domingo, 5 de setembro de 2010

Astigmatismo sexual

Nos últimos dias senti que enfim farejava a trilha da nova inspiração. Senti que meus olhos conseguiam finalmente perceber outros pontos de luz além da lua no céu noir. Porque essa lua rege minhas marés, ora me zomba, ora me enfeitiça, exibe-se para mim, e depois, depois se esconde, me deixa a procurar seu contorno.

Óculos para ver que as estrelas são muitas e que suas luzes são bastante singulares - tão menos difusas do que tenta me convencer a deficiência visual – e que também essas estrelas encontram-se comigo em alinhamento.

Pois bem. Deixei-me levar por uma estrela, permiti que seus raios se lançassem sobre mim com lascívia e quis mesmo inundar-me de seu brilho. Marquei sua posição no céu para voltar a ter com ela, e voltei. Tal qual a primeira vez em que a vi, admirei longamente seu brilho e aos poucos fui caminhando de encontro a ela, dando voltas até que lhe ouvisse os sons. O calor provocado por uma estrela, o leitor deve imaginar, derrete a vela dos pudores, e assim, enfiei-me a sorver com a língua todo raio de luz que de seu centro vinha para abalar a calma das minhas terras cercadas. Queimei-me e queria-o, porém era como se tivesse esquecido que queimar-se dói. Tinha me esquecido das bolhas morais da queimadura de terceiro grau. E terceiro grau? Talvez grau maior, grau de distância, esqueci que uma estrela não se pode tocar. Não eu com minhas cólicas intelectuais, com meus cistos traumáticos e com meus ideais solares e sonhos lunáticos. Essas estrelas continuam lá longe pregadas no céu aguardando a própria morte tão alheias a mim quanto eu a elas, mas são belas. Estrela da minha vida, talvez o sol, mas este sim, este me mata. Amarelo esmagador do meu corpo prometido.

Enquanto o sol não vem e as estrelas me chateiam e me borram a excitação, a lua continua soberana no redondo de seu conteúdo obscuro tão astro no céu como um rei. Porque o sol a veste dama da noite de deserto sem limite de areias brancas; no clarão dela fechei os olhos convictos da inutilidade das lentes e certo choro de cratera me escorreu pesadamente pelos cílios em contemplação assombrosa às goteiras de conformidade ao que não tem nome e é tão simplesmente abismal.

Tanto melhor se amanhã é dia e minhas vontades pulsarão em melanina sob o sol lembrando-me que toda noite tem um fim no pôr da lua. As estrelas rasgos-lá-no-céu são para os navegantes e os amantes de primeira viagem, e eu, estou evaporando no lusco-fusco da razão, entre a virilidade do sol que toca como sequer se pode suportar e a lua que me usa os olhos de títeres sobre si provocando as mais remotas fantasias dos beijos cravados em seu lado negro sem tempestades.


No presente texto o remorso oculta-se sob a face dos adjetivos de minha juventude, de minha casta ignorância. Debalde sufoco-a por minha pieguice poética e te quero, lua, emerges ainda imaculada de toda lúgubre perversão. E que me perdoem as estrelas por meu querer sádico em tomá-las. Apenas arrisco-me para arruiná-las, convertê-las em meus buracos negros, doce na boca minha de palavras ingratas.

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