sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Recaída II: L'eroico coraggio di un feroce addio

Um vômito que chegou de madrugada

“Eu começo pelo que procuro. E já o digo de antemão, uma vez que não existe um antes e um depois disto. Eu procuro os vãos, o rejunte que se dá entre os azulejos, o fio de nada que está entre os dentes, o estrabismo que corta os olhos. O que me interessa não é isto ou aquilo, ou o que se detém em especificidades. Parece-me que existe um quê de poesia em toda essa imundice, nessa sujeira – que, todavia, não é feita senão de pó. Então eu me volto para você, para os seus vãos. Eu me volto para você e o que me dinamita esta aí, no ‘entrevão’ dos seus fios de cabelo; eu me volto para os seus ouvidos e me reencontro em sua nuca, mais inaudível que o silêncio. Eu procuro o não-encontro, o lapso dos olhares, o lapso dos beijos, o lapso dos lapsos, a nuance que separa o espaço do tempo, da vida e da morte, do preto e do branco. E quando você se apresenta como o diverso, tanto melhor, pois o que procuro se mostra, ainda que não se desvele. Eu jogo o meu desejo para esse inefável: eu, que ainda acredito que antes mesmo das palavras existe o sabor. Qual o sabor do inefável? O sabor do não-vivido, o sabor da morte, o sabor ele-mesmo, não palatável por esta língua, este músculo retorcido de histórias; língua convulsiva que dança como uma naja em minha boca, a sua prisão. Afinal, eu não digo nada que não se volte para esse mesmo nada. De fato eu me tornei, eu mesmo, um vão e não faço mais que procurar reencontrar o substrato que cole, em forma de poesia talvez, a minha própria inverdade, o espaço entre eu e eu mesmo, entre eu e você, entre você e você. E se lhe entrego esta carta, não o faço tanto pelas palavras, mas pelo tecido de nada que as une.”

T.R.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Recaída

Estou olhando atentamente as letras à minha frente. Procuro uma forma de dispor as palavras para contar os dias que passo, que ando, que erijo e deixo para trás. Letras que amontoadas em fonemas falem disso que me escapa e só me escapa.

Dia atrás, ainda sem entender o princípio ativo das minhas angústias tanto quanto da força que me brota um sorriso na face - este sorriso resignado dos perdedores que antes ganham açoites de força mental – chorei, chorei baixinho escondida na viagem de uma noite. Porém, é hoje onde acordo sorrindo, bradando meu still.

A viagem do dia que fui e cheguei de ônibus foi um desastre. Saltei no próximo ponto, depois que a chave caiu, quase caí eu na curva, esbarrei em pessoas com minha mochila. Mas isso tudo acontece de vez em quando e não teria sido tudo tão flagrante se eu não estivesse tão incomodada com aquele homem feio, com aquelas mãozinhas gordas de dedinhos de criança boiando nos gestos, ele com aqueles dentes horrendos mordendo o ar, aqueles cílios de mocinha. Tinha de pegar justamente o mesmo ônibus que eu. Paúra dele. Eu soube esquivar-me.

Ou seja, ando desviada. Mais do que minhas loucuras gastronômicas de dias sábado ou domingo, é minha necessidade de fome a minha droga. A despeito de qualquer filtro de cigarro e preocupações tão adultas, é no primeiro ônibus que vou. Vou receber amigos queridos na casa minha vou passar a noite acordada e concentrada em tantos nomes colados na história. Queria ouvir uma música, qual seria? A música do vento no ouvido, forte e branca me diz ‘sobe, sobe...’ vá, voe longe, na vida, na morte, no amor, no que quiser, pense pense.

Tantos textos quis escrever: na mente as frases vinham magnéticas até os olhos, até a boca, se crês, mas não às pontas dos dedos, pois estes, só podiam agora com as cordas, uma vez que superado o flerte com os pincéis sabe-se lá até quando. Tanta temperança, tanto vermelho e roxo, tanta subida dos morros uivantes dessa cidade, com seus sinos, seus mensageiros do vento, seus tapetes e a promessa da minha paixão silenciosa, preciosa como um cálido segredo de menina, o mais puro sonho e a mais tênue segurança de estar vivo.

Eu posso acabar; foi aqui que não parei, foi o ponto que pulei. Nas noites outras, quem se cala sou eu, com as outras pessoas. Inevitável, elas nos vêem e nos vêem departed, um do outro.

Há quase um mês, é minha jogada. Who’s the tough Guy? Who is it? I am the tough guy. Quero me enroscar em sorrisos, em pensamentos suculentos, sustentar-me leve, levar-me da neve, ascender, esquecer e novamente sorrir. Lavar a boca da saudade que me cobre de olhar ao longe. Da recaída que hoje já me foi, sobrou apenas esta spruch:

Guten Morgen, Sonnenschein...

domingo, 12 de setembro de 2010

Sprich auch du,
sprich als letzter,
sag deinen Spruch.

Sprich –
Doch scheide das Nein nicht vom Ja.
Gib deinem Spruch auch den Sinn:
gib ihm den Schatten.

Gib ihm Schatten genug,
gib ihm so viel,
als du um dich verteilt weißt zwischen
Mittnacht und Mittag und Mittnacht.

Blicke umher:
sieh, wie's lebendig wird rings –
Beim Tode! Lebendig!
Wahr spricht, wer Schatten spricht.

Nun aber schrumpft der Ort, wo du stehst:
Wohin jetzt, Schattenentblößter, wohin?

Steige. Taste empor.
Dünner wirst du, unkenntlicher, feiner!
Feiner: ein Faden,
an dem er herabwill, der Stern:
um unten zu schwimmen, unten,
wo er sich schimmern sieht: in der Dünung
wandernder Worte.

P.C.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Grandes Mestres...

Me gustas cuando callas porque estás como ausente,
y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.
Parece que los ojos se te hubieran volado
y parece que un beso te cerrara la boca.

Como todas las cosas están llenas de mi alma
emerges de las cosas, llena del alma mía.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
y te pareces a la palabra melancolía.

Me gustas cuando callas y estás como distante.
Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
déjame que me calle con el silencio tuyo.

Déjame que te hable también con tu silencio
claro como una lámpara, simple como un anillo.
Eres como la noche, callada y constelada.
Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.

Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto.

P.N.

Le Confiteor de L'artiste

Que les fins de journées d'automne sont pénétrantes ! Ah ! pénétrantes jusqu'à la douleur ! car il est de certaines sensations délicieuses dont le vague n'exclut pas l'intensité ; et il n'est pas de pointe plus acérée que celle de l'Infini.
Grand délice que celui de noyer son regard dans l'immensité du ciel et de la mer ! Solitude, silence, incomparable chasteté de l'azur ! une petite voile frissonnante à l'horizon, et qui par sa petitesse et son isolement imite mon irrémédiable existence, mélodie monotone de la houle, toutes ces choses pensent par moi, ou je pense par elles (car dans la grandeur de la rêverie, le moi se perd vite !) ; elles pensent, dis-je, mais musicalement et pittoresquement, sans arguties, sans syllogismes, sans déductions.
Toutefois, ces pensées, qu'elles sortent de moi ou s'élancent des choses, deviennent bientôt trop intenses. L'énergie dans la volupté crée un malaise et une souffrance positive. Mes nerfs trop tendus ne donnent plus que des vibrations criardes et douloureuses.
Et maintenant la profondeur du ciel me consterne ; sa limpidité m'exaspère. L'insensibilité de la mer, l'immuabilité du spectacle me révoltent... Ah ! faut-il éternellement souffrir, ou fuir éternellement le beau ? Nature, enchanteresse sans pitié, rivale toujours victorieuse, laisse-moi ! Cesse de tenter mes désirs et mon orgueil ! L'étude du beau est un duel où l'artiste crie de frayeur avant d'être vaincu.

C.B.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Caso Perdido

Hoje, vou começar assim:

Estive pilar demais. Cedo ou tarde ruiria. Nas linhas que andei escrevendo, uma maturidade lacônica faz-se véu encobrindo um mar revolto-revoltíssimo azul marinho na noite mais que negra. Água mole em pedra dura. Cedo ou tarde ruiria. Simplesmente às vezes penso que não vou continuar e simplesmente continuo não pensando ou pensando demais no que não deveria sendo que não deveria pensar em dever ou sequer continuar devendo. Quando sou assim tão pilar as frases me são curtas e claras, a dor que as precede ou acompanha, não sei bem, já saiu de seu estado sólido para um gás de memória, avizinhando o entendimento, a compreensão. E assim tão pilar, sustento meu mundo, garanto a ordem cósmica da minha falta de respostas, iludo-me onde tudo se encaixa. Estou ... nenhuma imagem me vem a cabeça para explicar, por onde passo os olhos o choque de nunca tocar nada é tão violento, perco-me, perco tudo, perco todos, perco o rumo. Minhas mãos atravessam as paredes, e do pilar só me sobra o espectro. De repente eu poderia perfeitamente não existir e me pergunto que tipo de pensamento é esse que se pode ter. Ou ser. As palavras me proíbem de dizê-las porque tenho medo, de mais uma vez, mais um osso deixado para trás, espatifar as palavras no nada, esse, que nos enlaça. E agora, como toda hora, exercito a verdade em mim mesma, admito, assumo, visto minha camisa, faço campanha de mim para mim mesma, abstenho-me de me reprimir, de me recalcar, seja qual for a expressão, mas é no giro, é na volta, ou, é no ir, que é 'dilacerar'. Que me põe pirracenta, de olhos chorosos, querendo me adiantar, perguntar duma vez e falar também, porém, antes eu não tivesse já caído, antes eu soubesse esquecer, antes eu não me roubasse todo o tempo em nome dos meus pares, todos eles tão loucos quanto eu. Eu não quero nada com nada.

O dia em que perdi a hora



INDEPENDÊNCIA OU MORTE!

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Desejos são Buracos Negros

Deitada sobre o ombro do pai, ela, a criança revela no olhar o desejo de chupar a chupeta e regalar-se no afago. De chofre espevita-se como desejo de cair do colo e fala como pode do cão que passa. O desejo é o cão. Abre a roda o desejo dançando no bico do carcará, o desejo pega-pega, mata-mata e come-come. O desejo quer possuir, quer banhar devagar, brincando assim, o desejo estica e puxa o chiclete na mão da criança. Desejo volta para a boca.
Desejo que te quer aparecer, o desejo parece você. Desejo de correr os dedos nas teclas e desenhar você. Desejo que move passos, marca o tempo da minha tormenta, fermento na massa do bolo que assa. Desejo que fala sozinho. Anda sozinho. Dança sozinho. Desejo vê chegar e sente o cheiro. Toma nota de palavras como pode.
Na ida quase me passou despercebido aquele enorme representante da espécie esperança. Esperança robusta, aquela verde. Na volta tocava uma banda que marchei, militando minha saudade, sorrindo de desejo. Desejo de amanhã deseja agora mesmo. Desejo instrumento de cordas e percussão, chichicadum no coração. Golpes de desejo multiplicam e rodopiam o eixo, emudecem o texto que fala como pode. Desejo a terra que suga o sangue. Portal aberto é o desejo. É você que veio.

domingo, 5 de setembro de 2010

Astigmatismo sexual

Nos últimos dias senti que enfim farejava a trilha da nova inspiração. Senti que meus olhos conseguiam finalmente perceber outros pontos de luz além da lua no céu noir. Porque essa lua rege minhas marés, ora me zomba, ora me enfeitiça, exibe-se para mim, e depois, depois se esconde, me deixa a procurar seu contorno.

Óculos para ver que as estrelas são muitas e que suas luzes são bastante singulares - tão menos difusas do que tenta me convencer a deficiência visual – e que também essas estrelas encontram-se comigo em alinhamento.

Pois bem. Deixei-me levar por uma estrela, permiti que seus raios se lançassem sobre mim com lascívia e quis mesmo inundar-me de seu brilho. Marquei sua posição no céu para voltar a ter com ela, e voltei. Tal qual a primeira vez em que a vi, admirei longamente seu brilho e aos poucos fui caminhando de encontro a ela, dando voltas até que lhe ouvisse os sons. O calor provocado por uma estrela, o leitor deve imaginar, derrete a vela dos pudores, e assim, enfiei-me a sorver com a língua todo raio de luz que de seu centro vinha para abalar a calma das minhas terras cercadas. Queimei-me e queria-o, porém era como se tivesse esquecido que queimar-se dói. Tinha me esquecido das bolhas morais da queimadura de terceiro grau. E terceiro grau? Talvez grau maior, grau de distância, esqueci que uma estrela não se pode tocar. Não eu com minhas cólicas intelectuais, com meus cistos traumáticos e com meus ideais solares e sonhos lunáticos. Essas estrelas continuam lá longe pregadas no céu aguardando a própria morte tão alheias a mim quanto eu a elas, mas são belas. Estrela da minha vida, talvez o sol, mas este sim, este me mata. Amarelo esmagador do meu corpo prometido.

Enquanto o sol não vem e as estrelas me chateiam e me borram a excitação, a lua continua soberana no redondo de seu conteúdo obscuro tão astro no céu como um rei. Porque o sol a veste dama da noite de deserto sem limite de areias brancas; no clarão dela fechei os olhos convictos da inutilidade das lentes e certo choro de cratera me escorreu pesadamente pelos cílios em contemplação assombrosa às goteiras de conformidade ao que não tem nome e é tão simplesmente abismal.

Tanto melhor se amanhã é dia e minhas vontades pulsarão em melanina sob o sol lembrando-me que toda noite tem um fim no pôr da lua. As estrelas rasgos-lá-no-céu são para os navegantes e os amantes de primeira viagem, e eu, estou evaporando no lusco-fusco da razão, entre a virilidade do sol que toca como sequer se pode suportar e a lua que me usa os olhos de títeres sobre si provocando as mais remotas fantasias dos beijos cravados em seu lado negro sem tempestades.


No presente texto o remorso oculta-se sob a face dos adjetivos de minha juventude, de minha casta ignorância. Debalde sufoco-a por minha pieguice poética e te quero, lua, emerges ainda imaculada de toda lúgubre perversão. E que me perdoem as estrelas por meu querer sádico em tomá-las. Apenas arrisco-me para arruiná-las, convertê-las em meus buracos negros, doce na boca minha de palavras ingratas.