Um vômito que chegou de madrugada
“Eu começo pelo que procuro. E já o digo de antemão, uma vez que não existe um antes e um depois disto. Eu procuro os vãos, o rejunte que se dá entre os azulejos, o fio de nada que está entre os dentes, o estrabismo que corta os olhos. O que me interessa não é isto ou aquilo, ou o que se detém em especificidades. Parece-me que existe um quê de poesia em toda essa imundice, nessa sujeira – que, todavia, não é feita senão de pó. Então eu me volto para você, para os seus vãos. Eu me volto para você e o que me dinamita esta aí, no ‘entrevão’ dos seus fios de cabelo; eu me volto para os seus ouvidos e me reencontro em sua nuca, mais inaudível que o silêncio. Eu procuro o não-encontro, o lapso dos olhares, o lapso dos beijos, o lapso dos lapsos, a nuance que separa o espaço do tempo, da vida e da morte, do preto e do branco. E quando você se apresenta como o diverso, tanto melhor, pois o que procuro se mostra, ainda que não se desvele. Eu jogo o meu desejo para esse inefável: eu, que ainda acredito que antes mesmo das palavras existe o sabor. Qual o sabor do inefável? O sabor do não-vivido, o sabor da morte, o sabor ele-mesmo, não palatável por esta língua, este músculo retorcido de histórias; língua convulsiva que dança como uma naja em minha boca, a sua prisão. Afinal, eu não digo nada que não se volte para esse mesmo nada. De fato eu me tornei, eu mesmo, um vão e não faço mais que procurar reencontrar o substrato que cole, em forma de poesia talvez, a minha própria inverdade, o espaço entre eu e eu mesmo, entre eu e você, entre você e você. E se lhe entrego esta carta, não o faço tanto pelas palavras, mas pelo tecido de nada que as une.”
T.R.
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