aproxima à medida que percebe como posso me controlar e que não vou te matar e te embalsamar... hahaha...
Nessa angústia lancinante, vozes me perturbam os pensamentos e saio já de madrugada. Caminho quase tranqüila na rua, onde me sinto mais segura à mercê de acasos, de fantasias, de surpresas que me façam esquecer de você. A embriaguez torna-se soberana, palavra de ordem. E vendo meu corpo nessa noite, meu querido, vendo-o barato, deixo que seja mastigado e esfolado, sinto-me viva e sinto-me sem dono, sem ser sua, sem ser de ninguém, possuída pela poesia amoral da minha saudade de você. Sabia que pensei seriamente haver te esquecido? Cheguei a estranhar teu rosto naquela última conversa amigável que tivemos. Sobretudo quis mostrar-te isso, que não te amo mais. Ou melhor, que não te quero mais, você pensaria, já que eu nunca disse que te amo.
Enquanto qualquer outro homem digeria meu corpo, acendi a luz da cozinha e me pus a escrever o que seria essa carta aqui, que te pensei em mandar, depois de tanto tempo, de tanta corrida contra o tempo de te amar. Achei quatro rascunhos, pois eu me lembro, quase não conseguia escrever; num deles minha letra tornou-se rabiscos, não sei o que estava te dizendo ali, estou tentando ler...
Rascunho Um
‘Meu querido,
Como me pode ser ainda assim tão querido... Mas não vês que o teu nada fazer me é tudo? Que tua mão [...?] me é a maior prova de amor? Entendes, não é amor por mim, mas amor como é em você. Já interferiste[?] e vejo agora que acreditei nessa coisa que quero tão [...?]. Por favor, e pela primeira vez te peço sinceramente [...?] amor[?], me ouve distorcendo o que sinto, não vai ajudar, vive-me. Desculpe-me este querer que não sei dar-te [?] [...?]. Menti quando disse que não escrevia há muito.’
Troco de folha.
Rascunho Dois
‘Meu querido,
Quereria eu não te querer. Esse tanto te querer que me acontece, mais que fatos, quereria eu te dizer o quanto, mas não posso. Desculpe-me por tantos quereres.’
[...] Arranco a folha do bloco.
Rascunho Três
‘Meu querido,
Quereria eu não querer-te. Mas devo culpar-me por esse tanto que te quero?’
[...] Arranco a folha do bloco.
Rascunho Quatro
‘Meu querido,
Quereria eu não te querer. Esse tanto te querer que me acontece, mais que fatos, quereria eu te dizer, mas não posso. Desculpe-me por tantos quereres.
Fucking shit você diz e eu entendo. Digo o mesmo. Se eu apenas lhe puder dizer ‘estou indo’. Se pudesse dizer ‘eu entendo’, se pudesse dizer o quanto entendo, o quanto compartilho... Escolhi a letra ilegível porque quero te mostrar que é verdade nessa louca madrugada o quanto te quero amar e só posso com você.
Vem ser meu amigo, pára de fingir que não há nada. Larga mão de me resistir. Quero te abraçar, quero teus segredos.’
Percebes o teor dessa carta? As palavras repetidas, que encontras também nas demais cartas? Bordo minhas palavras nas folhas porque sei que se não, te sufoco. E tenho estado tão serelepe, tão cheia de novidades. Só não perdi a mania de correr para te contar tudo. Quero te ser interessante, menina boba! Não consigo te maltratar como maltrato a outros nos meus suculentos momentos sádicos. Ao contrário, quero ajoelhar-me na tua frente e abraçar você inteiro e sentado na posição em que me apaixono por você, os antebraços nus, as pernas azuis, o tênis bonito.
Da próxima vez que te ver, quero um encontro romântico e você todo sorridente, todo para mim, sem a chave da sua casa. Por que você não a perde? Sei, sei como é difícil perder. Da mesma forma como é assustador perder-se, caminhar rumo ao muro de frio das noites de Ouro Preto, a serração branca e avermelhada e alaranjada e rósea e azulada e molhada e fria. O que os teus ouvidos ouvem agora é a voz de uma outra mulher que te prende a atenção, quiçá ela apenas te distraia, ou te faça pensar em tentar mais uma vez, ou nada, nada demais.
Teu dedo no meu dente, assim, tua mão na minha boca. Teu vácuo, teu sorriso, os dentes teus. A folha que assinei com amor e com sangue e sigo teu conselho: tenho cuidado com a imaginação. Mas estar em estado de graça desde você; quando ouvi isso entendi que sentia o mesmo que o autor dessas palavras. Você é meu alívio imediato, minha droga pesada, meu orgasmo, minha entidade idolatrável. Teu dedo no meu dente, assim, cada segundo feliz com você, selando a promessa sussurrada de amor eterno, de amor enquanto durar e agora mesmo é para sempre. É o preço que pago por cada palavra que escrevo, cada música no meu violão, cada pincelada na tinta, cada agulhada no tecido, cada boca que beijo, cada lugar que visito, cada tapa na cara. Teu dedo no meu dente, assim, meu dedo no meu dente, de olhos fechados, rindo, rindo muito de quase chorar, pensando em você, desejando muito lindo nossos abraços e afetos, brincando de te namorar menino, tão leve brincalhão, sem medo do que vem depois, misturando as memórias breves e as longas fantasias, eu bonita no teu olho, iluminados os dois, mesmo que por um sonho.
Daqui a muito tempo, vou lembrar teu nome, teu rosto, e tudo estará tão longe que talvez não doa. Hoje mesmo quase não dói, e trago à luz o primeiro poema que fiz para você acreditando nele como se o tivesse acabado de escrever, porque eu sabia que você era muito tempo, de outro tempo, de outro jeito, que não passaria despercebido, que não seria daqueles que se esquece sem uma boa soma de esforços risonhos e chorosos.
Espero que ainda esteja usando barba. Você fica muito bem. Eu estou deixando os cabelos crescerem ondas de chocolate e não corto mais até que teus belos dedos os desbravem sem pressa. Meu bem, a essa altura, já desisti de te mandar essa carta. Talvez você me ouça dizer tudo isso em algum lugar da sua vida, de um lado ou outro, se você procurar atentamente... vou sumir só para continuar ali, no cantinho, travessa a te espiar com os olhinhos brilhando...
Comigo está tudo bem, entendi que tenho forças de te amar em absoluto segredo. Um beijo.
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Série Cartas - Carta para um dia
Oh, como é generosa a terra. Deixa que eu deite minha cabeça sobre seu travesseiro de grama, montinho fofo esperando meu corpo repousar. Travesseiros sob todo o corpo e por cima o sol. Para o sol não há olhos fechados, ele queima as córneas enquanto vemos os mais intensos vermelhos, grande maravilha dos efeitos. E ao levantar fugida do calor insuportável, corro dentro de um mundo azul, azul de contrastes e assim vejo tudo em tons de azul.
Você sabe o quanto custa tudo isso? O quanto custa sair da bolha? E sabe o valor de olhar para o lado e ver alguém que com olhos cúmplices faz o mesmo? Sabe o que significa ser assim? Quando eu fumo este cigarro e ainda te amo. De novo... voltei a dizer que te amo. Acabo de me dar conta, a muito pouco do quanto minhas palavras se extrapolam tentando encobrir isso de amar. Sempre no esforço de não usar a palavra amor e sim de dissolvê-la.
Meu querido, você já virou tantos outros e todos os dias... ainda te olho com ternura e te quero os beijos e nada mais. Ainda te ouço chegar. E se agora me tranco e te ofendo aqui onde você não pode ouvir,é porque quero me aprontar para ser um elástico capaz de te alcançar. Naquele rascunho era o que eu te dizia que te amo e que queria aprender com você a amar outro amor. Eu talvez tenha fracassado na imprecisão das palavras, mas principalmente, não pude perceber antes de tudo acabar, o meu atuar amante livre de discursos, livre de manias. Eu sei que não preciso pedir-te desculpas por isso o faço para que talvez entendas que reconheço. Todavia, sei que não me cabe tentar voltar e sim ir, ir-me para quando for. É que ao te olhar me vem o luto de não ter podido viver-te mais. Mas vives, isso me deve bastar.
A amoreira pende frutas das suas mãos generosas e estou lá sob sua copa a me esbaldar. Oferece-me as frutas maduras e oferece-me também o azedume da pressa, sou eu que escolho as frutas.
Escondi teu nome e não consigo mais achar. Contudo, sei que não posso mais ficar perto de você e é assim que você me faz correr, me faz viajar, me encoraja a me lançar para outros braços, outros acasos. Nisso, te agradeço e te amo, no resto prefiro deixar de pensar. E você sabe o quanto isso custa?
Ameniza o peso das minhas palavras, faz delas flores ao vento. Venha um dia, sim. Por favor. Sob essa neblina, sob essa solidão, sob essa rachadura. Venha sim. Deita no meu colo pronto pro teu corpo repousar e me entrega teus cabelos e tuas mãos. Ouve as músicas que ponho a tocar.
Sigo querendo ver-te ou seguro-me?
Você sabe o quanto custa tudo isso? O quanto custa sair da bolha? E sabe o valor de olhar para o lado e ver alguém que com olhos cúmplices faz o mesmo? Sabe o que significa ser assim? Quando eu fumo este cigarro e ainda te amo. De novo... voltei a dizer que te amo. Acabo de me dar conta, a muito pouco do quanto minhas palavras se extrapolam tentando encobrir isso de amar. Sempre no esforço de não usar a palavra amor e sim de dissolvê-la.
Meu querido, você já virou tantos outros e todos os dias... ainda te olho com ternura e te quero os beijos e nada mais. Ainda te ouço chegar. E se agora me tranco e te ofendo aqui onde você não pode ouvir,é porque quero me aprontar para ser um elástico capaz de te alcançar. Naquele rascunho era o que eu te dizia que te amo e que queria aprender com você a amar outro amor. Eu talvez tenha fracassado na imprecisão das palavras, mas principalmente, não pude perceber antes de tudo acabar, o meu atuar amante livre de discursos, livre de manias. Eu sei que não preciso pedir-te desculpas por isso o faço para que talvez entendas que reconheço. Todavia, sei que não me cabe tentar voltar e sim ir, ir-me para quando for. É que ao te olhar me vem o luto de não ter podido viver-te mais. Mas vives, isso me deve bastar.
A amoreira pende frutas das suas mãos generosas e estou lá sob sua copa a me esbaldar. Oferece-me as frutas maduras e oferece-me também o azedume da pressa, sou eu que escolho as frutas.
Escondi teu nome e não consigo mais achar. Contudo, sei que não posso mais ficar perto de você e é assim que você me faz correr, me faz viajar, me encoraja a me lançar para outros braços, outros acasos. Nisso, te agradeço e te amo, no resto prefiro deixar de pensar. E você sabe o quanto isso custa?
Ameniza o peso das minhas palavras, faz delas flores ao vento. Venha um dia, sim. Por favor. Sob essa neblina, sob essa solidão, sob essa rachadura. Venha sim. Deita no meu colo pronto pro teu corpo repousar e me entrega teus cabelos e tuas mãos. Ouve as músicas que ponho a tocar.
Sigo querendo ver-te ou seguro-me?
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Mais do mesmo
Morrerei pela boca mesmo que não por agora; mas morrerei de palavras tóxicas, pensamentos hidrogenados, atos açucarados de burrice refinada. Morrerei de palavras careadas, exalando odores alcoólicos, olhos vítreos fritos de catarata, cascata de misturas erradas. Morrerei porque o bafo da verdade não encobre a podridão do meu estômago lotado, das minhas fomes ocasionais e os fétidos restos nas galerias intestinais desse corpo deformado. Com meus vasos sanguíneos petrificados, o que me sai pela boca é derrame das coisas que eu invento; torrões de enxaqueca para as goladas de café a litro por hora. O que é, o que é: pele em frangalhos, vergonhas vermelhas putas, idéias gonorréicas, fixações bolorentas, medos ralo abaixo, sonhos inflamando espinhas na cara, cano de descarga? Não seja trouxa, não sou eu, é antes você no que me vê. Eureca! Tudo isso pra dar um peso a mais ao tricô da vida. Poderia dizer que a vida é linda, é bela, funcionaria quase da mesma forma, poderia crer nos sinais, nos acasos objetivos mas, fumando este cigarro, estou sem paciência para me debulhar em pieguices; estou deveras decepcionada com minha capacidade de não viver, com minha habilidade para a charlatanice e não se trata de ser feliz ou triste e sim dos olhos que bóiam, da boca que baba preguiçosas baboseiras aqui e acolá, roseiras secas com espinhos agudos cravados pelos pés com as mãos por entre eles metidas. A questão é cisto no meu útero, a dor da penetração da realidade no cérebro. Da maquinaria pesada onde jorrei minhas últimas investidas sobrou a fumaça e os ferros retorcidos no remorso lambe-lambe da ingênua. Essa vil, essa má companhia. E se o céu é hoje azul, tanto melhor que eu não chore e não ria, melhor ainda que saiba que tudo o que sempre quis não queria. Morrerei em pleno gozo de porco na roleta pingando óleo queimado na chapa. Morrerei conectada esperando alguém entrar na minha joça. Morrerei brincando de viver no dia-a-dia escuro do meu sopro inautêntico. Deverei passar antes da morte pelos vales vitimados pela ignorância e ser tragada pelo implacável fantástico do infinito. Vê como tento escapulir: lustrando com meus paninhos o espelho refletindo o absurdo das árvores que bailam ao vento, o som da água que segue seu curso, as nuvens que atravessam ligeiras o céu todo poderoso. E é tanta harmonia que meu seio palpita indignado e quereria eu ser verde e seria, se minhas articulações articulassem, se meu baço fosse um braço; palavra na face, palavra fácil tanto quanto ilegível; onde tudo se mistura e nada se conclui, eu de bordas dissolvidas sob o sol da compreensão ardida. Morrerei pela boca como morrem os flagelados: gritando em troca de um olhar de piedade, buscando alguém que não se cale. Agora que sou cego, o que seria de mim se não fosse o tédio onde abraço meu amigo eco? Agora que estou cego, o que será das palavras nas folhas do caderno? Agora rezo, para que troquem o papel higiênico pelos jornais e depois pelos dólares. Lugar de sentido é no lixo do banheiro onde morrerei sem ver que morri mais uma vez. Morrerei como minha mãe, morrerei baixinho; mas até lá, lá onde também não há receita, nem remédio, consumirei todas as esquisitices e zombarei das tentativas de quem me quiser ajudar com a minha cara de morto há muito. Nada disso me emociona e nada mais, mesmo que não por agora. Morrerei pela boca, engasgada com o vômito dos pudores fermentados e nojos indigestos. Morrerei casta e cínica, zonzo e pálido como sempre, sempre que retorna e escapa. Mas principalmente, morrerei sem dó.
Sempre quis dar um poema a alguém.
De simples vocábulos
sonhos sonhados
sem volta
Sonho que vira a esquina
perde-se no vício
revira-se em vontades
de simples quereres
sem por que sim
Por que não?
Nesse indo e vindo de ti
Agora
é para mim o céu aberto
e inferno
São apenas palavras... mas
Este, eu dou para você.
sonhos sonhados
sem volta
Sonho que vira a esquina
perde-se no vício
revira-se em vontades
de simples quereres
sem por que sim
Por que não?
Nesse indo e vindo de ti
Agora
é para mim o céu aberto
e inferno
São apenas palavras... mas
Este, eu dou para você.
2007
O que eu quero de você
é um amor maior do que o espaço debaixo da minha saia
onde o vento passa e entrelaça minhas pernas
é um amor maior do que o espaço debaixo da minha saia
onde o vento passa e entrelaça minhas pernas
vento voa leve o pensamento que
te corre ao pé do ouvido é a chuva
desce a rua pela vala o que eu falo de ti
sol de tarde de trás da nuvem
cinza uma vontade trovejando
é chuvisco de palavrada
menina bonita um vinilzinho
coisas de estudante com fome
numa campina verde em outro
estado
haja fôlego pra tanto corpo querendo
copo na boca na sede do beijo de
cerveja com sal e limão é bolo de cenoura
boceta gozando banguela no pau babando em
boca de moça
te corre ao pé do ouvido é a chuva
desce a rua pela vala o que eu falo de ti
sol de tarde de trás da nuvem
cinza uma vontade trovejando
é chuvisco de palavrada
menina bonita um vinilzinho
coisas de estudante com fome
numa campina verde em outro
estado
haja fôlego pra tanto corpo querendo
copo na boca na sede do beijo de
cerveja com sal e limão é bolo de cenoura
boceta gozando banguela no pau babando em
boca de moça
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