A rua São José naquela madrugada era cousa p'ra gênio da pintura. A fileira de portas fechadas, trios e duplas de portas coloridas, as mesmas portas do comércio de todo dia, cada uma calada e reticente. Os sobrados que as portas guardavam formavam uma enorme garganta de histórias a céu aberto e cobrindo a curva sem fim, as luzes, muitas luzes, paralelas e compridas faziam as vezes de céu, faziam as vezes de ares, faziam o mundo parecer maravilhoso, mesmo na noite mais triste.
Eu, que vinha caminhando só, sob a chuva, seguindo pelo tapete de paralelepípedos, escuros, molhados, sem saber o que pensar, não podia mais que dançar ao som de um piano que não tocou.
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Sobre a intempestividade das almas penadas
Enfim...passei um pano sobre a poeira grossa e fez-se aquela mancha prateada. eram então meus olhos chafurdados em olheiras escuras. depois de tanto silêncio e de tanta censura, senti o des-gosto das palavras que me fugiram. chorei por elas. frases soltas foram tudo o que me restaram. foi por isso que voltei àquela casa.
caminhei vagarosamente sobre o assoalho esperando a mágica acontecer, esperei que as palavras se aglutinassem a cada ranger de madeira, a cada nuvem de pó que subia quando eu mexia nas cortinas, a cada vez que eu me dirigia ao sótão e abria os livros abandonados. desci a escada espiralada e vaguei pela cozinha, pelo banheiro, pelo jardim procurando os textos, procurando as razões, procurando, quiçá, a poesia. já não havia mais nada lá, nada que remetesse a coisa alguma.
quando dei por mim, já não tinha dormido e havia muito que isso não acontecia, ficar desperta toda uma madrugada esperando amanhecer para poder esquecer o dia anterior. foi quando percebi que não estava realmente sozinha. me acompanhava, com a mão sobre meu ombro, um fantasma sem correntes e sem memórias, me perseguindo, me entrando nos sonhos, ou melhor ainda, nos pesadelos. nunca tive muita convicção sobre nenhuma teoria de pós-morte, mas realmente tentei buscar na mente algo que justificasse tal presença. em vão. tácito e curvo, ele não tinha olhar e nem falar.
por mais que eu estivesse à base de remédios para aliviar a dor, aquela presença sutil não parecia ser alucinação. quando eu gritava no casarão, o fantasma era meu próprio eco; quando eu agachava num canto qualquer, ele era minha ressaca moral. e a casa toda continuava vazia, embora eu pudesse ouvi-los rindo da louca miserável, com as expressões deformadas pela complacência, eles todos que encheram aquela casa já há tanto tempo atrás.
também a lua andava morta nesses tempos e eu não entendia tamanha turbulência que provocava o estalido de alguns nomes nos meus tímpanos. voltei aos meus olhos e ordenei que ficassem indiferentes, e disse-lhes duramente que chorar era cousa de criança. o espectro desceu as escadas da entrada e dando a volta pelo lado de fora da casa, conduziu-me até o limite do terreno. o vento frio engrossou, senti o cheiro de papel queimado no quintal e zás! o uivo desesperado dos cães bem dentro do meu peito, como aconteceu no dia em que ele morreu. comecei a lembrar-me vagamaente de suas feições e foi como, inconseqüentemente, cutucar um vespeiro. a verdade é que isso durou dias, essa reconstituição e o cheiro do papel queimado sobrara do feitiço que eu fiz com as próprias mãos para matá-lo. Mas alguma coisa saiu errado, algo faltou, talvez mais do meu sangue, e o feitiço parece não ter-se dado por completo. Meus sorrisos, minha inquebrantável força, minha aparente tranqüilidade, tudo mostrou-se ineficaz no fim das contas, pois nada disso cegou-me o suficiente para esconder o que mais machuca: a pura alucinação do vivo que num passe eu criei e não fui capaz de destruir. agora me ronda e me põe depressa a fugir chorando feito menino dessa alma penada.
caminhei vagarosamente sobre o assoalho esperando a mágica acontecer, esperei que as palavras se aglutinassem a cada ranger de madeira, a cada nuvem de pó que subia quando eu mexia nas cortinas, a cada vez que eu me dirigia ao sótão e abria os livros abandonados. desci a escada espiralada e vaguei pela cozinha, pelo banheiro, pelo jardim procurando os textos, procurando as razões, procurando, quiçá, a poesia. já não havia mais nada lá, nada que remetesse a coisa alguma.
quando dei por mim, já não tinha dormido e havia muito que isso não acontecia, ficar desperta toda uma madrugada esperando amanhecer para poder esquecer o dia anterior. foi quando percebi que não estava realmente sozinha. me acompanhava, com a mão sobre meu ombro, um fantasma sem correntes e sem memórias, me perseguindo, me entrando nos sonhos, ou melhor ainda, nos pesadelos. nunca tive muita convicção sobre nenhuma teoria de pós-morte, mas realmente tentei buscar na mente algo que justificasse tal presença. em vão. tácito e curvo, ele não tinha olhar e nem falar.
por mais que eu estivesse à base de remédios para aliviar a dor, aquela presença sutil não parecia ser alucinação. quando eu gritava no casarão, o fantasma era meu próprio eco; quando eu agachava num canto qualquer, ele era minha ressaca moral. e a casa toda continuava vazia, embora eu pudesse ouvi-los rindo da louca miserável, com as expressões deformadas pela complacência, eles todos que encheram aquela casa já há tanto tempo atrás.
também a lua andava morta nesses tempos e eu não entendia tamanha turbulência que provocava o estalido de alguns nomes nos meus tímpanos. voltei aos meus olhos e ordenei que ficassem indiferentes, e disse-lhes duramente que chorar era cousa de criança. o espectro desceu as escadas da entrada e dando a volta pelo lado de fora da casa, conduziu-me até o limite do terreno. o vento frio engrossou, senti o cheiro de papel queimado no quintal e zás! o uivo desesperado dos cães bem dentro do meu peito, como aconteceu no dia em que ele morreu. comecei a lembrar-me vagamaente de suas feições e foi como, inconseqüentemente, cutucar um vespeiro. a verdade é que isso durou dias, essa reconstituição e o cheiro do papel queimado sobrara do feitiço que eu fiz com as próprias mãos para matá-lo. Mas alguma coisa saiu errado, algo faltou, talvez mais do meu sangue, e o feitiço parece não ter-se dado por completo. Meus sorrisos, minha inquebrantável força, minha aparente tranqüilidade, tudo mostrou-se ineficaz no fim das contas, pois nada disso cegou-me o suficiente para esconder o que mais machuca: a pura alucinação do vivo que num passe eu criei e não fui capaz de destruir. agora me ronda e me põe depressa a fugir chorando feito menino dessa alma penada.
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Início ou
Estou cansado. É verdade, mas já não significa muita coisa. Já me cansei de estar cansado. Mas ainda mal comecei, ou então comecei mal. Devo tentar recomeçar? Pouco importa. Isso. Isso é que é importante. Devo começar por isso. “O Importante é que pouco importa”. Parece bem humilde. Eu poderia tentar explicar, poderia vasculhar minha memória em busca de sintomas e causas capazes de construir um laudo. Talvez eu até encontraria um culpado. Encontraria nele, no culpado, ligações subterrâneas com as mais inimagináveis desgraças. Feito isso, despejaria sobre ele toneladas e toneladas de fracassos existenciais que insistem em impedir meu caminho, aí com um pouco de sorte poderia me sentir melhor por 1, ou talvez 2 minutos. Posso contar e recontar essa história como tantos outros fizeram antes de mim, mas vou poupá-los, pois estou cansado e também porque sou humilde. Basta dizer por enquanto que de qualquer forma não faria muita diferença. Pois daqui a pouco tempo, eu, que me encontro neste momento no poder, eu, que seguro esta caneta como um cetro e que com ela desenho, vacilante, um esboço de meu reino, eu, o rei, serei destituído do poder e junto comigo todas as imagens e sons que carrego também perderão o comando. Darei lugar então a um outro, nem mais, nem menos humilde que eu, mas para o qual o culpado que criminalizei a pouco, aparecerá como um estranho qualquer, distante demais para ser acusado das desgraças da existência que agora responderão por outro nome e outro som. Libertarão então o ex-culpado e mais uma vez o machado não cairá sobre cabeça alguma. Portanto, enquanto não houver um carrasco para executar sua função, pouco importa. Nem sempre foi assim. Desconfio que nem sempre tenha sido assim. Há aqui comigo algumas histórias antigas, de outros reis provavelmente, Devo contá-las? Vou contá-las, não porque estou menos cansado mas porque gosto mais delas.
Um menino corre, corre e corre, ele tem os braços abertos e empurra o chão com toda força, ninguém está olhando pra ele, corre sozinho contra o vento. Então ele decide parar de respirar, assim ele pode correr mais rápido. E é verdade, ele está mais rápido, num momento ele sorri, no outro ele tem a impressão de ouvir um enxame em sua cabeça, seu estomago desesperado tenta pular pra fora da boca e seus olhos vão ficando escuros, escuros. O menino cai. E respira. Agora ele já sabe que não é livre.
É uma boa história, gosto dela, apesar do menino não ser muito humilde. Ela daria uma ótima história para carrascos, se houvessem carrascos. Vejam só, que ironia, eu, um rei, se é que ainda sou rei, estou completamente submisso a um carrasco. Na verdade nós reis somos muito mais submissos do que se pode imaginar. Eu mesmo mal consigo começar, quem diria então terminar. Deveria tentar ?.............o que ?
M.F.
Um menino corre, corre e corre, ele tem os braços abertos e empurra o chão com toda força, ninguém está olhando pra ele, corre sozinho contra o vento. Então ele decide parar de respirar, assim ele pode correr mais rápido. E é verdade, ele está mais rápido, num momento ele sorri, no outro ele tem a impressão de ouvir um enxame em sua cabeça, seu estomago desesperado tenta pular pra fora da boca e seus olhos vão ficando escuros, escuros. O menino cai. E respira. Agora ele já sabe que não é livre.
É uma boa história, gosto dela, apesar do menino não ser muito humilde. Ela daria uma ótima história para carrascos, se houvessem carrascos. Vejam só, que ironia, eu, um rei, se é que ainda sou rei, estou completamente submisso a um carrasco. Na verdade nós reis somos muito mais submissos do que se pode imaginar. Eu mesmo mal consigo começar, quem diria então terminar. Deveria tentar ?.............o que ?
M.F.
Série Cartas - Carta Provisória àquele que suplanta
Esta é a última carta que lhe escrevo. E assim espero. Embora às vezes eu até ache bonito se estiver fadada a continuar a lhe escrever por anos e anos.
Estou embrulhando cousas singelas, souvenirs dos gratos, que quero deixar para você, em nome das delícias e das mazelas que você me viveu e que não é possível pôr dentro de uma caixa; vindas de você, esteja certo de que são preciosidades todas as cousas. Ademais, essas tais, só existem depois de você, para você e por você. Este voluntarismo ingênuo não me envergonha, antes desloca-me para um dos poucos lugares onde me encontrei plena: meu pensar na tua figura. Talvez tua caricatura, você engraçado, assim mistura de E.P. e C,G. (e esse segredo fica entre nós).
Mando-te um retrato pintado de que gostas, músicas desse tempo de um ‘nós’ inconstante, um livro para lhe divertir e todas as cartas que não te mandei por falta de você querer, mas agora que estamos assim tão bem, tão amigos e tão distantes, fica com elas, guarda de mim essa cousa sincera que me brotou num dia qualquer em que te olhei e minha vida mudou para longe de seu uso ordinário.
Abriste para mim vários caminhos ao me destruir, pois, tudo o que senti, o que sinto e o que sentirei sempre - mesmo que no buraco de ti em meu peito um aterro de amores vindouros se faça - é o néctar do poeta que morre a sonhar com sua musa. Qual néctar este, que de nenhuma boca sorvi antes com tanta doçura! A tua boca ausente, tua boca que a mim não pertence e penso que é bom, uma vez que não te quero ser dona, ainda que eu lamente que outra pessoa tenha recebido tal honra, tal presente. Mas sei que é alguém que te faz feliz hoje e sempre, amém.
Nós que temos nossos eternos namorados, sabemos como é que o coração bate sincronizado com o abraço amado. Sabemos a respiração combinada dos pares. Pena talvez não termos espaço para mais abraços eternos. É o homem tão pequeno, é o dia tão curto, é o caso tão rápido. É a porta trancada, é a luz tão fraca, é a conversa tão disfarçada, é o desejo tão velado, é a abertura tão estreita, é o acolhimento ao diverso tão preguiçoso. Porém, é a companhia tão saborosa, é o momento tão propício, é o subtexto tão longo, é a saudade tão grande, é o beijo tão peculiar, é o olhar tão profundo, é o sono tão tranqüilo, é a mão tão pegar...
Entre suspiros e tiques nervosos, vi a cara dos meus demônios ante a luz das tuas palavras e dos teus gestos. E embora eles me parecessem horrendos no início, são todos, depois de você, obsoletos. No entanto, não estão ainda domesticados, serão sempre xucros sobre os quais ponho o arreio a fim de continuar a longuíssima viagem dos esquecimentos.
Meu querido... menino, na tua luta com deus – ou talvez na minha - fizeste-me tão feliz sem saber. Fizeste da minha palavra suja poesia e canção, do meu corpo cheiro e passagem, da minha cabeça vento e da minha língua teu nome sagrado. Tu es si charmant! Qu’en est-il écrit à ce sujet...? Un jour j’ai lu ce que vous écrivez, tout ce qui vient de votre âme...
Mando também num vidrinho as últimas lágrimas que te chorei, antes de secarem por completo em lembranças de um tal amor que cumpre sua sina de não se realizar. E choro, bem agora, ao escrever estas palavras, mas acredite, é mais felicidade que tristeza... pois não haverá um ocaso daqui para frente que não me traga o tom longínquo da tua voz e o tamborilar dos teus dedos sobre os móveis.
Lembra da última vez em que te toquei os cabelos? Disse-lhe que queria tudo o que você tivesse para me dar. Acusou-me de ambiciosa e eu agora admito; não obstante, aproveito e confesso que quis muito mais. Espero que você entenda o quanto você é. Agora, passada a tempestade da minha triste paixão, sei que há ainda uma cousa que te posso pedir, mesmo que me negues mais uma vez, mas é assim que eu te amo, é assim, é você. Então, lembra de mim de vez em quando. Lembra de mim e sorri, que este é meu ofício. Lembra de mim no meio de uma noite, que este é meu sonho. Lembra de mim no meio de uma rua, e segue teu caminho.
P.S.: Olha no fundo da caixa, uma partitura escolhida a dedo para teus dedos... que tua vida seja música para que você dance com a desenvoltura dos gatos os teus medos e muito mais o teus amores.
Estou embrulhando cousas singelas, souvenirs dos gratos, que quero deixar para você, em nome das delícias e das mazelas que você me viveu e que não é possível pôr dentro de uma caixa; vindas de você, esteja certo de que são preciosidades todas as cousas. Ademais, essas tais, só existem depois de você, para você e por você. Este voluntarismo ingênuo não me envergonha, antes desloca-me para um dos poucos lugares onde me encontrei plena: meu pensar na tua figura. Talvez tua caricatura, você engraçado, assim mistura de E.P. e C,G. (e esse segredo fica entre nós).
Mando-te um retrato pintado de que gostas, músicas desse tempo de um ‘nós’ inconstante, um livro para lhe divertir e todas as cartas que não te mandei por falta de você querer, mas agora que estamos assim tão bem, tão amigos e tão distantes, fica com elas, guarda de mim essa cousa sincera que me brotou num dia qualquer em que te olhei e minha vida mudou para longe de seu uso ordinário.
Abriste para mim vários caminhos ao me destruir, pois, tudo o que senti, o que sinto e o que sentirei sempre - mesmo que no buraco de ti em meu peito um aterro de amores vindouros se faça - é o néctar do poeta que morre a sonhar com sua musa. Qual néctar este, que de nenhuma boca sorvi antes com tanta doçura! A tua boca ausente, tua boca que a mim não pertence e penso que é bom, uma vez que não te quero ser dona, ainda que eu lamente que outra pessoa tenha recebido tal honra, tal presente. Mas sei que é alguém que te faz feliz hoje e sempre, amém.
Nós que temos nossos eternos namorados, sabemos como é que o coração bate sincronizado com o abraço amado. Sabemos a respiração combinada dos pares. Pena talvez não termos espaço para mais abraços eternos. É o homem tão pequeno, é o dia tão curto, é o caso tão rápido. É a porta trancada, é a luz tão fraca, é a conversa tão disfarçada, é o desejo tão velado, é a abertura tão estreita, é o acolhimento ao diverso tão preguiçoso. Porém, é a companhia tão saborosa, é o momento tão propício, é o subtexto tão longo, é a saudade tão grande, é o beijo tão peculiar, é o olhar tão profundo, é o sono tão tranqüilo, é a mão tão pegar...
Entre suspiros e tiques nervosos, vi a cara dos meus demônios ante a luz das tuas palavras e dos teus gestos. E embora eles me parecessem horrendos no início, são todos, depois de você, obsoletos. No entanto, não estão ainda domesticados, serão sempre xucros sobre os quais ponho o arreio a fim de continuar a longuíssima viagem dos esquecimentos.
Meu querido... menino, na tua luta com deus – ou talvez na minha - fizeste-me tão feliz sem saber. Fizeste da minha palavra suja poesia e canção, do meu corpo cheiro e passagem, da minha cabeça vento e da minha língua teu nome sagrado. Tu es si charmant! Qu’en est-il écrit à ce sujet...? Un jour j’ai lu ce que vous écrivez, tout ce qui vient de votre âme...
Mando também num vidrinho as últimas lágrimas que te chorei, antes de secarem por completo em lembranças de um tal amor que cumpre sua sina de não se realizar. E choro, bem agora, ao escrever estas palavras, mas acredite, é mais felicidade que tristeza... pois não haverá um ocaso daqui para frente que não me traga o tom longínquo da tua voz e o tamborilar dos teus dedos sobre os móveis.
Lembra da última vez em que te toquei os cabelos? Disse-lhe que queria tudo o que você tivesse para me dar. Acusou-me de ambiciosa e eu agora admito; não obstante, aproveito e confesso que quis muito mais. Espero que você entenda o quanto você é. Agora, passada a tempestade da minha triste paixão, sei que há ainda uma cousa que te posso pedir, mesmo que me negues mais uma vez, mas é assim que eu te amo, é assim, é você. Então, lembra de mim de vez em quando. Lembra de mim e sorri, que este é meu ofício. Lembra de mim no meio de uma noite, que este é meu sonho. Lembra de mim no meio de uma rua, e segue teu caminho.
P.S.: Olha no fundo da caixa, uma partitura escolhida a dedo para teus dedos... que tua vida seja música para que você dance com a desenvoltura dos gatos os teus medos e muito mais o teus amores.
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Essa noite, sou mais um dos caras
Falávamos dos loucos. Dos mais loucos e dos menos loucos. Dos quase loucos e dos sempre loucos. Sou louco. Não sou louco. Posso ser louco. Posso ficar louco. Loucos são eles. Loucos são estes. Loucos são vocês. Eu sou louca, mas você, meu amigo, é muito louco.
Falávamos dos ressentidos. Fale mais sobre isso. Como você fala comigo? Os papos das moças eu não sei corresponder. Nem os dos caras. Então virei a cabeça para o lado esquerdo, olhei o nada mais para baixo. As pernas cruzadas e cobri os joelhos com a saia preta. A mão direita sobre a boca. Respirei e mergulhei, saí dali, saí de vocês, estátua, pintura, sei lá o que eu fui.
Quem é aquele louco? Mas me senti sorridente quando olhei todos os caras, a gente na roda, cada pé apontando uma direção. Eu só vou quando você me chamar. Pensei nas minhas amigas, será que estarão pelas ruas, por aqui, por essas bandas? Será que algum louco chega bêbado de madrugada aqui na minha porta?
Falávamos das viagens. Falávamos das moedas. Falávamos do quanto era bom. Nós, jovens, achamos algumas coisas boas de verdade. Boas como deveriam ser. Me procura pela rua e me falta o ar. Falávamos da bebida e dos cigarros. Meu Marlboro, meu caso. Alecrim, o alecrim é dourado.
Quem quer parecer o que é? Quem quer dizer o que pensa? Não. Se for repetir, não diga mais nada.
Falávamos dos ressentidos. Fale mais sobre isso. Como você fala comigo? Os papos das moças eu não sei corresponder. Nem os dos caras. Então virei a cabeça para o lado esquerdo, olhei o nada mais para baixo. As pernas cruzadas e cobri os joelhos com a saia preta. A mão direita sobre a boca. Respirei e mergulhei, saí dali, saí de vocês, estátua, pintura, sei lá o que eu fui.
Quem é aquele louco? Mas me senti sorridente quando olhei todos os caras, a gente na roda, cada pé apontando uma direção. Eu só vou quando você me chamar. Pensei nas minhas amigas, será que estarão pelas ruas, por aqui, por essas bandas? Será que algum louco chega bêbado de madrugada aqui na minha porta?
Falávamos das viagens. Falávamos das moedas. Falávamos do quanto era bom. Nós, jovens, achamos algumas coisas boas de verdade. Boas como deveriam ser. Me procura pela rua e me falta o ar. Falávamos da bebida e dos cigarros. Meu Marlboro, meu caso. Alecrim, o alecrim é dourado.
Quem quer parecer o que é? Quem quer dizer o que pensa? Não. Se for repetir, não diga mais nada.
Sexta à tarde, sede na testa
Você se lembra? O mundo girando no burburinho de pessoas na rua do cinema, o dia em que o sol dá o ar da graça entre as nuvens como um naco do seio que se desnuda na camisa folgada, suave luz escapando pelo nublado; lembra do vento cheio de cheiros, trazendo risadas de clima ameno? Não é paz, é uma superfície fluida.
Eu sei que ela gosta de mim, talvez pela música que lhe fiz. Acho que ela gosta do jeito que eu preparo as coisas que ela não come. Eu gosto do jeito que ela entende.
Lavava o rosto, eu. Água gelada até o limite dos cabelos. Caradas nas mãos cheias d’água. Delícia. Vejo a luz do sol entrando pela janela, espalhando-se na tampa branca do vaso. O peito aliviou, respirou todo contente, vi no espelho.
Continue a nadar, ela diz, continue a nadar. Amasse a massa, separe-a, enrole-a, junte-a, corte-a, amasse-a... e sobretudo, continue a nadar.
Leitor caro, não me diga que isso que escrevo é auto-ajuda. Leitor raro, cuide de imaginar, não me amole com respostas.
Caneta nova caderneta, convida a café nos fundos dessa espelunca que tem alma de velha, butiquim, pardieiro, substrato poético. Tentam mudá-la, refiná-la,limpá-la, nivelá-la, mas sua arquitetura delata (para mim que a conheci antes da reforma).
Terei eu achado mais uma vez que matando a saudade, nesse caso sentando nesse banco e nessa mesa, terei eu achado mais uma vez que um surto de inspiração justificaria a ânsia, a fome?
A pior coisa é sentar de frente para o banheiro. Explicaria porque mas estou evitando a fadiga. Atende-me. Attendez-moi.
O que eu faço com tanta velocidade? As cores, os rostos, os sentidos, os sentimentos, os quases, as pausas, as vontades, as lembranças, os cheiros, as visões, as conversas, os sabores, os saberes. Parece que alimento uma bomba cuja dimensão do estrago eu não conheço. Pus até um relógio relíquia de família no pulso para a contagem regressiva.
Ah! Quando digo sentidos não são os bons e velhos cinco, são as anti-sacações.
Por que sentar aqui e escrever essas coisas, por que querer que você me leia? Eu não quero falar de você, estou aqui sozinha e não quero falar de você. Não estou olhando as horas no relógio automático para ver se já posso ir a sua casa.
Fiquei imaginando quem daqueles tempos (sim, puro saudosismo, até ela que mal chegou já sente) quem daquela galera mais [...?] iria aparecer por aqui, como eu revivendo um lugar povoado de histórias. Quem tomaria um café ou dois ou três e me presentearia com pérolas das linguagens?
Ao mesmo tempo que me espanta a quantidade e a densidade de livro que se pode ler nessa vida, diverte-me o quanto se pode escrever e as coisas sobre as quais se escreve dessa vida.
Acho que estou tendo uma reação alérgica. Não param de surgir pontos avermelhados pelo meu corpo, incham e coçam como mordidas de pulga. Lembro do momento em que surgem as duas primeiras.
Empolguei na fala de maneira tão comovente que meus companheiros de mesa explodiram em gargalhadas. Eu de olhos arregalados, todos comungando diante de muros brancos e aí coçam-me duas bolotas. Falava sobre algo que não tem controle.
Olha, eu já tentei escrever histórias e não consegui. Em mim a história se dá na boca porque o ritmo da escrita é outro, é esse caminho desencaminhado. Tudo bem, também não entendi o que isso quer dizer precisamente.
Relógio, relíquia, olho o relógio e tenho mesmo que treinar a leitura dos ponteiros. Chego a olhar às vezes, até prolongadamente, e me perder no desenho dos minutos e das horas ou ficar hipnotizada pelos segundos, sendo que deixo o beijo no relógio sem saber das horas. Esqueço-as tão espontaneamente. Porém, são elas, as horas, as minhas ninfas disfarçadas e serelepes banhando-me de caraminholas.
É o terceiro e último café. Um e cinqüenta. A garçonete olha para mim rindo ‘Gosta, né?’. Gosto, moça. Pensei rapidamente em dizer: ‘café para dar inspiração’. Café fresco, meus namoros, teu dedo no meu dente, teus dentes na minha língua. Ela me falou das gotas, me falou dos sonhos, do café.
Por que mesmo comecei a escrever esse texto? Você se lembra?
Ah! Esqueça! O caminho está límpido e vasto como um céu; há uma estrada prenhe e longa onde nos vêem seguir. Te encontro no caminho de casa, deliro te encontrar pelas ruas, é tão acidental. Você me adora quando é acidental. Obrigada, estou indo tomar alguma coisa e fumar um cigarro na sua casa.
Eu sei que ela gosta de mim, talvez pela música que lhe fiz. Acho que ela gosta do jeito que eu preparo as coisas que ela não come. Eu gosto do jeito que ela entende.
Lavava o rosto, eu. Água gelada até o limite dos cabelos. Caradas nas mãos cheias d’água. Delícia. Vejo a luz do sol entrando pela janela, espalhando-se na tampa branca do vaso. O peito aliviou, respirou todo contente, vi no espelho.
Continue a nadar, ela diz, continue a nadar. Amasse a massa, separe-a, enrole-a, junte-a, corte-a, amasse-a... e sobretudo, continue a nadar.
Leitor caro, não me diga que isso que escrevo é auto-ajuda. Leitor raro, cuide de imaginar, não me amole com respostas.
Caneta nova caderneta, convida a café nos fundos dessa espelunca que tem alma de velha, butiquim, pardieiro, substrato poético. Tentam mudá-la, refiná-la,limpá-la, nivelá-la, mas sua arquitetura delata (para mim que a conheci antes da reforma).
Terei eu achado mais uma vez que matando a saudade, nesse caso sentando nesse banco e nessa mesa, terei eu achado mais uma vez que um surto de inspiração justificaria a ânsia, a fome?
A pior coisa é sentar de frente para o banheiro. Explicaria porque mas estou evitando a fadiga. Atende-me. Attendez-moi.
O que eu faço com tanta velocidade? As cores, os rostos, os sentidos, os sentimentos, os quases, as pausas, as vontades, as lembranças, os cheiros, as visões, as conversas, os sabores, os saberes. Parece que alimento uma bomba cuja dimensão do estrago eu não conheço. Pus até um relógio relíquia de família no pulso para a contagem regressiva.
Ah! Quando digo sentidos não são os bons e velhos cinco, são as anti-sacações.
Por que sentar aqui e escrever essas coisas, por que querer que você me leia? Eu não quero falar de você, estou aqui sozinha e não quero falar de você. Não estou olhando as horas no relógio automático para ver se já posso ir a sua casa.
Fiquei imaginando quem daqueles tempos (sim, puro saudosismo, até ela que mal chegou já sente) quem daquela galera mais [...?] iria aparecer por aqui, como eu revivendo um lugar povoado de histórias. Quem tomaria um café ou dois ou três e me presentearia com pérolas das linguagens?
Ao mesmo tempo que me espanta a quantidade e a densidade de livro que se pode ler nessa vida, diverte-me o quanto se pode escrever e as coisas sobre as quais se escreve dessa vida.
Acho que estou tendo uma reação alérgica. Não param de surgir pontos avermelhados pelo meu corpo, incham e coçam como mordidas de pulga. Lembro do momento em que surgem as duas primeiras.
Empolguei na fala de maneira tão comovente que meus companheiros de mesa explodiram em gargalhadas. Eu de olhos arregalados, todos comungando diante de muros brancos e aí coçam-me duas bolotas. Falava sobre algo que não tem controle.
Olha, eu já tentei escrever histórias e não consegui. Em mim a história se dá na boca porque o ritmo da escrita é outro, é esse caminho desencaminhado. Tudo bem, também não entendi o que isso quer dizer precisamente.
Relógio, relíquia, olho o relógio e tenho mesmo que treinar a leitura dos ponteiros. Chego a olhar às vezes, até prolongadamente, e me perder no desenho dos minutos e das horas ou ficar hipnotizada pelos segundos, sendo que deixo o beijo no relógio sem saber das horas. Esqueço-as tão espontaneamente. Porém, são elas, as horas, as minhas ninfas disfarçadas e serelepes banhando-me de caraminholas.
É o terceiro e último café. Um e cinqüenta. A garçonete olha para mim rindo ‘Gosta, né?’. Gosto, moça. Pensei rapidamente em dizer: ‘café para dar inspiração’. Café fresco, meus namoros, teu dedo no meu dente, teus dentes na minha língua. Ela me falou das gotas, me falou dos sonhos, do café.
Por que mesmo comecei a escrever esse texto? Você se lembra?
Ah! Esqueça! O caminho está límpido e vasto como um céu; há uma estrada prenhe e longa onde nos vêem seguir. Te encontro no caminho de casa, deliro te encontrar pelas ruas, é tão acidental. Você me adora quando é acidental. Obrigada, estou indo tomar alguma coisa e fumar um cigarro na sua casa.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Série Cartas - Ditos de uma boca carmim
Na primeira carta que lhe escrevi, lembro-me de ter pedido que não se espantasse caso um dia, de repente, eu lhe remetesse ainda mais uma carta. Ah sim, eu já mandei outra, a ‘mais uma’. Todas as outras que escrevi, guardei, não tive mais coragem de te enviar outras cartas, mas elas existiram e são todas suas. Esta aqui está no impasse e por ora, penso em metê-la num envelope e lançá-la a você. Sei que não seria muito prudente que eu o fizesse, mas é quase irresistível. Aqui, na minha imaginação, você já tem essa carta na mão.
De qualquer maneira, sinto como se tivesse fôlego para escrever-lhe mil folhas à mão, tanto eu teria para te dizer, tanto eu tenho de amar você. As coisas que você me traz, ah meu anjo, essas coisas me deixam saber que amá-lo é aprender. E como dói.
Dor pula a janela me invade os pulmões e me levanta da cadeira do meu quarto roendo as unhas e gemendo, inquieta, com vontade de largar tudo, o orgulho, a força, o sorrisinho na cara e ir até sua casa, bater na sua porta e pular no teu peito e aninhar-me manhosa, carente cheia de touch e palavras de pura apaixonada. Mas não, pois agora me parece que você está de novo comigo, mesmo assim, a uma distância segura, parece que se aproxima à medida que percebe como posso me controlar e que não vou te matar e te embalsamar... hahaha...
Nessa angústia lancinante, vozes me perturbam os pensamentos e saio já de madrugada. Caminho quase tranqüila na rua, onde me sinto mais segura à mercê de acasos, de fantasias, de surpresas que me façam esquecer de você. A embriaguez torna-se soberana, palavra de ordem. E vendo meu corpo nessa noite, meu querido, vendo-o barato, deixo que seja mastigado e esfolado, sinto-me viva e sinto-me sem dono, sem ser sua, sem ser de ninguém, possuída pela poesia amoral da minha saudade de você. Sabia que pensei seriamente haver te esquecido? Cheguei a estranhar teu rosto naquela última conversa amigável que tivemos. Sobretudo quis mostrar-te isso, que não te amo mais. Ou melhor, que não te quero mais, você pensaria, já que eu nunca disse que te amo.
Enquanto qualquer outro homem digeria meu corpo, acendi a luz da cozinha e me pus a escrever o que seria essa carta aqui, que te pensei em mandar, depois de tanto tempo, de tanta corrida contra o tempo de te amar. Achei quatro rascunhos, pois eu me lembro, quase não conseguia escrever; num deles minha letra tornou-se rabiscos, não sei o que estava te dizendo ali, estou tentando ler...
Rascunho Um
‘Meu querido,
Como me pode ser ainda assim tão querido... Mas não vês que o teu nada fazer me é tudo? Que tua mão [...?] me é a maior prova de amor? Entendes, não é amor por mim, mas amor como é em você. Já interferiste[?] e vejo agora que acreditei nessa coisa que quero tão [...?]. Por favor, e pela primeira vez te peço sinceramente [...?] amor[?], me ouve distorcendo o que sinto, não vai ajudar, vive-me. Desculpe-me este querer que não sei dar-te [?] [...?]. Menti quando disse que não escrevia há muito.’
Troco de folha.
Rascunho Dois
‘Meu querido,
Quereria eu não te querer. Esse tanto te querer que me acontece, mais que fatos, quereria eu te dizer o quanto, mas não posso. Desculpe-me por tantos quereres.’
[...] Arranco a folha do bloco.
Rascunho Três
‘Meu querido,
Quereria eu não querer-te. Mas devo culpar-me por esse tanto que te quero?’
[...] Arranco a folha do bloco.
Rascunho Quatro
‘Meu querido,
Quereria eu não te querer. Esse tanto te querer que me acontece, mais que fatos, quereria eu te dizer, mas não posso. Desculpe-me por tantos quereres.
Fucking shit você diz e eu entendo. Digo o mesmo. Se eu apenas lhe puder dizer ‘estou indo’. Se pudesse dizer ‘eu entendo’, se pudesse dizer o quanto entendo, o quanto compartilho... Escolhi a letra ilegível porque quero te mostrar que é verdade nessa louca madrugada o quanto te quero amar e só posso com você.
Vem ser meu amigo, pára de fingir que não há nada. Larga mão de me resistir. Quero te abraçar, quero teus segredos.’
Percebes o teor dessa carta? As palavras repetidas, que encontras também nas demais cartas? Bordo minhas palavras nas folhas porque sei que se não, te sufoco. E tenho estado tão serelepe, tão cheia de novidades. Só não perdi a mania de correr para te contar tudo. Quero te ser interessante, menina boba! Não consigo te maltratar como maltrato a outros nos meus suculentos momentos sádicos. Ao contrário, quero ajoelhar-me na tua frente e abraçar você inteiro e sentado na posição em que me apaixono por você, os antebraços nus, as pernas azuis, o tênis bonito.
Da próxima vez que te ver, quero um encontro romântico e você todo sorridente, todo para mim, sem a chave da sua casa. Por que você não a perde? Sei, sei como é difícil perder. Da mesma forma como é assustador perder-se, caminhar rumo ao muro de frio das noites de Ouro Preto, a serração branca e avermelhada e alaranjada e rósea e azulada e molhada e fria. O que os teus ouvidos ouvem agora é a voz de uma outra mulher que te prende a atenção, quiçá ela apenas te distraia, ou te faça pensar em tentar mais uma vez, ou nada, nada demais.
Teu dedo no meu dente, assim, tua mão na minha boca. Teu vácuo, teu sorriso, os dentes teus. A folha que assinei com amor e com sangue e sigo teu conselho: tenho cuidado com a imaginação. Mas estar em estado de graça desde você; quando ouvi isso entendi que sentia o mesmo que o autor dessas palavras. Você é meu alívio imediato, minha droga pesada, meu orgasmo, minha entidade idolatrável. Teu dedo no meu dente, assim, cada segundo feliz com você, selando a promessa sussurrada de amor eterno, de amor enquanto durar e agora mesmo é para sempre. É o preço que pago por cada palavra que escrevo, cada música no meu violão, cada pincelada na tinta, cada agulhada no tecido, cada boca que beijo, cada lugar que visito, cada tapa na cara. Teu dedo no meu dente, assim, meu dedo no meu dente, de olhos fechados, rindo, rindo muito de quase chorar, pensando em você, desejando muito lindo nossos abraços e afetos, brincando de te namorar menino, tão leve brincalhão, sem medo do que vem depois, misturando as memórias breves e as longas fantasias, eu bonita no teu olho, iluminados os dois, mesmo que por um sonho.
Daqui a muito tempo, vou lembrar teu nome, teu rosto, e tudo estará tão longe que talvez não doa. Hoje mesmo quase não dói, e trago à luz o primeiro poema que fiz para você acreditando nele como se o tivesse acabado de escrever, porque eu sabia que você era muito tempo, de outro tempo, de outro jeito, que não passaria despercebido, que não seria daqueles que se esquece sem uma boa soma de esforços risonhos e chorosos.
Espero que ainda esteja usando barba. Você fica muito bem. Eu estou deixando os cabelos crescerem ondas de chocolate e não corto mais até que teus belos dedos os desbravem sem pressa. Meu bem, a essa altura, já desisti de te mandar essa carta. Talvez você me ouça dizer tudo isso em algum lugar da sua vida, de um lado ou outro, se você procurar atentamente... vou sumir só para continuar ali, no cantinho, travessa a te espiar com os olhinhos brilhando...
Comigo está tudo bem, entendi que tenho forças de te amar em absoluto segredo. Um beijo.
De qualquer maneira, sinto como se tivesse fôlego para escrever-lhe mil folhas à mão, tanto eu teria para te dizer, tanto eu tenho de amar você. As coisas que você me traz, ah meu anjo, essas coisas me deixam saber que amá-lo é aprender. E como dói.
Dor pula a janela me invade os pulmões e me levanta da cadeira do meu quarto roendo as unhas e gemendo, inquieta, com vontade de largar tudo, o orgulho, a força, o sorrisinho na cara e ir até sua casa, bater na sua porta e pular no teu peito e aninhar-me manhosa, carente cheia de touch e palavras de pura apaixonada. Mas não, pois agora me parece que você está de novo comigo, mesmo assim, a uma distância segura, parece que se aproxima à medida que percebe como posso me controlar e que não vou te matar e te embalsamar... hahaha...
Nessa angústia lancinante, vozes me perturbam os pensamentos e saio já de madrugada. Caminho quase tranqüila na rua, onde me sinto mais segura à mercê de acasos, de fantasias, de surpresas que me façam esquecer de você. A embriaguez torna-se soberana, palavra de ordem. E vendo meu corpo nessa noite, meu querido, vendo-o barato, deixo que seja mastigado e esfolado, sinto-me viva e sinto-me sem dono, sem ser sua, sem ser de ninguém, possuída pela poesia amoral da minha saudade de você. Sabia que pensei seriamente haver te esquecido? Cheguei a estranhar teu rosto naquela última conversa amigável que tivemos. Sobretudo quis mostrar-te isso, que não te amo mais. Ou melhor, que não te quero mais, você pensaria, já que eu nunca disse que te amo.
Enquanto qualquer outro homem digeria meu corpo, acendi a luz da cozinha e me pus a escrever o que seria essa carta aqui, que te pensei em mandar, depois de tanto tempo, de tanta corrida contra o tempo de te amar. Achei quatro rascunhos, pois eu me lembro, quase não conseguia escrever; num deles minha letra tornou-se rabiscos, não sei o que estava te dizendo ali, estou tentando ler...
Rascunho Um
‘Meu querido,
Como me pode ser ainda assim tão querido... Mas não vês que o teu nada fazer me é tudo? Que tua mão [...?] me é a maior prova de amor? Entendes, não é amor por mim, mas amor como é em você. Já interferiste[?] e vejo agora que acreditei nessa coisa que quero tão [...?]. Por favor, e pela primeira vez te peço sinceramente [...?] amor[?], me ouve distorcendo o que sinto, não vai ajudar, vive-me. Desculpe-me este querer que não sei dar-te [?] [...?]. Menti quando disse que não escrevia há muito.’
Troco de folha.
Rascunho Dois
‘Meu querido,
Quereria eu não te querer. Esse tanto te querer que me acontece, mais que fatos, quereria eu te dizer o quanto, mas não posso. Desculpe-me por tantos quereres.’
[...] Arranco a folha do bloco.
Rascunho Três
‘Meu querido,
Quereria eu não querer-te. Mas devo culpar-me por esse tanto que te quero?’
[...] Arranco a folha do bloco.
Rascunho Quatro
‘Meu querido,
Quereria eu não te querer. Esse tanto te querer que me acontece, mais que fatos, quereria eu te dizer, mas não posso. Desculpe-me por tantos quereres.
Fucking shit você diz e eu entendo. Digo o mesmo. Se eu apenas lhe puder dizer ‘estou indo’. Se pudesse dizer ‘eu entendo’, se pudesse dizer o quanto entendo, o quanto compartilho... Escolhi a letra ilegível porque quero te mostrar que é verdade nessa louca madrugada o quanto te quero amar e só posso com você.
Vem ser meu amigo, pára de fingir que não há nada. Larga mão de me resistir. Quero te abraçar, quero teus segredos.’
Percebes o teor dessa carta? As palavras repetidas, que encontras também nas demais cartas? Bordo minhas palavras nas folhas porque sei que se não, te sufoco. E tenho estado tão serelepe, tão cheia de novidades. Só não perdi a mania de correr para te contar tudo. Quero te ser interessante, menina boba! Não consigo te maltratar como maltrato a outros nos meus suculentos momentos sádicos. Ao contrário, quero ajoelhar-me na tua frente e abraçar você inteiro e sentado na posição em que me apaixono por você, os antebraços nus, as pernas azuis, o tênis bonito.
Da próxima vez que te ver, quero um encontro romântico e você todo sorridente, todo para mim, sem a chave da sua casa. Por que você não a perde? Sei, sei como é difícil perder. Da mesma forma como é assustador perder-se, caminhar rumo ao muro de frio das noites de Ouro Preto, a serração branca e avermelhada e alaranjada e rósea e azulada e molhada e fria. O que os teus ouvidos ouvem agora é a voz de uma outra mulher que te prende a atenção, quiçá ela apenas te distraia, ou te faça pensar em tentar mais uma vez, ou nada, nada demais.
Teu dedo no meu dente, assim, tua mão na minha boca. Teu vácuo, teu sorriso, os dentes teus. A folha que assinei com amor e com sangue e sigo teu conselho: tenho cuidado com a imaginação. Mas estar em estado de graça desde você; quando ouvi isso entendi que sentia o mesmo que o autor dessas palavras. Você é meu alívio imediato, minha droga pesada, meu orgasmo, minha entidade idolatrável. Teu dedo no meu dente, assim, cada segundo feliz com você, selando a promessa sussurrada de amor eterno, de amor enquanto durar e agora mesmo é para sempre. É o preço que pago por cada palavra que escrevo, cada música no meu violão, cada pincelada na tinta, cada agulhada no tecido, cada boca que beijo, cada lugar que visito, cada tapa na cara. Teu dedo no meu dente, assim, meu dedo no meu dente, de olhos fechados, rindo, rindo muito de quase chorar, pensando em você, desejando muito lindo nossos abraços e afetos, brincando de te namorar menino, tão leve brincalhão, sem medo do que vem depois, misturando as memórias breves e as longas fantasias, eu bonita no teu olho, iluminados os dois, mesmo que por um sonho.
Daqui a muito tempo, vou lembrar teu nome, teu rosto, e tudo estará tão longe que talvez não doa. Hoje mesmo quase não dói, e trago à luz o primeiro poema que fiz para você acreditando nele como se o tivesse acabado de escrever, porque eu sabia que você era muito tempo, de outro tempo, de outro jeito, que não passaria despercebido, que não seria daqueles que se esquece sem uma boa soma de esforços risonhos e chorosos.
Espero que ainda esteja usando barba. Você fica muito bem. Eu estou deixando os cabelos crescerem ondas de chocolate e não corto mais até que teus belos dedos os desbravem sem pressa. Meu bem, a essa altura, já desisti de te mandar essa carta. Talvez você me ouça dizer tudo isso em algum lugar da sua vida, de um lado ou outro, se você procurar atentamente... vou sumir só para continuar ali, no cantinho, travessa a te espiar com os olhinhos brilhando...
Comigo está tudo bem, entendi que tenho forças de te amar em absoluto segredo. Um beijo.
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Série Cartas - Carta para um dia
Oh, como é generosa a terra. Deixa que eu deite minha cabeça sobre seu travesseiro de grama, montinho fofo esperando meu corpo repousar. Travesseiros sob todo o corpo e por cima o sol. Para o sol não há olhos fechados, ele queima as córneas enquanto vemos os mais intensos vermelhos, grande maravilha dos efeitos. E ao levantar fugida do calor insuportável, corro dentro de um mundo azul, azul de contrastes e assim vejo tudo em tons de azul.
Você sabe o quanto custa tudo isso? O quanto custa sair da bolha? E sabe o valor de olhar para o lado e ver alguém que com olhos cúmplices faz o mesmo? Sabe o que significa ser assim? Quando eu fumo este cigarro e ainda te amo. De novo... voltei a dizer que te amo. Acabo de me dar conta, a muito pouco do quanto minhas palavras se extrapolam tentando encobrir isso de amar. Sempre no esforço de não usar a palavra amor e sim de dissolvê-la.
Meu querido, você já virou tantos outros e todos os dias... ainda te olho com ternura e te quero os beijos e nada mais. Ainda te ouço chegar. E se agora me tranco e te ofendo aqui onde você não pode ouvir,é porque quero me aprontar para ser um elástico capaz de te alcançar. Naquele rascunho era o que eu te dizia que te amo e que queria aprender com você a amar outro amor. Eu talvez tenha fracassado na imprecisão das palavras, mas principalmente, não pude perceber antes de tudo acabar, o meu atuar amante livre de discursos, livre de manias. Eu sei que não preciso pedir-te desculpas por isso o faço para que talvez entendas que reconheço. Todavia, sei que não me cabe tentar voltar e sim ir, ir-me para quando for. É que ao te olhar me vem o luto de não ter podido viver-te mais. Mas vives, isso me deve bastar.
A amoreira pende frutas das suas mãos generosas e estou lá sob sua copa a me esbaldar. Oferece-me as frutas maduras e oferece-me também o azedume da pressa, sou eu que escolho as frutas.
Escondi teu nome e não consigo mais achar. Contudo, sei que não posso mais ficar perto de você e é assim que você me faz correr, me faz viajar, me encoraja a me lançar para outros braços, outros acasos. Nisso, te agradeço e te amo, no resto prefiro deixar de pensar. E você sabe o quanto isso custa?
Ameniza o peso das minhas palavras, faz delas flores ao vento. Venha um dia, sim. Por favor. Sob essa neblina, sob essa solidão, sob essa rachadura. Venha sim. Deita no meu colo pronto pro teu corpo repousar e me entrega teus cabelos e tuas mãos. Ouve as músicas que ponho a tocar.
Sigo querendo ver-te ou seguro-me?
Você sabe o quanto custa tudo isso? O quanto custa sair da bolha? E sabe o valor de olhar para o lado e ver alguém que com olhos cúmplices faz o mesmo? Sabe o que significa ser assim? Quando eu fumo este cigarro e ainda te amo. De novo... voltei a dizer que te amo. Acabo de me dar conta, a muito pouco do quanto minhas palavras se extrapolam tentando encobrir isso de amar. Sempre no esforço de não usar a palavra amor e sim de dissolvê-la.
Meu querido, você já virou tantos outros e todos os dias... ainda te olho com ternura e te quero os beijos e nada mais. Ainda te ouço chegar. E se agora me tranco e te ofendo aqui onde você não pode ouvir,é porque quero me aprontar para ser um elástico capaz de te alcançar. Naquele rascunho era o que eu te dizia que te amo e que queria aprender com você a amar outro amor. Eu talvez tenha fracassado na imprecisão das palavras, mas principalmente, não pude perceber antes de tudo acabar, o meu atuar amante livre de discursos, livre de manias. Eu sei que não preciso pedir-te desculpas por isso o faço para que talvez entendas que reconheço. Todavia, sei que não me cabe tentar voltar e sim ir, ir-me para quando for. É que ao te olhar me vem o luto de não ter podido viver-te mais. Mas vives, isso me deve bastar.
A amoreira pende frutas das suas mãos generosas e estou lá sob sua copa a me esbaldar. Oferece-me as frutas maduras e oferece-me também o azedume da pressa, sou eu que escolho as frutas.
Escondi teu nome e não consigo mais achar. Contudo, sei que não posso mais ficar perto de você e é assim que você me faz correr, me faz viajar, me encoraja a me lançar para outros braços, outros acasos. Nisso, te agradeço e te amo, no resto prefiro deixar de pensar. E você sabe o quanto isso custa?
Ameniza o peso das minhas palavras, faz delas flores ao vento. Venha um dia, sim. Por favor. Sob essa neblina, sob essa solidão, sob essa rachadura. Venha sim. Deita no meu colo pronto pro teu corpo repousar e me entrega teus cabelos e tuas mãos. Ouve as músicas que ponho a tocar.
Sigo querendo ver-te ou seguro-me?
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Mais do mesmo
Morrerei pela boca mesmo que não por agora; mas morrerei de palavras tóxicas, pensamentos hidrogenados, atos açucarados de burrice refinada. Morrerei de palavras careadas, exalando odores alcoólicos, olhos vítreos fritos de catarata, cascata de misturas erradas. Morrerei porque o bafo da verdade não encobre a podridão do meu estômago lotado, das minhas fomes ocasionais e os fétidos restos nas galerias intestinais desse corpo deformado. Com meus vasos sanguíneos petrificados, o que me sai pela boca é derrame das coisas que eu invento; torrões de enxaqueca para as goladas de café a litro por hora. O que é, o que é: pele em frangalhos, vergonhas vermelhas putas, idéias gonorréicas, fixações bolorentas, medos ralo abaixo, sonhos inflamando espinhas na cara, cano de descarga? Não seja trouxa, não sou eu, é antes você no que me vê. Eureca! Tudo isso pra dar um peso a mais ao tricô da vida. Poderia dizer que a vida é linda, é bela, funcionaria quase da mesma forma, poderia crer nos sinais, nos acasos objetivos mas, fumando este cigarro, estou sem paciência para me debulhar em pieguices; estou deveras decepcionada com minha capacidade de não viver, com minha habilidade para a charlatanice e não se trata de ser feliz ou triste e sim dos olhos que bóiam, da boca que baba preguiçosas baboseiras aqui e acolá, roseiras secas com espinhos agudos cravados pelos pés com as mãos por entre eles metidas. A questão é cisto no meu útero, a dor da penetração da realidade no cérebro. Da maquinaria pesada onde jorrei minhas últimas investidas sobrou a fumaça e os ferros retorcidos no remorso lambe-lambe da ingênua. Essa vil, essa má companhia. E se o céu é hoje azul, tanto melhor que eu não chore e não ria, melhor ainda que saiba que tudo o que sempre quis não queria. Morrerei em pleno gozo de porco na roleta pingando óleo queimado na chapa. Morrerei conectada esperando alguém entrar na minha joça. Morrerei brincando de viver no dia-a-dia escuro do meu sopro inautêntico. Deverei passar antes da morte pelos vales vitimados pela ignorância e ser tragada pelo implacável fantástico do infinito. Vê como tento escapulir: lustrando com meus paninhos o espelho refletindo o absurdo das árvores que bailam ao vento, o som da água que segue seu curso, as nuvens que atravessam ligeiras o céu todo poderoso. E é tanta harmonia que meu seio palpita indignado e quereria eu ser verde e seria, se minhas articulações articulassem, se meu baço fosse um braço; palavra na face, palavra fácil tanto quanto ilegível; onde tudo se mistura e nada se conclui, eu de bordas dissolvidas sob o sol da compreensão ardida. Morrerei pela boca como morrem os flagelados: gritando em troca de um olhar de piedade, buscando alguém que não se cale. Agora que sou cego, o que seria de mim se não fosse o tédio onde abraço meu amigo eco? Agora que estou cego, o que será das palavras nas folhas do caderno? Agora rezo, para que troquem o papel higiênico pelos jornais e depois pelos dólares. Lugar de sentido é no lixo do banheiro onde morrerei sem ver que morri mais uma vez. Morrerei como minha mãe, morrerei baixinho; mas até lá, lá onde também não há receita, nem remédio, consumirei todas as esquisitices e zombarei das tentativas de quem me quiser ajudar com a minha cara de morto há muito. Nada disso me emociona e nada mais, mesmo que não por agora. Morrerei pela boca, engasgada com o vômito dos pudores fermentados e nojos indigestos. Morrerei casta e cínica, zonzo e pálido como sempre, sempre que retorna e escapa. Mas principalmente, morrerei sem dó.
Sempre quis dar um poema a alguém.
De simples vocábulos
sonhos sonhados
sem volta
Sonho que vira a esquina
perde-se no vício
revira-se em vontades
de simples quereres
sem por que sim
Por que não?
Nesse indo e vindo de ti
Agora
é para mim o céu aberto
e inferno
São apenas palavras... mas
Este, eu dou para você.
sonhos sonhados
sem volta
Sonho que vira a esquina
perde-se no vício
revira-se em vontades
de simples quereres
sem por que sim
Por que não?
Nesse indo e vindo de ti
Agora
é para mim o céu aberto
e inferno
São apenas palavras... mas
Este, eu dou para você.
2007
O que eu quero de você
é um amor maior do que o espaço debaixo da minha saia
onde o vento passa e entrelaça minhas pernas
é um amor maior do que o espaço debaixo da minha saia
onde o vento passa e entrelaça minhas pernas
vento voa leve o pensamento que
te corre ao pé do ouvido é a chuva
desce a rua pela vala o que eu falo de ti
sol de tarde de trás da nuvem
cinza uma vontade trovejando
é chuvisco de palavrada
menina bonita um vinilzinho
coisas de estudante com fome
numa campina verde em outro
estado
haja fôlego pra tanto corpo querendo
copo na boca na sede do beijo de
cerveja com sal e limão é bolo de cenoura
boceta gozando banguela no pau babando em
boca de moça
te corre ao pé do ouvido é a chuva
desce a rua pela vala o que eu falo de ti
sol de tarde de trás da nuvem
cinza uma vontade trovejando
é chuvisco de palavrada
menina bonita um vinilzinho
coisas de estudante com fome
numa campina verde em outro
estado
haja fôlego pra tanto corpo querendo
copo na boca na sede do beijo de
cerveja com sal e limão é bolo de cenoura
boceta gozando banguela no pau babando em
boca de moça
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
Recaída II: L'eroico coraggio di un feroce addio
Um vômito que chegou de madrugada
“Eu começo pelo que procuro. E já o digo de antemão, uma vez que não existe um antes e um depois disto. Eu procuro os vãos, o rejunte que se dá entre os azulejos, o fio de nada que está entre os dentes, o estrabismo que corta os olhos. O que me interessa não é isto ou aquilo, ou o que se detém em especificidades. Parece-me que existe um quê de poesia em toda essa imundice, nessa sujeira – que, todavia, não é feita senão de pó. Então eu me volto para você, para os seus vãos. Eu me volto para você e o que me dinamita esta aí, no ‘entrevão’ dos seus fios de cabelo; eu me volto para os seus ouvidos e me reencontro em sua nuca, mais inaudível que o silêncio. Eu procuro o não-encontro, o lapso dos olhares, o lapso dos beijos, o lapso dos lapsos, a nuance que separa o espaço do tempo, da vida e da morte, do preto e do branco. E quando você se apresenta como o diverso, tanto melhor, pois o que procuro se mostra, ainda que não se desvele. Eu jogo o meu desejo para esse inefável: eu, que ainda acredito que antes mesmo das palavras existe o sabor. Qual o sabor do inefável? O sabor do não-vivido, o sabor da morte, o sabor ele-mesmo, não palatável por esta língua, este músculo retorcido de histórias; língua convulsiva que dança como uma naja em minha boca, a sua prisão. Afinal, eu não digo nada que não se volte para esse mesmo nada. De fato eu me tornei, eu mesmo, um vão e não faço mais que procurar reencontrar o substrato que cole, em forma de poesia talvez, a minha própria inverdade, o espaço entre eu e eu mesmo, entre eu e você, entre você e você. E se lhe entrego esta carta, não o faço tanto pelas palavras, mas pelo tecido de nada que as une.”
T.R.
“Eu começo pelo que procuro. E já o digo de antemão, uma vez que não existe um antes e um depois disto. Eu procuro os vãos, o rejunte que se dá entre os azulejos, o fio de nada que está entre os dentes, o estrabismo que corta os olhos. O que me interessa não é isto ou aquilo, ou o que se detém em especificidades. Parece-me que existe um quê de poesia em toda essa imundice, nessa sujeira – que, todavia, não é feita senão de pó. Então eu me volto para você, para os seus vãos. Eu me volto para você e o que me dinamita esta aí, no ‘entrevão’ dos seus fios de cabelo; eu me volto para os seus ouvidos e me reencontro em sua nuca, mais inaudível que o silêncio. Eu procuro o não-encontro, o lapso dos olhares, o lapso dos beijos, o lapso dos lapsos, a nuance que separa o espaço do tempo, da vida e da morte, do preto e do branco. E quando você se apresenta como o diverso, tanto melhor, pois o que procuro se mostra, ainda que não se desvele. Eu jogo o meu desejo para esse inefável: eu, que ainda acredito que antes mesmo das palavras existe o sabor. Qual o sabor do inefável? O sabor do não-vivido, o sabor da morte, o sabor ele-mesmo, não palatável por esta língua, este músculo retorcido de histórias; língua convulsiva que dança como uma naja em minha boca, a sua prisão. Afinal, eu não digo nada que não se volte para esse mesmo nada. De fato eu me tornei, eu mesmo, um vão e não faço mais que procurar reencontrar o substrato que cole, em forma de poesia talvez, a minha própria inverdade, o espaço entre eu e eu mesmo, entre eu e você, entre você e você. E se lhe entrego esta carta, não o faço tanto pelas palavras, mas pelo tecido de nada que as une.”
T.R.
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Recaída
Estou olhando atentamente as letras à minha frente. Procuro uma forma de dispor as palavras para contar os dias que passo, que ando, que erijo e deixo para trás. Letras que amontoadas em fonemas falem disso que me escapa e só me escapa.
Dia atrás, ainda sem entender o princípio ativo das minhas angústias tanto quanto da força que me brota um sorriso na face - este sorriso resignado dos perdedores que antes ganham açoites de força mental – chorei, chorei baixinho escondida na viagem de uma noite. Porém, é hoje onde acordo sorrindo, bradando meu still.
A viagem do dia que fui e cheguei de ônibus foi um desastre. Saltei no próximo ponto, depois que a chave caiu, quase caí eu na curva, esbarrei em pessoas com minha mochila. Mas isso tudo acontece de vez em quando e não teria sido tudo tão flagrante se eu não estivesse tão incomodada com aquele homem feio, com aquelas mãozinhas gordas de dedinhos de criança boiando nos gestos, ele com aqueles dentes horrendos mordendo o ar, aqueles cílios de mocinha. Tinha de pegar justamente o mesmo ônibus que eu. Paúra dele. Eu soube esquivar-me.
Ou seja, ando desviada. Mais do que minhas loucuras gastronômicas de dias sábado ou domingo, é minha necessidade de fome a minha droga. A despeito de qualquer filtro de cigarro e preocupações tão adultas, é no primeiro ônibus que vou. Vou receber amigos queridos na casa minha vou passar a noite acordada e concentrada em tantos nomes colados na história. Queria ouvir uma música, qual seria? A música do vento no ouvido, forte e branca me diz ‘sobe, sobe...’ vá, voe longe, na vida, na morte, no amor, no que quiser, pense pense.
Tantos textos quis escrever: na mente as frases vinham magnéticas até os olhos, até a boca, se crês, mas não às pontas dos dedos, pois estes, só podiam agora com as cordas, uma vez que superado o flerte com os pincéis sabe-se lá até quando. Tanta temperança, tanto vermelho e roxo, tanta subida dos morros uivantes dessa cidade, com seus sinos, seus mensageiros do vento, seus tapetes e a promessa da minha paixão silenciosa, preciosa como um cálido segredo de menina, o mais puro sonho e a mais tênue segurança de estar vivo.
Eu posso acabar; foi aqui que não parei, foi o ponto que pulei. Nas noites outras, quem se cala sou eu, com as outras pessoas. Inevitável, elas nos vêem e nos vêem departed, um do outro.
Há quase um mês, é minha jogada. Who’s the tough Guy? Who is it? I am the tough guy. Quero me enroscar em sorrisos, em pensamentos suculentos, sustentar-me leve, levar-me da neve, ascender, esquecer e novamente sorrir. Lavar a boca da saudade que me cobre de olhar ao longe. Da recaída que hoje já me foi, sobrou apenas esta spruch:
Guten Morgen, Sonnenschein...
Dia atrás, ainda sem entender o princípio ativo das minhas angústias tanto quanto da força que me brota um sorriso na face - este sorriso resignado dos perdedores que antes ganham açoites de força mental – chorei, chorei baixinho escondida na viagem de uma noite. Porém, é hoje onde acordo sorrindo, bradando meu still.
A viagem do dia que fui e cheguei de ônibus foi um desastre. Saltei no próximo ponto, depois que a chave caiu, quase caí eu na curva, esbarrei em pessoas com minha mochila. Mas isso tudo acontece de vez em quando e não teria sido tudo tão flagrante se eu não estivesse tão incomodada com aquele homem feio, com aquelas mãozinhas gordas de dedinhos de criança boiando nos gestos, ele com aqueles dentes horrendos mordendo o ar, aqueles cílios de mocinha. Tinha de pegar justamente o mesmo ônibus que eu. Paúra dele. Eu soube esquivar-me.
Ou seja, ando desviada. Mais do que minhas loucuras gastronômicas de dias sábado ou domingo, é minha necessidade de fome a minha droga. A despeito de qualquer filtro de cigarro e preocupações tão adultas, é no primeiro ônibus que vou. Vou receber amigos queridos na casa minha vou passar a noite acordada e concentrada em tantos nomes colados na história. Queria ouvir uma música, qual seria? A música do vento no ouvido, forte e branca me diz ‘sobe, sobe...’ vá, voe longe, na vida, na morte, no amor, no que quiser, pense pense.
Tantos textos quis escrever: na mente as frases vinham magnéticas até os olhos, até a boca, se crês, mas não às pontas dos dedos, pois estes, só podiam agora com as cordas, uma vez que superado o flerte com os pincéis sabe-se lá até quando. Tanta temperança, tanto vermelho e roxo, tanta subida dos morros uivantes dessa cidade, com seus sinos, seus mensageiros do vento, seus tapetes e a promessa da minha paixão silenciosa, preciosa como um cálido segredo de menina, o mais puro sonho e a mais tênue segurança de estar vivo.
Eu posso acabar; foi aqui que não parei, foi o ponto que pulei. Nas noites outras, quem se cala sou eu, com as outras pessoas. Inevitável, elas nos vêem e nos vêem departed, um do outro.
Há quase um mês, é minha jogada. Who’s the tough Guy? Who is it? I am the tough guy. Quero me enroscar em sorrisos, em pensamentos suculentos, sustentar-me leve, levar-me da neve, ascender, esquecer e novamente sorrir. Lavar a boca da saudade que me cobre de olhar ao longe. Da recaída que hoje já me foi, sobrou apenas esta spruch:
Guten Morgen, Sonnenschein...
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
domingo, 12 de setembro de 2010
Sprich auch du,
sprich als letzter,
sag deinen Spruch.
Sprich –
Doch scheide das Nein nicht vom Ja.
Gib deinem Spruch auch den Sinn:
gib ihm den Schatten.
Gib ihm Schatten genug,
gib ihm so viel,
als du um dich verteilt weißt zwischen
Mittnacht und Mittag und Mittnacht.
Blicke umher:
sieh, wie's lebendig wird rings –
Beim Tode! Lebendig!
Wahr spricht, wer Schatten spricht.
Nun aber schrumpft der Ort, wo du stehst:
Wohin jetzt, Schattenentblößter, wohin?
Steige. Taste empor.
Dünner wirst du, unkenntlicher, feiner!
Feiner: ein Faden,
an dem er herabwill, der Stern:
um unten zu schwimmen, unten,
wo er sich schimmern sieht: in der Dünung
wandernder Worte.
P.C.
sprich als letzter,
sag deinen Spruch.
Sprich –
Doch scheide das Nein nicht vom Ja.
Gib deinem Spruch auch den Sinn:
gib ihm den Schatten.
Gib ihm Schatten genug,
gib ihm so viel,
als du um dich verteilt weißt zwischen
Mittnacht und Mittag und Mittnacht.
Blicke umher:
sieh, wie's lebendig wird rings –
Beim Tode! Lebendig!
Wahr spricht, wer Schatten spricht.
Nun aber schrumpft der Ort, wo du stehst:
Wohin jetzt, Schattenentblößter, wohin?
Steige. Taste empor.
Dünner wirst du, unkenntlicher, feiner!
Feiner: ein Faden,
an dem er herabwill, der Stern:
um unten zu schwimmen, unten,
wo er sich schimmern sieht: in der Dünung
wandernder Worte.
P.C.
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
Grandes Mestres...
Me gustas cuando callas porque estás como ausente,
y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.
Parece que los ojos se te hubieran volado
y parece que un beso te cerrara la boca.
Como todas las cosas están llenas de mi alma
emerges de las cosas, llena del alma mía.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
y te pareces a la palabra melancolía.
Me gustas cuando callas y estás como distante.
Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
déjame que me calle con el silencio tuyo.
Déjame que te hable también con tu silencio
claro como una lámpara, simple como un anillo.
Eres como la noche, callada y constelada.
Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.
Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto.
P.N.
y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.
Parece que los ojos se te hubieran volado
y parece que un beso te cerrara la boca.
Como todas las cosas están llenas de mi alma
emerges de las cosas, llena del alma mía.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
y te pareces a la palabra melancolía.
Me gustas cuando callas y estás como distante.
Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
déjame que me calle con el silencio tuyo.
Déjame que te hable también con tu silencio
claro como una lámpara, simple como un anillo.
Eres como la noche, callada y constelada.
Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.
Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto.
P.N.
Le Confiteor de L'artiste
Que les fins de journées d'automne sont pénétrantes ! Ah ! pénétrantes jusqu'à la douleur ! car il est de certaines sensations délicieuses dont le vague n'exclut pas l'intensité ; et il n'est pas de pointe plus acérée que celle de l'Infini.
Grand délice que celui de noyer son regard dans l'immensité du ciel et de la mer ! Solitude, silence, incomparable chasteté de l'azur ! une petite voile frissonnante à l'horizon, et qui par sa petitesse et son isolement imite mon irrémédiable existence, mélodie monotone de la houle, toutes ces choses pensent par moi, ou je pense par elles (car dans la grandeur de la rêverie, le moi se perd vite !) ; elles pensent, dis-je, mais musicalement et pittoresquement, sans arguties, sans syllogismes, sans déductions.
Toutefois, ces pensées, qu'elles sortent de moi ou s'élancent des choses, deviennent bientôt trop intenses. L'énergie dans la volupté crée un malaise et une souffrance positive. Mes nerfs trop tendus ne donnent plus que des vibrations criardes et douloureuses.
Et maintenant la profondeur du ciel me consterne ; sa limpidité m'exaspère. L'insensibilité de la mer, l'immuabilité du spectacle me révoltent... Ah ! faut-il éternellement souffrir, ou fuir éternellement le beau ? Nature, enchanteresse sans pitié, rivale toujours victorieuse, laisse-moi ! Cesse de tenter mes désirs et mon orgueil ! L'étude du beau est un duel où l'artiste crie de frayeur avant d'être vaincu.
C.B.
Grand délice que celui de noyer son regard dans l'immensité du ciel et de la mer ! Solitude, silence, incomparable chasteté de l'azur ! une petite voile frissonnante à l'horizon, et qui par sa petitesse et son isolement imite mon irrémédiable existence, mélodie monotone de la houle, toutes ces choses pensent par moi, ou je pense par elles (car dans la grandeur de la rêverie, le moi se perd vite !) ; elles pensent, dis-je, mais musicalement et pittoresquement, sans arguties, sans syllogismes, sans déductions.
Toutefois, ces pensées, qu'elles sortent de moi ou s'élancent des choses, deviennent bientôt trop intenses. L'énergie dans la volupté crée un malaise et une souffrance positive. Mes nerfs trop tendus ne donnent plus que des vibrations criardes et douloureuses.
Et maintenant la profondeur du ciel me consterne ; sa limpidité m'exaspère. L'insensibilité de la mer, l'immuabilité du spectacle me révoltent... Ah ! faut-il éternellement souffrir, ou fuir éternellement le beau ? Nature, enchanteresse sans pitié, rivale toujours victorieuse, laisse-moi ! Cesse de tenter mes désirs et mon orgueil ! L'étude du beau est un duel où l'artiste crie de frayeur avant d'être vaincu.
C.B.
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Caso Perdido
Hoje, vou começar assim:
Estive pilar demais. Cedo ou tarde ruiria. Nas linhas que andei escrevendo, uma maturidade lacônica faz-se véu encobrindo um mar revolto-revoltíssimo azul marinho na noite mais que negra. Água mole em pedra dura. Cedo ou tarde ruiria. Simplesmente às vezes penso que não vou continuar e simplesmente continuo não pensando ou pensando demais no que não deveria sendo que não deveria pensar em dever ou sequer continuar devendo. Quando sou assim tão pilar as frases me são curtas e claras, a dor que as precede ou acompanha, não sei bem, já saiu de seu estado sólido para um gás de memória, avizinhando o entendimento, a compreensão. E assim tão pilar, sustento meu mundo, garanto a ordem cósmica da minha falta de respostas, iludo-me onde tudo se encaixa. Estou ... nenhuma imagem me vem a cabeça para explicar, por onde passo os olhos o choque de nunca tocar nada é tão violento, perco-me, perco tudo, perco todos, perco o rumo. Minhas mãos atravessam as paredes, e do pilar só me sobra o espectro. De repente eu poderia perfeitamente não existir e me pergunto que tipo de pensamento é esse que se pode ter. Ou ser. As palavras me proíbem de dizê-las porque tenho medo, de mais uma vez, mais um osso deixado para trás, espatifar as palavras no nada, esse, que nos enlaça. E agora, como toda hora, exercito a verdade em mim mesma, admito, assumo, visto minha camisa, faço campanha de mim para mim mesma, abstenho-me de me reprimir, de me recalcar, seja qual for a expressão, mas é no giro, é na volta, ou, é no ir, que é 'dilacerar'. Que me põe pirracenta, de olhos chorosos, querendo me adiantar, perguntar duma vez e falar também, porém, antes eu não tivesse já caído, antes eu soubesse esquecer, antes eu não me roubasse todo o tempo em nome dos meus pares, todos eles tão loucos quanto eu. Eu não quero nada com nada.
Estive pilar demais. Cedo ou tarde ruiria. Nas linhas que andei escrevendo, uma maturidade lacônica faz-se véu encobrindo um mar revolto-revoltíssimo azul marinho na noite mais que negra. Água mole em pedra dura. Cedo ou tarde ruiria. Simplesmente às vezes penso que não vou continuar e simplesmente continuo não pensando ou pensando demais no que não deveria sendo que não deveria pensar em dever ou sequer continuar devendo. Quando sou assim tão pilar as frases me são curtas e claras, a dor que as precede ou acompanha, não sei bem, já saiu de seu estado sólido para um gás de memória, avizinhando o entendimento, a compreensão. E assim tão pilar, sustento meu mundo, garanto a ordem cósmica da minha falta de respostas, iludo-me onde tudo se encaixa. Estou ... nenhuma imagem me vem a cabeça para explicar, por onde passo os olhos o choque de nunca tocar nada é tão violento, perco-me, perco tudo, perco todos, perco o rumo. Minhas mãos atravessam as paredes, e do pilar só me sobra o espectro. De repente eu poderia perfeitamente não existir e me pergunto que tipo de pensamento é esse que se pode ter. Ou ser. As palavras me proíbem de dizê-las porque tenho medo, de mais uma vez, mais um osso deixado para trás, espatifar as palavras no nada, esse, que nos enlaça. E agora, como toda hora, exercito a verdade em mim mesma, admito, assumo, visto minha camisa, faço campanha de mim para mim mesma, abstenho-me de me reprimir, de me recalcar, seja qual for a expressão, mas é no giro, é na volta, ou, é no ir, que é 'dilacerar'. Que me põe pirracenta, de olhos chorosos, querendo me adiantar, perguntar duma vez e falar também, porém, antes eu não tivesse já caído, antes eu soubesse esquecer, antes eu não me roubasse todo o tempo em nome dos meus pares, todos eles tão loucos quanto eu. Eu não quero nada com nada.
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
Desejos são Buracos Negros
Deitada sobre o ombro do pai, ela, a criança revela no olhar o desejo de chupar a chupeta e regalar-se no afago. De chofre espevita-se como desejo de cair do colo e fala como pode do cão que passa. O desejo é o cão. Abre a roda o desejo dançando no bico do carcará, o desejo pega-pega, mata-mata e come-come. O desejo quer possuir, quer banhar devagar, brincando assim, o desejo estica e puxa o chiclete na mão da criança. Desejo volta para a boca.
Desejo que te quer aparecer, o desejo parece você. Desejo de correr os dedos nas teclas e desenhar você. Desejo que move passos, marca o tempo da minha tormenta, fermento na massa do bolo que assa. Desejo que fala sozinho. Anda sozinho. Dança sozinho. Desejo vê chegar e sente o cheiro. Toma nota de palavras como pode.
Na ida quase me passou despercebido aquele enorme representante da espécie esperança. Esperança robusta, aquela verde. Na volta tocava uma banda que marchei, militando minha saudade, sorrindo de desejo. Desejo de amanhã deseja agora mesmo. Desejo instrumento de cordas e percussão, chichicadum no coração. Golpes de desejo multiplicam e rodopiam o eixo, emudecem o texto que fala como pode. Desejo a terra que suga o sangue. Portal aberto é o desejo. É você que veio.
Desejo que te quer aparecer, o desejo parece você. Desejo de correr os dedos nas teclas e desenhar você. Desejo que move passos, marca o tempo da minha tormenta, fermento na massa do bolo que assa. Desejo que fala sozinho. Anda sozinho. Dança sozinho. Desejo vê chegar e sente o cheiro. Toma nota de palavras como pode.
Na ida quase me passou despercebido aquele enorme representante da espécie esperança. Esperança robusta, aquela verde. Na volta tocava uma banda que marchei, militando minha saudade, sorrindo de desejo. Desejo de amanhã deseja agora mesmo. Desejo instrumento de cordas e percussão, chichicadum no coração. Golpes de desejo multiplicam e rodopiam o eixo, emudecem o texto que fala como pode. Desejo a terra que suga o sangue. Portal aberto é o desejo. É você que veio.
domingo, 5 de setembro de 2010
Astigmatismo sexual
Nos últimos dias senti que enfim farejava a trilha da nova inspiração. Senti que meus olhos conseguiam finalmente perceber outros pontos de luz além da lua no céu noir. Porque essa lua rege minhas marés, ora me zomba, ora me enfeitiça, exibe-se para mim, e depois, depois se esconde, me deixa a procurar seu contorno.
Óculos para ver que as estrelas são muitas e que suas luzes são bastante singulares - tão menos difusas do que tenta me convencer a deficiência visual – e que também essas estrelas encontram-se comigo em alinhamento.
Pois bem. Deixei-me levar por uma estrela, permiti que seus raios se lançassem sobre mim com lascívia e quis mesmo inundar-me de seu brilho. Marquei sua posição no céu para voltar a ter com ela, e voltei. Tal qual a primeira vez em que a vi, admirei longamente seu brilho e aos poucos fui caminhando de encontro a ela, dando voltas até que lhe ouvisse os sons. O calor provocado por uma estrela, o leitor deve imaginar, derrete a vela dos pudores, e assim, enfiei-me a sorver com a língua todo raio de luz que de seu centro vinha para abalar a calma das minhas terras cercadas. Queimei-me e queria-o, porém era como se tivesse esquecido que queimar-se dói. Tinha me esquecido das bolhas morais da queimadura de terceiro grau. E terceiro grau? Talvez grau maior, grau de distância, esqueci que uma estrela não se pode tocar. Não eu com minhas cólicas intelectuais, com meus cistos traumáticos e com meus ideais solares e sonhos lunáticos. Essas estrelas continuam lá longe pregadas no céu aguardando a própria morte tão alheias a mim quanto eu a elas, mas são belas. Estrela da minha vida, talvez o sol, mas este sim, este me mata. Amarelo esmagador do meu corpo prometido.
Enquanto o sol não vem e as estrelas me chateiam e me borram a excitação, a lua continua soberana no redondo de seu conteúdo obscuro tão astro no céu como um rei. Porque o sol a veste dama da noite de deserto sem limite de areias brancas; no clarão dela fechei os olhos convictos da inutilidade das lentes e certo choro de cratera me escorreu pesadamente pelos cílios em contemplação assombrosa às goteiras de conformidade ao que não tem nome e é tão simplesmente abismal.
Tanto melhor se amanhã é dia e minhas vontades pulsarão em melanina sob o sol lembrando-me que toda noite tem um fim no pôr da lua. As estrelas rasgos-lá-no-céu são para os navegantes e os amantes de primeira viagem, e eu, estou evaporando no lusco-fusco da razão, entre a virilidade do sol que toca como sequer se pode suportar e a lua que me usa os olhos de títeres sobre si provocando as mais remotas fantasias dos beijos cravados em seu lado negro sem tempestades.
No presente texto o remorso oculta-se sob a face dos adjetivos de minha juventude, de minha casta ignorância. Debalde sufoco-a por minha pieguice poética e te quero, lua, emerges ainda imaculada de toda lúgubre perversão. E que me perdoem as estrelas por meu querer sádico em tomá-las. Apenas arrisco-me para arruiná-las, convertê-las em meus buracos negros, doce na boca minha de palavras ingratas.
Óculos para ver que as estrelas são muitas e que suas luzes são bastante singulares - tão menos difusas do que tenta me convencer a deficiência visual – e que também essas estrelas encontram-se comigo em alinhamento.
Pois bem. Deixei-me levar por uma estrela, permiti que seus raios se lançassem sobre mim com lascívia e quis mesmo inundar-me de seu brilho. Marquei sua posição no céu para voltar a ter com ela, e voltei. Tal qual a primeira vez em que a vi, admirei longamente seu brilho e aos poucos fui caminhando de encontro a ela, dando voltas até que lhe ouvisse os sons. O calor provocado por uma estrela, o leitor deve imaginar, derrete a vela dos pudores, e assim, enfiei-me a sorver com a língua todo raio de luz que de seu centro vinha para abalar a calma das minhas terras cercadas. Queimei-me e queria-o, porém era como se tivesse esquecido que queimar-se dói. Tinha me esquecido das bolhas morais da queimadura de terceiro grau. E terceiro grau? Talvez grau maior, grau de distância, esqueci que uma estrela não se pode tocar. Não eu com minhas cólicas intelectuais, com meus cistos traumáticos e com meus ideais solares e sonhos lunáticos. Essas estrelas continuam lá longe pregadas no céu aguardando a própria morte tão alheias a mim quanto eu a elas, mas são belas. Estrela da minha vida, talvez o sol, mas este sim, este me mata. Amarelo esmagador do meu corpo prometido.
Enquanto o sol não vem e as estrelas me chateiam e me borram a excitação, a lua continua soberana no redondo de seu conteúdo obscuro tão astro no céu como um rei. Porque o sol a veste dama da noite de deserto sem limite de areias brancas; no clarão dela fechei os olhos convictos da inutilidade das lentes e certo choro de cratera me escorreu pesadamente pelos cílios em contemplação assombrosa às goteiras de conformidade ao que não tem nome e é tão simplesmente abismal.
Tanto melhor se amanhã é dia e minhas vontades pulsarão em melanina sob o sol lembrando-me que toda noite tem um fim no pôr da lua. As estrelas rasgos-lá-no-céu são para os navegantes e os amantes de primeira viagem, e eu, estou evaporando no lusco-fusco da razão, entre a virilidade do sol que toca como sequer se pode suportar e a lua que me usa os olhos de títeres sobre si provocando as mais remotas fantasias dos beijos cravados em seu lado negro sem tempestades.
No presente texto o remorso oculta-se sob a face dos adjetivos de minha juventude, de minha casta ignorância. Debalde sufoco-a por minha pieguice poética e te quero, lua, emerges ainda imaculada de toda lúgubre perversão. E que me perdoem as estrelas por meu querer sádico em tomá-las. Apenas arrisco-me para arruiná-las, convertê-las em meus buracos negros, doce na boca minha de palavras ingratas.
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Eu assim correndo o poema correndo porque
[ele me sai
Eu morrendo o poema meu movimento
[de resistência
Eu cega cada vez mais
da folha branca sob as palavras meus olhos
[s a l t a m a n é v o a]
Eu cega
Eu perigo
--------------------------------------E tu correste?
Eu perigando o poema
Receio
Que te perdi os olhos
Encruzilhada nossa
[ele me sai
Eu morrendo o poema meu movimento
[de resistência
Eu cega cada vez mais
da folha branca sob as palavras meus olhos
[s a l t a m a n é v o a]
Eu cega
Eu perigo
--------------------------------------E tu correste?
Eu perigando o poema
Receio
Que te perdi os olhos
Encruzilhada nossa
Dentre tantos brinquedos
Você me escolhe justo o de doer
As lágrimas me saquearam a voz
Suspiro.
Teu antemão por meu exílio
Senti-me traça sobre o livro
Bicho repugnante que devora páginas
Não se pensa duas vezes antes de esmagar
Tocada pela calidez do sol
Que o vento quase frio vem temperar
Neste dia, quando sob o céu de opressiva solidez
O pesar carrega minha face.
Você me escolhe justo o de doer
As lágrimas me saquearam a voz
Suspiro.
Teu antemão por meu exílio
Senti-me traça sobre o livro
Bicho repugnante que devora páginas
Não se pensa duas vezes antes de esmagar
Tocada pela calidez do sol
Que o vento quase frio vem temperar
Neste dia, quando sob o céu de opressiva solidez
O pesar carrega minha face.
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
Experiências culinêuticas
Tabuleiro untado
branquinho como nuvem
olho no forno
hora cheirando a casa toda
bolo no sereno
para desenformar inteiro
branquinho como nuvem
olho no forno
hora cheirando a casa toda
bolo no sereno
para desenformar inteiro
O Miguel [ou Avec les Yeux Pleins de Larmes]
(Esta postagem dedico a Wantouile, que conheceu o Miguel...)
Quando me lembrei do Miguel me foi tão bom. O Miguel cabe na boca. Muito bom pensar e pronunciar o Miguel. Quando lembrei o Miguel, justamente dali um tempo conheci o Miguel. Homem que era como eu sonhava e seu nome: o Miguel.
O Miguel era o outro. Quem diria que um dia, por um capricho da vida nos encontraríamos frente a frente conversando, como fizemos jovens; naquele tempo. Eu perguntaria se teve filhos. O Miguel está velho, mas eu não consigo imaginar. Estamos na mesma sala dantes, nas mesmas poltronas. Eu não envelheci: em meu olhar continuo a amá-lo. Ora, estivemos longe e ele talvez não tenha tido saudade. Nunca mais nos encontramos.
O Miguel nasceu quando sua mãe tinha vinte e um anos. Ela foi abandonada no cartório pelo pai do Miguel. Seu pai ensinou ao Miguel tudo o que ele aprendeu. O Miguel buscava, sob o olhar dos outros, onde é que eles estavam e o que estavam olhando? O que você vê em mim, era o que o Miguel balbuciava. Os rostos para o Miguel eram borrões, porém mais próximos eram-lhe inexpressivos. O Miguel não podia entendê-los.
Naquele tempo o Miguel tentava. Hoje, nessa eternidade, construiu uma fortaleza. As paixões tolas lhe tomavam muito tempo e lhe serviam bem; mas no céu há tanto nada, que o Miguel quis abandoná-las. Todas. De uma vez por todas.
É claro que isso entristeceu o coração do Miguel. Mas ele é tão ridículo que não chorou. Nem sorriu. Nem. Isso foi bom, ele achou. Chegou mesmo a se sentir forte. Como se notasse que ainda era dotado de certo vigor. Porque já se subestimara muito e olhava a si próprio agora, bem de cima; dizia-se: é isso? Deixava as pálpebras baixas, o olhar tomado de desprezo.
Ah, o Miguel. É o único jeito. Ele achava que devia haver um meio de ser outro, Outro o Miguel, que não, nunca mais, fosse como ele. Pois para o Miguel certas coisas são insuportáveis. E o Miguel (m)sorria um pouco mais de cigarro em cigarro, cedendo a caprichos, seus e dela.
Aquela menina, o Miguel havia decidido esquecer. Pensava nas suas palavras e no quanto ele a incomodava. Ela já lhe pedira várias vezes que a deixasse e ele entendia. O que ela não poderia entender, é que ele não conseguia. O Miguel era estupidamente feliz ao seu lado. Às vezes ele se conformava com o fato de que ela talvez não pudesse amar. Eu nunca disse a ele o segredo dela. É que ela já se ocupava de amar outro homem, o qual o Miguel também já amava, mesmo que só pudesse imaginar o quê naquele homem ela amava.
O Miguel é o nome do meu filho. O Miguel e eu sempre uma dupla de mãe e filho. O Miguel me salvou e eu vi minhas amigas tendo filhos que reencontrei depois que já tinham vinte anos. O Miguel não sai da minha cabeça. Sempre que o procuro ele me recebe. Ele é lindo. Coitado do Miguel, ele está cansado. Eu também, o Miguel, estou tão cansada. Eu faria tudo diferente. Eu te odeio, o Miguel.
Ter de esquecer o Miguel não foi agradável, porque o Miguel não se esquece. Quando me lembrei do Miguel é que me dei conta de que já o tinha esquecido.
Depois daquela hora, quase de tarde, passaram-se outras horas, dias, semanas, meses e anos. Uns vinte e poucos. Como fui me lembrar dele?
O Miguel era um qualquer, como qualquer outro, não tinha nada demais, não despertava grandes paixões. Como algumas pessoas são especiais... vez por outra não conseguia ficar sozinho então entregava-se à gula das vontades como que por legitimar sua mesquinhez e sua covardia. Mas ele sabia que não funcionava. Há momentos, disse-me o Miguel, em que é preciso interferir. Porém , tamanho é o poder de interferir que tenho e maior ele se torna a cada vez em que o emprego, que viro um bárbaro. De repente estou a disparar inconseqüentemente, tomado pelo deslumbre dos alvos. Apaixonado. Refrear até uma gélida parada é calar muita coisa, pois se fala cada besteira... Ainda bem que não as fazemos todas, eu lhe respondi.
Hoje o Miguel não virá mais ao meu encontro. Também porque o Miguel jamais me procurou. Ah! O Miguel! Eu estou tão apaixonada por você! Como eu estou apaixonada por você. Estou morta de amor. Esse homem me enlouquece. Então está tudo bem. Passará, logo, eu penso.
O Miguel tem o poder de desaparecer. Conquanto que nunca se tenha lembrado, o Miguel se esquece. Há vez que pego o Miguel pensativo. Eu errei e erro sempre com o Miguel. Eu o namorei, sim por um tempo. Nos beijamos uma única vez. A boca do Miguel.
Já cheguei a pensar que o Miguel era eu, ou eu o era. Engraçado isso. Um dia eu me virei e ele me olhava. Um dia pensei: para o Miguel aquela menina era o que via e só queria ver se fosse além dela. Impossível. Porque era só eu que estava ali. Só eu, o Miguel, desculpe-me.
Quando o Miguel finalmente foi embora, eu queria ir com ele. Mas claro que não fui. Eu trabalhava como dubladora de filmes. Muitos europeus e alguns latinos. Por isso narro do Miguel, sua vida era um filme. O Miguel sempre foi muito inteligente. Ele inclusive tentara suicidar-se uma vez. Às vezes eram mulheres, noutras homens. Nouvelle Vague para Denise, Otto para o Lucas e assim sucessivamente. Depois Otto nunca mais por ninguém, só pelo Miguel alto mesmo.
Os dias para o Miguel eram arrastados pelas tantas coisas a fazer e ao despertar já passara tudo, todos os dias, tão rápido. O Miguel parecia que podia ser beijado a qualquer momento. Mas ninguém jamais ousaria.
O Miguel não parece tão velho. Ele já era assim quando éramos jovens, naquele tempo em que nada tínhamos a perder e nada queríamos fazer. Nos divertíamos em vão, com tantas pessoas, histórias de cada noite.
Ele se esforçou muito para ser quem é hoje. O Miguel conseguiu, eu acho. Mas ele não fala sobre isso. Quando leio as cartas do Miguel eu o reconheço. Percebo que nos encontramos num deserto e entre nós há somente o deserto. O Miguel acha isso. Eu acho isso bonito.
Quando o Miguel nascer eu nem vou acreditar. Será mesmo possível que tenhamos sido feitos uma para o outro? Sempre somos feitos para o outro – ele me disse num domingo a tarde. Dias antes esteve em presença do homem que aquela menina amava. Ele nunca tinha amado tanto outro homem na vida. Estava sereno na hora da morte.
O Miguel era de ficar horas calado, em choque com a profundeza dos seus pensamentos. Não adiantava ninguém falar com o Miguel. Ele ouvia muito bem. O Miguel no sol, o Miguel caminha, o Miguel encontra tantos conhecidos, leva uma prosa. Sozinho, fala consigo sobre isso.
Eu queria falar umas coisas com o Miguel. Eu até falei muitas. É que ele sempre parecia não lembrar de mim. Quando eu me lembrei do Miguel, era hora de sair. Eu sempre acabo falando do Miguel.
O Miguel, onde é que você está agora? Você pode me ouvir? Você teve filhos? Com ela? Eu gostaria que o Miguel lesse todos os meus papéis. É por causa dele que temo sempre me deparar no espelho. O Miguel, eu estive doente. Você está me matando. Mas você me disse que o faria.
Somos tão diferentes, o Miguel e eu. Eu o observo pelos cantos dos olhos, tento flagrá-lo. Mas o Miguel é tanto mais. Já tive pena dele porque ele não me amou. Pena eu não conseguir ser o que você esperava. Porque você nunca espera nada. Eu espero, o Miguel. Já te contei que vou ser professora, que não vou ter filhos, que serei feliz quando da velhice, quando eu o vir daqui uns vinte e poucos anos. A minha mãe já é falecida, acho que também já lhe falei sobre isso. Espero que você goste do que lê. Do que foi meu um dia será seu ainda depois da minha morte.
O Miguel já quis o mundo. Tinha dia que era muito ao alcance das mãos. O Miguel sempre riu dos bêbados; riu de si quando descobriu que procurava a verdade. Parou de rir assim que entendeu que a queria sempre. Um espírito admirável, esse Miguel. Quando começa não pára mais. Eu tenho inveja dele e uma vez lhe falei, talvez até mais de uma só que com outras palavras. E o Miguel permaneceu indiferente. Muitas coisas eu lhe falei às quais ele se manteve indiferente. Ele mente para mim o tempo todo. O monstro que ele é, o Miguel não quer que eu veja. Nem mais ninguém. E uma coisa ele me disse com muito orgulho: que era um egoísta. No fundo, o Miguel sempre soube o quanto eu o amava. A quem ele amava sei que foi muito. É muito de um jeito que parece não ter fim.
Sonho com o dia em que nos conheceremos e eu saberei imediatamente que é você, o Miguel. Mon petit diable qui est doux. Isso eu nunca lhe disse. Quando estava para dizer, entendi o olhar de quem não queria ouvir. É que parece que toda aminha vida eu lhe posso contar. Ouvir-me é como se me amasse ou ao menos pudesse.
Foi o Miguel quem abriu a porta pela primeira vez. Agora, se eu vou embora, não é que eu queira, foi o Miguel quem me pediu. O grande amor do Miguel é também o meu grande amor. Quando eu era menina o Miguel me disse que por amor se sofre e que é melhor não falar. Pode-se, no entanto, correr.
Pergunto-me se o Miguel se lembra daquela canção. Toda vez que eu saia ele podia dobrar uma esquina, a qualquer momento. Ele me visitava quando éramos jovens. Conversávamos sobre muitas coisas sérias e dele dependia o meu humor. Ele fingia não saber.
Mas com o Miguel tudo era diferente... é verdade, ele já tentou, entretanto, essas coisas com mulher são muito enfadonhas para o Miguel. É que ele era meu amigo. O Miguel morreu sem me dizer isso. Já perguntei para outras pessoas se ele já lhes contou que era meu amigo. Ele não conversa muito com outras pessoas. Conversa um pouco comigo e muito com ela e com ele, já há anos. Eu também quero passar muitos anos com o Miguel, quero estar lá quando for a hora de chorar. Mas pode ser que não seja eu. O Miguel ganha sempre muitos encontros, embora dificilmente ele os aceite, uma vez que um encontro pode ser um grande transtorno.
Combinamos, o Miguel e eu, de sairmos para uma longa viagem no mundo da lua. Quando chegarmos lá vamos nos divertir como não pudemos por muito tempo. O Miguel me faz bem às vezes.
Se ele sente alguma dor, nunca se sabe. Quando ele diz que dói, não parece, mas acho que ele sabe o que diz. Sempre. Até sem palavras. Só o Miguel gosta das coisas que escrevo. O que escrevo não sou eu, por isso que ele gosta. Ele disse que não queria me ver nunca mais enquanto eu chorava em silêncio e aparentava sorrir compreensiva. Quando ele me acordava era bom, era dia, e não nos lembrávamos de nada na noite anterior. Acho que não pensávamos quando éramos jovens, apenas estávamos lá.
Eu me precipitava mas ele era paciente. Outras mulheres amavam o Miguel. O Miguel atravessa os pensamentos, eu entendo. Pode ser que ele apareça e eu terei que fingir que não me importo. Na verdade sempre fiz isso, não é nenhuma novidade. E o Miguel nunca acreditou em novidades. O Miguel não acreditava em muitas coisas. Eu mesma passei a desacreditar na vida. Nesse dia, sequer pudemos nos encarar.
O Miguel, quando eu era jovem, eu sonhava muito com você. Eu nunca mais sonhei e meus sonhos já são muito velhos. O Miguel guardava de mim seus sonhos. Eu nunca fui digna de conhecê-los.
Era o corpo do Miguel sob o lençol. Era o não-querer. O amante que jaz impotente perguntando-se o que dele se pode ambicionar. Eram as luzes difusas sobre o Miguel. Ele não parecia daqui. Estava sempre tão longe o Miguel, desde menino, como eu. Te quero, o Miguel, com uma flor na orelha. Te quero como se pode esquecer, como poesia que não se memoriza. Eu nunca na sua memória, assim, nem feliz, nem infeliz.
Tudo o que eu disse aquela noite era isso mesmo. Entretanto, nada do que eu disse importa. Eu sei. O Miguel às vezes escreve como eu. Só assim soube que ele sabia que eu existia.houve muitos momentos em que o aborreci, ele é de muita sensibilidade.
Não vale a pena conhecer o Miguel. Ele é certeiro e nada há que perdure depois dele. Nem palavras, nem eu mesma. Nenhum sentimento ou desejo. E falando do Miguel, nenhuma razão, nenhuma argumento, nenhuma desculpa, nem os planos, nem mesmo a fome.
O Miguel foi forca na minha vida de lobo em pele de cordeiro.
O Miguel se despediu de mim sem pesar. Ele não via a hora. Eu já tinha acabado para ele, já tinha sido suficiente. Das segundas às sextas eu pensava nele e nos fins de semana eu só queria dormir, inteiros o sábado e o domingo. Assim eu podia estar calma, sem dores de estômago. Deitada no peito do Miguel eu me esvaziava. Eu era silêncio e o Miguel era uma interrogação. Quando o tinha em meu colo, tinha medo até de respirar, não queria acordá-lo. E depois ele sumia, ia assistir a um filme com ela, quem sabe. Um dia cheguei em sua casa e eles estavam na sala. Tomavam café e riam felizes um em companhia do outro. Ela disse que eu podia ficar ali. Eu agradeci e sentei-me quieta num canto a amá-los. Ela era tão suave e todas as coisas que dizia eram dignas de nota. Nesse dia eu enganei as horas e desmanchei os compromissos. Sabe que o Miguel nem me viu entrar? Eu senti um alívio porque o Miguel a amava. Ela entende tudo, sabe como as coisas acontecem. O Miguel só existia por causa dela e só ela existia para ele, dentre todas as outras. Ela era linda. Ela é inesquecível para o Miguel e para mim. O dia em que a beijei foi o mais triste da minha vida. Desde então eu não era mais jovem e nunca mais seria. Aquela menina, as músicas que ela ouvia, as suas belas mãos. Dificilmente se viu alguém tão perfeita, pois ela era perfeita para o Miguel. Ele mesmo me disse e desejou-me sorte.
O Miguel sempre me quis livre. Ele é a lua que surge de dia, que à noite é encoberta pelas nuvens. A noite sou eu, é ela o dia.
Ele não precisava fingir que gostava de mim. Nunca soube por que ele insistia.
Ah, o Miguel. Fala, não me deixa pensar. Anos atrás, perto dele, eu era o meu pior. Vejo por esse reencontro fortuito que não poderia ser diferente. Perto dele eu nunca podia ser eu mesma. Talvez tenha sido por isso que ele foi embora. Eu tive que ouvir cada coisa. Mas ele era o único que não podia me odiar. Hoje, fitando-o já tão maduro, imagino de onde vêm todas essas cicatrizes. Porque ele nunca me contaria.
Com o Miguel não se pode contar. Poucas histórias foram tão conturbadas quanto minha história com o Miguel. Ele era um caprichoso, mudava de intenção a seu bel prazer e comigo mantinha sempre um pé atrás. Nós dançávamos nos fins de semana, abraçados, bem juntos. Um dia eu decidi que o queria; logo, fui embora. Deixei o Miguel. Saí sem ele ver com a minha mala cheia. Ele estava distraído e levou alguns dias para sentir uma ausência. Alguém que não bate à porta, que não está no sofá, que não dormiu em casa, que não fumou seu cigarro, alguém que não lhe busca os olhos.
Certa vez o Miguel me perguntou se estava tudo bem. Suspirei. Fiquei em dúvida: responderia’ está tudo no lugar’ ou ‘está tudo como deveria estar’. Não é a mesma coisa. Pois toda vez que eu tentava dizer a ele que nada ia bem, eu tinha que dizer que eu sou louca, e se, em algum momento, eu lhe dissesse que era por ele que eu sofria, ele ficava desconfiado, pesado e saía andando lenta e silenciosamente para trás, afastando-me com as mãos, devagar sendo engolido pela escuridão do corredor até chegar no seu quarto e fechar a porta na minha cara.
Nunca mais, não é, Miguel...
Pássaros são tão livres. Aqueles lá no céu. Não se pode querer mais nada além de voar? O Miguel disse que eu não mudei nada. Enquanto eu estive fora. O Miguel conheceu outras pessoas. Um dia ele estava na cidade a trabalho. Nosso abraço me soou tão estranho, tão duvidoso e cheio de pontas de dedos. Debaixo de seus óculos ele via meus dedos trêmulos. Ele já não me amava. E como eu lhe poderia beijar as mãos? É tão bom conhecer o outro Miguel. Uma sentença, ponto final. Outra e ponto final. É assim que ele pensa. Ou ele não articula muito bem ou sou eu. Eu podia segui-lo como um cão.
O Miguel, isto é um solilóquio. Eu o amo porque sou poeta.
Eu tive novos amigos depois de você. Quanto a namorados, nuca mais pude, nunca mais tocada, eu nunca mais quis. Eu li outros livros depois dos seus. Porque nenhum outro homem jamais me olhou como você. Não me olhou. Quando se encontra o Miguel é preciso sorrir. Pela feliz coincidência. E seguir intacto e esquecê-lo.
Vejo hoje jovens casais pelas ruas e penso nas pessoas que nos viram jovem casal naquele tempo. Não éramos um casal e não podíamos admitir que pensassem isso de nós. Daí o Miguel me disse que éramos tão orgulhosos e dogmáticos como deveríamos ser quando se é muito jovem.
Quando o Miguel falava era um acontecimento e todo mundo queria ouvi-lo. Bom, pelo menos eu queria. No fim todos sabiam que ele não poderia ser levado muito a sério.
Saiam todos. Desapareçam vocês três. Eu estou aqui toda encolhida e vocês não percebem? Pela primeira vez me senti muito irritada com as conversas deles. Pela primeira vez desde que nunca mais estive com o Miguel. Ele me irritava. Eu lhe retornava ainda mais cheia de questões. Ele acha até hoje que eu cedo, mas eu o estou sempre a desafiar.
Tinha dias em que eu estava muito bonita. Nesses dias eu percebia coisas. Vi isso: uma gritava que o outro não a queria ouvir. Vi o interior de uma bela casa. Está vendo: nem tudo é o que aparenta. Uma porta torta, uma janela apenas e dentro a aristocracia. Voltei a pensar naquele caso, quem seria o mais surdo ou o que não queria ouvir. É que tem dias que me deparo com tantas certezas que me canso. Estou parando por aqui e neste momento não vou pensar...
O Miguel, às vezes a filosofia é o virtuosismo da burrice. Estou um pouco abstrata, um pouco indignada com... Olha o deserto, o Miguel. Talvez eu sugira algo, ou tente convidá-lo. Estou tão perdida. Do teu lado tenho espasmos. Você me vê: estou tranqüila. Vou deitar e dormir ao som de um piano. É só um piano. Nossa despedida foi tão sutil, eu não posso falar. Vacilei na guia; você está sem mim, mas foi bom? Bom lembrar de tudo? Eu me envergonhei, senti-me humilhada. Corei e te procurei. Eu, e também o Miguel, não gostamos de falar, não queremos entender. Mas nossos corpos estão impacientes. Como quando éramos jovens. Nossas bocas foram deixadas por beijar. Até mais, até.
Eu tento ser o vento, o Miguel. Eu me sentava no fundo da sala, perto da porta. Pronta a sair. Era você ali, hoje. Com uma sala de aula. Luz branca, o Miguel, no prédio colonial, você assim mais velho, aliança de casamento. Eu não mudei nada, o Miguel. Conversava em pensamento com você. Queria o meu nome escrito com o teu. Como se algo pudesse nos abarcar. As ruas que estou. Quando o Miguel se foi, a cidade ficou gelada. Frio dentro e frio fora. Não pude evitar a rima de estar assim agora.
Estou lendo aquele livro e te espero no café. Andei pensando em tudo o que matamos. E em tudo o que não deixamos morrer, mas essa conversa anda meio aborrecida entre nós. Nós dois queremos sangue, nós dois. Você se lembra do meu nome? Eu tenho uma coisa dura que me salvou de morrer no Miguel. O Miguel é poesia, não sabe. Tenho estado muito bem desde que ele não voltou.
Quando me lembrei do Miguel me foi tão bom. O Miguel cabe na boca. Muito bom pensar e pronunciar o Miguel. Quando lembrei o Miguel, justamente dali um tempo conheci o Miguel. Homem que era como eu sonhava e seu nome: o Miguel.
O Miguel era o outro. Quem diria que um dia, por um capricho da vida nos encontraríamos frente a frente conversando, como fizemos jovens; naquele tempo. Eu perguntaria se teve filhos. O Miguel está velho, mas eu não consigo imaginar. Estamos na mesma sala dantes, nas mesmas poltronas. Eu não envelheci: em meu olhar continuo a amá-lo. Ora, estivemos longe e ele talvez não tenha tido saudade. Nunca mais nos encontramos.
O Miguel nasceu quando sua mãe tinha vinte e um anos. Ela foi abandonada no cartório pelo pai do Miguel. Seu pai ensinou ao Miguel tudo o que ele aprendeu. O Miguel buscava, sob o olhar dos outros, onde é que eles estavam e o que estavam olhando? O que você vê em mim, era o que o Miguel balbuciava. Os rostos para o Miguel eram borrões, porém mais próximos eram-lhe inexpressivos. O Miguel não podia entendê-los.
Naquele tempo o Miguel tentava. Hoje, nessa eternidade, construiu uma fortaleza. As paixões tolas lhe tomavam muito tempo e lhe serviam bem; mas no céu há tanto nada, que o Miguel quis abandoná-las. Todas. De uma vez por todas.
É claro que isso entristeceu o coração do Miguel. Mas ele é tão ridículo que não chorou. Nem sorriu. Nem. Isso foi bom, ele achou. Chegou mesmo a se sentir forte. Como se notasse que ainda era dotado de certo vigor. Porque já se subestimara muito e olhava a si próprio agora, bem de cima; dizia-se: é isso? Deixava as pálpebras baixas, o olhar tomado de desprezo.
Ah, o Miguel. É o único jeito. Ele achava que devia haver um meio de ser outro, Outro o Miguel, que não, nunca mais, fosse como ele. Pois para o Miguel certas coisas são insuportáveis. E o Miguel (m)sorria um pouco mais de cigarro em cigarro, cedendo a caprichos, seus e dela.
Aquela menina, o Miguel havia decidido esquecer. Pensava nas suas palavras e no quanto ele a incomodava. Ela já lhe pedira várias vezes que a deixasse e ele entendia. O que ela não poderia entender, é que ele não conseguia. O Miguel era estupidamente feliz ao seu lado. Às vezes ele se conformava com o fato de que ela talvez não pudesse amar. Eu nunca disse a ele o segredo dela. É que ela já se ocupava de amar outro homem, o qual o Miguel também já amava, mesmo que só pudesse imaginar o quê naquele homem ela amava.
O Miguel é o nome do meu filho. O Miguel e eu sempre uma dupla de mãe e filho. O Miguel me salvou e eu vi minhas amigas tendo filhos que reencontrei depois que já tinham vinte anos. O Miguel não sai da minha cabeça. Sempre que o procuro ele me recebe. Ele é lindo. Coitado do Miguel, ele está cansado. Eu também, o Miguel, estou tão cansada. Eu faria tudo diferente. Eu te odeio, o Miguel.
Ter de esquecer o Miguel não foi agradável, porque o Miguel não se esquece. Quando me lembrei do Miguel é que me dei conta de que já o tinha esquecido.
Depois daquela hora, quase de tarde, passaram-se outras horas, dias, semanas, meses e anos. Uns vinte e poucos. Como fui me lembrar dele?
O Miguel era um qualquer, como qualquer outro, não tinha nada demais, não despertava grandes paixões. Como algumas pessoas são especiais... vez por outra não conseguia ficar sozinho então entregava-se à gula das vontades como que por legitimar sua mesquinhez e sua covardia. Mas ele sabia que não funcionava. Há momentos, disse-me o Miguel, em que é preciso interferir. Porém , tamanho é o poder de interferir que tenho e maior ele se torna a cada vez em que o emprego, que viro um bárbaro. De repente estou a disparar inconseqüentemente, tomado pelo deslumbre dos alvos. Apaixonado. Refrear até uma gélida parada é calar muita coisa, pois se fala cada besteira... Ainda bem que não as fazemos todas, eu lhe respondi.
Hoje o Miguel não virá mais ao meu encontro. Também porque o Miguel jamais me procurou. Ah! O Miguel! Eu estou tão apaixonada por você! Como eu estou apaixonada por você. Estou morta de amor. Esse homem me enlouquece. Então está tudo bem. Passará, logo, eu penso.
O Miguel tem o poder de desaparecer. Conquanto que nunca se tenha lembrado, o Miguel se esquece. Há vez que pego o Miguel pensativo. Eu errei e erro sempre com o Miguel. Eu o namorei, sim por um tempo. Nos beijamos uma única vez. A boca do Miguel.
Já cheguei a pensar que o Miguel era eu, ou eu o era. Engraçado isso. Um dia eu me virei e ele me olhava. Um dia pensei: para o Miguel aquela menina era o que via e só queria ver se fosse além dela. Impossível. Porque era só eu que estava ali. Só eu, o Miguel, desculpe-me.
Quando o Miguel finalmente foi embora, eu queria ir com ele. Mas claro que não fui. Eu trabalhava como dubladora de filmes. Muitos europeus e alguns latinos. Por isso narro do Miguel, sua vida era um filme. O Miguel sempre foi muito inteligente. Ele inclusive tentara suicidar-se uma vez. Às vezes eram mulheres, noutras homens. Nouvelle Vague para Denise, Otto para o Lucas e assim sucessivamente. Depois Otto nunca mais por ninguém, só pelo Miguel alto mesmo.
Os dias para o Miguel eram arrastados pelas tantas coisas a fazer e ao despertar já passara tudo, todos os dias, tão rápido. O Miguel parecia que podia ser beijado a qualquer momento. Mas ninguém jamais ousaria.
O Miguel não parece tão velho. Ele já era assim quando éramos jovens, naquele tempo em que nada tínhamos a perder e nada queríamos fazer. Nos divertíamos em vão, com tantas pessoas, histórias de cada noite.
Ele se esforçou muito para ser quem é hoje. O Miguel conseguiu, eu acho. Mas ele não fala sobre isso. Quando leio as cartas do Miguel eu o reconheço. Percebo que nos encontramos num deserto e entre nós há somente o deserto. O Miguel acha isso. Eu acho isso bonito.
Quando o Miguel nascer eu nem vou acreditar. Será mesmo possível que tenhamos sido feitos uma para o outro? Sempre somos feitos para o outro – ele me disse num domingo a tarde. Dias antes esteve em presença do homem que aquela menina amava. Ele nunca tinha amado tanto outro homem na vida. Estava sereno na hora da morte.
O Miguel era de ficar horas calado, em choque com a profundeza dos seus pensamentos. Não adiantava ninguém falar com o Miguel. Ele ouvia muito bem. O Miguel no sol, o Miguel caminha, o Miguel encontra tantos conhecidos, leva uma prosa. Sozinho, fala consigo sobre isso.
Eu queria falar umas coisas com o Miguel. Eu até falei muitas. É que ele sempre parecia não lembrar de mim. Quando eu me lembrei do Miguel, era hora de sair. Eu sempre acabo falando do Miguel.
O Miguel, onde é que você está agora? Você pode me ouvir? Você teve filhos? Com ela? Eu gostaria que o Miguel lesse todos os meus papéis. É por causa dele que temo sempre me deparar no espelho. O Miguel, eu estive doente. Você está me matando. Mas você me disse que o faria.
Somos tão diferentes, o Miguel e eu. Eu o observo pelos cantos dos olhos, tento flagrá-lo. Mas o Miguel é tanto mais. Já tive pena dele porque ele não me amou. Pena eu não conseguir ser o que você esperava. Porque você nunca espera nada. Eu espero, o Miguel. Já te contei que vou ser professora, que não vou ter filhos, que serei feliz quando da velhice, quando eu o vir daqui uns vinte e poucos anos. A minha mãe já é falecida, acho que também já lhe falei sobre isso. Espero que você goste do que lê. Do que foi meu um dia será seu ainda depois da minha morte.
O Miguel já quis o mundo. Tinha dia que era muito ao alcance das mãos. O Miguel sempre riu dos bêbados; riu de si quando descobriu que procurava a verdade. Parou de rir assim que entendeu que a queria sempre. Um espírito admirável, esse Miguel. Quando começa não pára mais. Eu tenho inveja dele e uma vez lhe falei, talvez até mais de uma só que com outras palavras. E o Miguel permaneceu indiferente. Muitas coisas eu lhe falei às quais ele se manteve indiferente. Ele mente para mim o tempo todo. O monstro que ele é, o Miguel não quer que eu veja. Nem mais ninguém. E uma coisa ele me disse com muito orgulho: que era um egoísta. No fundo, o Miguel sempre soube o quanto eu o amava. A quem ele amava sei que foi muito. É muito de um jeito que parece não ter fim.
Sonho com o dia em que nos conheceremos e eu saberei imediatamente que é você, o Miguel. Mon petit diable qui est doux. Isso eu nunca lhe disse. Quando estava para dizer, entendi o olhar de quem não queria ouvir. É que parece que toda aminha vida eu lhe posso contar. Ouvir-me é como se me amasse ou ao menos pudesse.
Foi o Miguel quem abriu a porta pela primeira vez. Agora, se eu vou embora, não é que eu queira, foi o Miguel quem me pediu. O grande amor do Miguel é também o meu grande amor. Quando eu era menina o Miguel me disse que por amor se sofre e que é melhor não falar. Pode-se, no entanto, correr.
Pergunto-me se o Miguel se lembra daquela canção. Toda vez que eu saia ele podia dobrar uma esquina, a qualquer momento. Ele me visitava quando éramos jovens. Conversávamos sobre muitas coisas sérias e dele dependia o meu humor. Ele fingia não saber.
Mas com o Miguel tudo era diferente... é verdade, ele já tentou, entretanto, essas coisas com mulher são muito enfadonhas para o Miguel. É que ele era meu amigo. O Miguel morreu sem me dizer isso. Já perguntei para outras pessoas se ele já lhes contou que era meu amigo. Ele não conversa muito com outras pessoas. Conversa um pouco comigo e muito com ela e com ele, já há anos. Eu também quero passar muitos anos com o Miguel, quero estar lá quando for a hora de chorar. Mas pode ser que não seja eu. O Miguel ganha sempre muitos encontros, embora dificilmente ele os aceite, uma vez que um encontro pode ser um grande transtorno.
Combinamos, o Miguel e eu, de sairmos para uma longa viagem no mundo da lua. Quando chegarmos lá vamos nos divertir como não pudemos por muito tempo. O Miguel me faz bem às vezes.
Se ele sente alguma dor, nunca se sabe. Quando ele diz que dói, não parece, mas acho que ele sabe o que diz. Sempre. Até sem palavras. Só o Miguel gosta das coisas que escrevo. O que escrevo não sou eu, por isso que ele gosta. Ele disse que não queria me ver nunca mais enquanto eu chorava em silêncio e aparentava sorrir compreensiva. Quando ele me acordava era bom, era dia, e não nos lembrávamos de nada na noite anterior. Acho que não pensávamos quando éramos jovens, apenas estávamos lá.
Eu me precipitava mas ele era paciente. Outras mulheres amavam o Miguel. O Miguel atravessa os pensamentos, eu entendo. Pode ser que ele apareça e eu terei que fingir que não me importo. Na verdade sempre fiz isso, não é nenhuma novidade. E o Miguel nunca acreditou em novidades. O Miguel não acreditava em muitas coisas. Eu mesma passei a desacreditar na vida. Nesse dia, sequer pudemos nos encarar.
O Miguel, quando eu era jovem, eu sonhava muito com você. Eu nunca mais sonhei e meus sonhos já são muito velhos. O Miguel guardava de mim seus sonhos. Eu nunca fui digna de conhecê-los.
Era o corpo do Miguel sob o lençol. Era o não-querer. O amante que jaz impotente perguntando-se o que dele se pode ambicionar. Eram as luzes difusas sobre o Miguel. Ele não parecia daqui. Estava sempre tão longe o Miguel, desde menino, como eu. Te quero, o Miguel, com uma flor na orelha. Te quero como se pode esquecer, como poesia que não se memoriza. Eu nunca na sua memória, assim, nem feliz, nem infeliz.
Tudo o que eu disse aquela noite era isso mesmo. Entretanto, nada do que eu disse importa. Eu sei. O Miguel às vezes escreve como eu. Só assim soube que ele sabia que eu existia.houve muitos momentos em que o aborreci, ele é de muita sensibilidade.
Não vale a pena conhecer o Miguel. Ele é certeiro e nada há que perdure depois dele. Nem palavras, nem eu mesma. Nenhum sentimento ou desejo. E falando do Miguel, nenhuma razão, nenhuma argumento, nenhuma desculpa, nem os planos, nem mesmo a fome.
O Miguel foi forca na minha vida de lobo em pele de cordeiro.
O Miguel se despediu de mim sem pesar. Ele não via a hora. Eu já tinha acabado para ele, já tinha sido suficiente. Das segundas às sextas eu pensava nele e nos fins de semana eu só queria dormir, inteiros o sábado e o domingo. Assim eu podia estar calma, sem dores de estômago. Deitada no peito do Miguel eu me esvaziava. Eu era silêncio e o Miguel era uma interrogação. Quando o tinha em meu colo, tinha medo até de respirar, não queria acordá-lo. E depois ele sumia, ia assistir a um filme com ela, quem sabe. Um dia cheguei em sua casa e eles estavam na sala. Tomavam café e riam felizes um em companhia do outro. Ela disse que eu podia ficar ali. Eu agradeci e sentei-me quieta num canto a amá-los. Ela era tão suave e todas as coisas que dizia eram dignas de nota. Nesse dia eu enganei as horas e desmanchei os compromissos. Sabe que o Miguel nem me viu entrar? Eu senti um alívio porque o Miguel a amava. Ela entende tudo, sabe como as coisas acontecem. O Miguel só existia por causa dela e só ela existia para ele, dentre todas as outras. Ela era linda. Ela é inesquecível para o Miguel e para mim. O dia em que a beijei foi o mais triste da minha vida. Desde então eu não era mais jovem e nunca mais seria. Aquela menina, as músicas que ela ouvia, as suas belas mãos. Dificilmente se viu alguém tão perfeita, pois ela era perfeita para o Miguel. Ele mesmo me disse e desejou-me sorte.
O Miguel sempre me quis livre. Ele é a lua que surge de dia, que à noite é encoberta pelas nuvens. A noite sou eu, é ela o dia.
Ele não precisava fingir que gostava de mim. Nunca soube por que ele insistia.
Ah, o Miguel. Fala, não me deixa pensar. Anos atrás, perto dele, eu era o meu pior. Vejo por esse reencontro fortuito que não poderia ser diferente. Perto dele eu nunca podia ser eu mesma. Talvez tenha sido por isso que ele foi embora. Eu tive que ouvir cada coisa. Mas ele era o único que não podia me odiar. Hoje, fitando-o já tão maduro, imagino de onde vêm todas essas cicatrizes. Porque ele nunca me contaria.
Com o Miguel não se pode contar. Poucas histórias foram tão conturbadas quanto minha história com o Miguel. Ele era um caprichoso, mudava de intenção a seu bel prazer e comigo mantinha sempre um pé atrás. Nós dançávamos nos fins de semana, abraçados, bem juntos. Um dia eu decidi que o queria; logo, fui embora. Deixei o Miguel. Saí sem ele ver com a minha mala cheia. Ele estava distraído e levou alguns dias para sentir uma ausência. Alguém que não bate à porta, que não está no sofá, que não dormiu em casa, que não fumou seu cigarro, alguém que não lhe busca os olhos.
Certa vez o Miguel me perguntou se estava tudo bem. Suspirei. Fiquei em dúvida: responderia’ está tudo no lugar’ ou ‘está tudo como deveria estar’. Não é a mesma coisa. Pois toda vez que eu tentava dizer a ele que nada ia bem, eu tinha que dizer que eu sou louca, e se, em algum momento, eu lhe dissesse que era por ele que eu sofria, ele ficava desconfiado, pesado e saía andando lenta e silenciosamente para trás, afastando-me com as mãos, devagar sendo engolido pela escuridão do corredor até chegar no seu quarto e fechar a porta na minha cara.
Nunca mais, não é, Miguel...
Pássaros são tão livres. Aqueles lá no céu. Não se pode querer mais nada além de voar? O Miguel disse que eu não mudei nada. Enquanto eu estive fora. O Miguel conheceu outras pessoas. Um dia ele estava na cidade a trabalho. Nosso abraço me soou tão estranho, tão duvidoso e cheio de pontas de dedos. Debaixo de seus óculos ele via meus dedos trêmulos. Ele já não me amava. E como eu lhe poderia beijar as mãos? É tão bom conhecer o outro Miguel. Uma sentença, ponto final. Outra e ponto final. É assim que ele pensa. Ou ele não articula muito bem ou sou eu. Eu podia segui-lo como um cão.
O Miguel, isto é um solilóquio. Eu o amo porque sou poeta.
Eu tive novos amigos depois de você. Quanto a namorados, nuca mais pude, nunca mais tocada, eu nunca mais quis. Eu li outros livros depois dos seus. Porque nenhum outro homem jamais me olhou como você. Não me olhou. Quando se encontra o Miguel é preciso sorrir. Pela feliz coincidência. E seguir intacto e esquecê-lo.
Vejo hoje jovens casais pelas ruas e penso nas pessoas que nos viram jovem casal naquele tempo. Não éramos um casal e não podíamos admitir que pensassem isso de nós. Daí o Miguel me disse que éramos tão orgulhosos e dogmáticos como deveríamos ser quando se é muito jovem.
Quando o Miguel falava era um acontecimento e todo mundo queria ouvi-lo. Bom, pelo menos eu queria. No fim todos sabiam que ele não poderia ser levado muito a sério.
Saiam todos. Desapareçam vocês três. Eu estou aqui toda encolhida e vocês não percebem? Pela primeira vez me senti muito irritada com as conversas deles. Pela primeira vez desde que nunca mais estive com o Miguel. Ele me irritava. Eu lhe retornava ainda mais cheia de questões. Ele acha até hoje que eu cedo, mas eu o estou sempre a desafiar.
Tinha dias em que eu estava muito bonita. Nesses dias eu percebia coisas. Vi isso: uma gritava que o outro não a queria ouvir. Vi o interior de uma bela casa. Está vendo: nem tudo é o que aparenta. Uma porta torta, uma janela apenas e dentro a aristocracia. Voltei a pensar naquele caso, quem seria o mais surdo ou o que não queria ouvir. É que tem dias que me deparo com tantas certezas que me canso. Estou parando por aqui e neste momento não vou pensar...
O Miguel, às vezes a filosofia é o virtuosismo da burrice. Estou um pouco abstrata, um pouco indignada com... Olha o deserto, o Miguel. Talvez eu sugira algo, ou tente convidá-lo. Estou tão perdida. Do teu lado tenho espasmos. Você me vê: estou tranqüila. Vou deitar e dormir ao som de um piano. É só um piano. Nossa despedida foi tão sutil, eu não posso falar. Vacilei na guia; você está sem mim, mas foi bom? Bom lembrar de tudo? Eu me envergonhei, senti-me humilhada. Corei e te procurei. Eu, e também o Miguel, não gostamos de falar, não queremos entender. Mas nossos corpos estão impacientes. Como quando éramos jovens. Nossas bocas foram deixadas por beijar. Até mais, até.
Eu tento ser o vento, o Miguel. Eu me sentava no fundo da sala, perto da porta. Pronta a sair. Era você ali, hoje. Com uma sala de aula. Luz branca, o Miguel, no prédio colonial, você assim mais velho, aliança de casamento. Eu não mudei nada, o Miguel. Conversava em pensamento com você. Queria o meu nome escrito com o teu. Como se algo pudesse nos abarcar. As ruas que estou. Quando o Miguel se foi, a cidade ficou gelada. Frio dentro e frio fora. Não pude evitar a rima de estar assim agora.
Estou lendo aquele livro e te espero no café. Andei pensando em tudo o que matamos. E em tudo o que não deixamos morrer, mas essa conversa anda meio aborrecida entre nós. Nós dois queremos sangue, nós dois. Você se lembra do meu nome? Eu tenho uma coisa dura que me salvou de morrer no Miguel. O Miguel é poesia, não sabe. Tenho estado muito bem desde que ele não voltou.
terça-feira, 24 de agosto de 2010
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Série Cartas - Caríssimo
Estive trabalhando muito. Em quê? Trabalho braçal, marretando muros, implodindo pilares, escavando fossas, revolvendo terras, arrebentando canos, retorcendo vigas de aço, jogando fora a mobília, sacudindo tapetes, queimando papéis, arrancando raízes, arreganhando janelas, apedrejando telhas, rasgando roupas, enfim, burning down the house. É que vou viajar; já é hora de partir.
Um cigarro antes? Bom... (acendo o cigarro – meu isqueiro é branco, meu cigarro é branco) Uma folha e uma mente em branco. E letras. O que fazer? Veja bem, depende – um pouco – de onde se quer chegar. Mas não quero me repetir. Quem é você a quem dirijo as minhas vergonhas?
Dedico-me a escrever que é para não pronunciar. O ato pronúncia é que me fere. Há muito e sempre o que ouvir. Ainda assim, minhas sentenças na página são carregadas de metafísica vocálica. Mas, não sei o que falo, escapa-me, como todo o resto da composição.
Dia desses, quero ouvir da tua trajetória. Não quero saber.
Vacilo sempre diante da tua porta. Pressinto tal densidade por detrás dela. Hoje entendi isso: pode se querer companhia querendo continuar sozinho. Querer ficar só em alguma companhia. Uma vizinhança, talvez. Vão livre: toda vez que batemos o cigarro no cinzeiro sem que haja cinza para cair.
Hoje o tempo me foi milharal. No silêncio estalado da palha nos beijamos. Não. Sentamo-nos lado a lado, rodeados por uma filosofia longilínea. Trazíamos baixas as cabeças, a olhar os pés sobre as palhas que descansavam em decomposição depois de já terem cumprido sua função. Não acho que elas tiveram qualquer dúvida.
Ontem isso era devaneio, era mesmo o silêncio.
Num encontro com a rua pela madrugada, ela era só violência: atropelos, sermões, olhos fechados, pessoas de quinta, copos quebrados, quedas e saltos, cabelo queimado, maço fumado, tempo imaginado. Blasfemei a mágica. Eis, pois, minha confissão. Talvez tenha chorado aos pés dela como menina boba de olhar embriagado. No entanto, ela continuava irrefletida no espelho à minha cara. Só a poucos minutos percebi o que lhe fiz. E o que ela me fez: assim como deus mostrou-me várias vezes onde punha o dedo - na época em que lhe acreditava - também a mágica puxou-me a orelha em direção a seus glimpses. Ela, veementemente, eu. Jogou sobre mim uma chuva fina depois de ter-me feito rir o dia todo pela não-noite anterior. Abusou-me com o frio vento no rosto. Fez-me gato a saltar, soturno no escuro, brincando de ciranda com loneliness. Caminhou-me pelas ruas aos pensamentos de estar dançando e depois, escrevendo-os com cores, esgueirava-me.
Minha voz é grave agora, meu blues é doído, minha escrita torta. Torta na cara. Ao menos você sabe que não pode entender. Eu perdoei deus pelos aleijados. Tive de fugir. Sim, de mim. Sempre. Ouve: a noite de ontem tinha violence and violins, mas percebi hoje, já que esta outra noite estava menos hostil, que não era violence que a tornaria, como aquela, ríspida, mas os danados dos violins. E já que hoje eles não cortam o ar, violence está acolhedora. A grande violência está no calar.
Deixe-me falar um pouco sobre os violinos. Que audácia! Sobressaiam-se nas ruas dentre ruídos tortuosos. Tão sinuosos são os violinos – por isso escorregam pelos vãos entre os ruídos. É uma hipótese. Os violinos são de uma sutileza serelepe. São capazes de nos fazer passeios nos ouvidos, passeios sonhados e profundos, longos como a cadência dos segundos. Eu seria um violino agora.
Violência é buzina de carro no domingo.
Violência, é a necessidade. Como dizer do que me ocorreu agora à noitinha? Quando presenciei em teu rosto algo que não compreendi mas compartilhei. Galerias subterrâneas, uma complexa malha de túneis cortando toda a cidade embaixo dos pés. O lugar de não ver. Sombrio, quieto, lúgubre, escorregadio, claustrofóbico. Escrevo e a caneta me falha. Emociono-me. Também a memória falha, a voz falha. Falha o sentido. Agora é assim: olho para você e tenho uma encruzilhada.
Tento o que procuro. Estou sempre tentada. (Tenho um poemóide dedicado às minhas tentações.) Estou a escarafunchar. A palavra tem som e tom tão grosseiros, que me cabe. Estou esfomeada. Terreno que comporta infinito varal de lençóis brancos, o eterno esconde-esconde para o fôlego da criança. Desejo deseja. Olhando daqui, chegadas são vulgaridades.
Esta carta me sai diferente. De outra cor folha, letra outra. Sai desconfiada. Sai magoada. Sai pensando em encontrar um analista. Sai cheia de pausas. Cheia de vãos... Envolta por duros apontamentos. Tenho de recorrer a palavras e formulações que na são minhas. Afeta-me muito isso das cartas. Não têm nomes, não têm datas e assim permanecerão como um grito no vácuo. Não há para onde se propagar. Não há sequer bom ou ruim nisso. É somente mais uma dimensão em aberto. Cartas são para mim como mulheres e cigarros, fetiche.
Imundice será o mesmo corpo poder sentir frio e calor ao mesmo tempo?
As palavras se me vão gastando no tempo, no pão dormido, na garrafa vazia. O que tenho feito é aguardar tranquilamente pelo meu convidado especial para brindarmos ao tempo pela surpresa. Eu que não me conformo apenas por pura convenção ou teimosia, direi a ele quando adentrar por minha porta: sinta-se à vontade, faça o que quiser, estou devidamente concentrada em deixar. E não direi mais uma palavra sequer pela boca. Falarei antes pelas mãos e respirarei lenta e profundamente pelos meus ouvidos. Os olhos sempre ficam perguntando, por isso lhes providenciei cortinas e calmantes, os olhos degustarão apenas. Enquanto isso, a cabeça há de se devorar numa orgia de fogos de artifício.
Estou me perdendo dia após dia e não me decido a respeito de salvar-me ou não. Salvar-me do quê? É uma grande questão. Correr, correr para longe, para nunca, mas correr do quê? Sinto que ao correr me aproximo e então, num impulso saco uma lâmina afiada para assassinar tudo o que me põe em cheque. É que às vezes não me perdôo. Simplesmente porque ainda me preocupo com o que tenho a perder. Mas, tenho o quê? Perder. Ganhar. Desculpe-me, tenho de rir disso tudo. Afinal, pode ser tão aceitável que ser alguma coisa seja não ser suscetível de interpretação (salve Alberto Caeiro). Estive com um fotógrafo e revoltei-me. Só por alguns instantes, pois estou sempre confusa o suficiente para desistir e esperar a poeira assentar. É que não foi ele em si que me provocou. Usamos muitos instrumentos, ferramentas de diversas naturezas e com variadas utilidades. De repente ele me clareou que não nos servimos muito bem dos instrumentos – uma vez que lhes atribuímos fins e lhes pensamos manuais. Escondemo-nos atrás deles e pensei como poderia ser estar por sobre eles. Não para desprezá-los ou assim, usá-los e descartá-los, nem elevá-los, mas para que mostrem a quê vêm quando vêm. A ferramenta é incompleta, qualquer uma delas, lhe falta um objetivo. Falta? Acreditaria que criei outra língua por não suprir a falta da ferramenta? Onde está falta nisso? Está algo que não domino, que inaugura a percepção de outro fluxo que me desvia, que me lança, que me abre. Aff... quanta asneira.
Sonhei que tramavam acabar comigo. Um homem regia tudo, era uma espécie de xamã, ora negro, ora índio, ora de cabelos brancos, ora ria, ora gordo, ora aparecia e depois apenas pairava. Mas eram dois seus executores e estavam em toda parte, seguiam-me, usavam capas negras, sem rosto, manejavam espadas. Às vezes eram homens de sombras e outras vezes eram espectros. Nesse sonho, o ambiente era desértico, humilde – não, decadente está melhor - , coisa de roadmovie, ou de livro do Castañeda. Eu corria, tentava me proteger, estava tensa. Num dado momento, passei muito perto dessas três figuras e voei em direção a uma adaga de cabo branco pendurada num poste que sabia de alguma forma ser minha única defesa. Voei mesmo. Senti um enorme frio na barriga, olhei nos olhos de meus algozes. Quando achei que estava segura depois de sair correndo e tê-los enfrentado com o olhar, ao chegar em casa, alguém mulher me mostrou aflita o musgo se infiltrando e se espalhando pela minha parede: era o sinal de que eu não poderia me salvar. Alguém tinha plantado minha morte, e aquela coisa que se espalhava pela minha parede vinha anunciar que não havia jeito, eles iriam me pegar. Minha casa cheirava a óleo de cozinha. Sinto-me completamente ameaçada.
Já não quero idealizar meu fluxo, como se ele mesmo tivesse uma missão final, então, contradigo meus pés. Tampouco sei até que ponto posso suportar Mme. Contingência. No entanto, quero intimidades com ela. Quero também um choque de alta voltagem e até ando procurando por aí pelas pessoas, pelos olhos, pelos caminhos, pelas vontades, tomadas. Estou cultivando a crosta. Uma hora, vôo curva afora. Ou grito sufocada no travesseiro, entre lágrimas, baba grossa e nós no peito. Não me culpe, fico até com certo mal-humor diante da situação. Começo disfarçando, mas é tão baixo fingir. Entretanto posso fazê-lo, sempre posso fazer o que quiser. Agora, quando te vejo, lembro-me de que você já sabe.
Sinto medo, um medo terrível, tal qual o medo de passar. O que você pensa quando se deita para dormir? Não sei se temo mais dormir ou acordar. Se me perguntasses: passou? Diria que não, de maneira nenhuma. Tudo se há intensificado. O único artifício que tenho é o do disfarce. Sou um ator. É uma dor que age leve. É tão pura como não se pode defini-la.
Sempre eu, eu e eu. Mesmo assim, deixo-me andar por outras pernas. É irritante. O problema sou eu e também a solução. Mas é líquido. Pego-me enlouquecida e tenho de correr para não me derramar. Apelo às lágrimas, gostaria de explodir nelas, só que não consigo. Tudo está sempre pronto a me confundir. Você mesmo, confuzzles me, my dear. A única saída que vejo é meu edredon quente, músicas favoritas e pesadas demolições de EU. Escrevo devagar e trago no olhar tanta dor. Incrível como passei um dia tão cheio de sorrisos e autoconfiança e tudo fundamentado num lixo: a esperança. É realmente uma paixão triste. Penso, penso, penso, não paro de pensar, tenho que deixar e preciso macerar os nódulos, jogar a merda no ventilador. É isso a que chamo de inteligência, pegar o descontrole pelos chifres. E pouco pode me importar todo o resto, ou todas as pessoas. Nada disso me diz respeito. Como escreveu um grande poeta, o que quero ainda não tem nome. Quero a maneira de circular, quero subir à superfície para respirar e depois pesar ao fundo como âncora.
Caras que surgem na madrugada, se revelam aos minutos eternos, e depois, outra noite qualquer, desdobram-se uma vez mais, e de novo, e me tiram a noção. É cada vez outra e outra cara que aparece, que abre uma fenda sob meus pés, sobre minha cabeça ou nela mesma, que me fazem desejar a vida e a morte, numa oscilação sem fim, que me esforço por não tentar entender, mas por viver os momentos raros de deleite que rompem a dúvida, a dor e a expectativa. Minha luz está acesa, não consigo apagá-la. Ouço passos na rua, estou sempre sendo tocaiada pelo aguardo. Ele não me abandona, não me dá descanso. É tortura refinada. Compartilhamos uma coisa, todos nós: nosso gosto pela ficção, pela película do pensamento que gira histórias que jamais acontecerão. É o arrebatamento pelo drama.
I seek for granted access, onde possa reconfigurar alguns sentimentos; a primeira impressão deles não é, na verdade, a primeira. Busco a segunda, a terça, a quarta, a quinta ou a sexta parte. Não concordo com minha entrega de fim de semana. Sou uma pobre devota. Minha atitude devocional, meu caro, me é tão fácil. A culpa não é de ninguém mais a não ser minha, e a culpa me chupa os ossos, me desidrata, é tão difícil deixá-la. Culpa por não já ser algo pronto a caber. Estou morrendo, sim. Vou morrer grávida de raiva, dor, repressão, nostalgia, vontade, apatia, posse, revolta, nojo, felicidade, azedume. Sou culpada. Sou uma grande merdinha. Sou uma grande obsessão no buraco da noite a evocar cúmplices do meu delírio. Não sei me comportar. Sei sofrer. Sei doer. Sei gargalhar. Sei cantar e gritar. Sei correr. Sei me convencer. Mas não sei não querer.
Se em algum momento de hoje pensei que você talvez estivesse guardando um segredo para me dar, me perdoe. Mas me conte. Me conte tudo, encha minha cabeça, me mata de você. Lembra-te que depois de todo crime, lava-se as mãos com esmero. Estou sim, agora sim, é claro, suplicando por algum valor, porque estou tão chão, tão exausta. Pena não conseguir simplesmente virar as costas. Olho as horas porque certamente alguém as olha e com elas se preocupa. Eu não. Preocupo-me apenas com o que elas me trarão. E tenho a intuição de que será sempre assim, insuportável. Terrível.
Tenho dançado andar, tenho atravessado as ruas como aprendi com ela, the emptiness who crosses the path. Estou cansada. Estou com aquilo dentro do peito. E sempre me pergunto como é que se faz por aí? Tomo um porre? Ponho tudo a perder? Esse tudo tão cheirando a nada, essa instabilidade do solo que pode ser inundado a qualquer momento, faz-me saltar de um platô para outro numa corrida infernal contra mim mesma. Ah! Eu também, se fosse como você, rir-me-ia, sem mais nem menos, dessas palavras. Não peço nada além de que acaricie teu espanto diante de mim, com cada uma das tuas caras quando na minha frente ou pelas costas, você sentir nada. Eu aceito, eu sou antes e depois. Eu vou dormir, apesar de tudo, tenho sono nesse momento. Isso é fácil, às vezes, quando não estou perturbada demais sem conseguir distinguir sonhos e pensamentos. Os acidentes que vão se atropelando, me esmagam de inesperado.
Nasci sabendo to weep and moan... mas só agora a pouco adquiri o direito de me calar diante dos incidentes nas palavras e nas atitudes. Que sujeitinho, eu. Que mente doentia quando quero estar longe, muito longe, em algum lugar onde ninguém nunca poderá me alcançar e, no entanto, procuro alcançá-lo. Que tipo de reconhecimento é esse que se busca nos rodamoinhos da imaginação? Onde você está agora? Olhe ao seu redor.
Deixo minha mente passear, transitar por imagens redistorcidas, como um navio quebra-gelo. Ela tem muito o que dar e não há quem possa receber, é só meu. Isso sim, é o meu e o será na sua duração.
Tenho uma cauda longa e garras de rapina para orientar-me na descida vertiginosa da colina de espelho prateada. As faíscas fazem festa aos olhos do transeunte desprevenido. No pescoço uma pesada placa esculpida em advertência de que não me tome pelos olhos, vermelhos em farpas, esfumaçados pela horda de afecções. Esse animal que sou é capaz ainda de cartografar rostos no escuro, através do hálito morno e mordaz. Infectado por um vírus responsável pelo distúrbio dos toques e dos grunhidos, esse animal rasteja sobre as próprias feridas e as lambe lascivamente enquanto as lágrimas escorrem pelos poros junto com a alma. Lama é sua comida e sua companhia, até a linha imediatamente abaixo dos olhos. Ainda assim, ele desliza. Serais ce possible alors?
Lapso no dicionário: 1. Espaço de tempo; 2. Engano involuntário. ‘Isso’ é a parafina da vela sendo consumida pela chama acesa.
Beije-as todas, meu querido, beije-as sempre que possível. Todas as flores da noite. Intensamente. Intensa mente. E depois, se tiver tempo, descreve-me os sabores, responde tua própria pergunta, aquela, do sabor do inefável. E sequer precisa falar algo. Não há cuidado maior que te possa pedir. E sempre, obrigada pelos abraços sinceros.
P.S.: desde que vomitaste em mim, te sonhei três vezes. Foram bons sonhos. Não querem dizer nada, eu creio.
Um cigarro antes? Bom... (acendo o cigarro – meu isqueiro é branco, meu cigarro é branco) Uma folha e uma mente em branco. E letras. O que fazer? Veja bem, depende – um pouco – de onde se quer chegar. Mas não quero me repetir. Quem é você a quem dirijo as minhas vergonhas?
Dedico-me a escrever que é para não pronunciar. O ato pronúncia é que me fere. Há muito e sempre o que ouvir. Ainda assim, minhas sentenças na página são carregadas de metafísica vocálica. Mas, não sei o que falo, escapa-me, como todo o resto da composição.
Dia desses, quero ouvir da tua trajetória. Não quero saber.
Vacilo sempre diante da tua porta. Pressinto tal densidade por detrás dela. Hoje entendi isso: pode se querer companhia querendo continuar sozinho. Querer ficar só em alguma companhia. Uma vizinhança, talvez. Vão livre: toda vez que batemos o cigarro no cinzeiro sem que haja cinza para cair.
Hoje o tempo me foi milharal. No silêncio estalado da palha nos beijamos. Não. Sentamo-nos lado a lado, rodeados por uma filosofia longilínea. Trazíamos baixas as cabeças, a olhar os pés sobre as palhas que descansavam em decomposição depois de já terem cumprido sua função. Não acho que elas tiveram qualquer dúvida.
Ontem isso era devaneio, era mesmo o silêncio.
Num encontro com a rua pela madrugada, ela era só violência: atropelos, sermões, olhos fechados, pessoas de quinta, copos quebrados, quedas e saltos, cabelo queimado, maço fumado, tempo imaginado. Blasfemei a mágica. Eis, pois, minha confissão. Talvez tenha chorado aos pés dela como menina boba de olhar embriagado. No entanto, ela continuava irrefletida no espelho à minha cara. Só a poucos minutos percebi o que lhe fiz. E o que ela me fez: assim como deus mostrou-me várias vezes onde punha o dedo - na época em que lhe acreditava - também a mágica puxou-me a orelha em direção a seus glimpses. Ela, veementemente, eu. Jogou sobre mim uma chuva fina depois de ter-me feito rir o dia todo pela não-noite anterior. Abusou-me com o frio vento no rosto. Fez-me gato a saltar, soturno no escuro, brincando de ciranda com loneliness. Caminhou-me pelas ruas aos pensamentos de estar dançando e depois, escrevendo-os com cores, esgueirava-me.
Minha voz é grave agora, meu blues é doído, minha escrita torta. Torta na cara. Ao menos você sabe que não pode entender. Eu perdoei deus pelos aleijados. Tive de fugir. Sim, de mim. Sempre. Ouve: a noite de ontem tinha violence and violins, mas percebi hoje, já que esta outra noite estava menos hostil, que não era violence que a tornaria, como aquela, ríspida, mas os danados dos violins. E já que hoje eles não cortam o ar, violence está acolhedora. A grande violência está no calar.
Deixe-me falar um pouco sobre os violinos. Que audácia! Sobressaiam-se nas ruas dentre ruídos tortuosos. Tão sinuosos são os violinos – por isso escorregam pelos vãos entre os ruídos. É uma hipótese. Os violinos são de uma sutileza serelepe. São capazes de nos fazer passeios nos ouvidos, passeios sonhados e profundos, longos como a cadência dos segundos. Eu seria um violino agora.
Violência é buzina de carro no domingo.
Violência, é a necessidade. Como dizer do que me ocorreu agora à noitinha? Quando presenciei em teu rosto algo que não compreendi mas compartilhei. Galerias subterrâneas, uma complexa malha de túneis cortando toda a cidade embaixo dos pés. O lugar de não ver. Sombrio, quieto, lúgubre, escorregadio, claustrofóbico. Escrevo e a caneta me falha. Emociono-me. Também a memória falha, a voz falha. Falha o sentido. Agora é assim: olho para você e tenho uma encruzilhada.
Tento o que procuro. Estou sempre tentada. (Tenho um poemóide dedicado às minhas tentações.) Estou a escarafunchar. A palavra tem som e tom tão grosseiros, que me cabe. Estou esfomeada. Terreno que comporta infinito varal de lençóis brancos, o eterno esconde-esconde para o fôlego da criança. Desejo deseja. Olhando daqui, chegadas são vulgaridades.
Esta carta me sai diferente. De outra cor folha, letra outra. Sai desconfiada. Sai magoada. Sai pensando em encontrar um analista. Sai cheia de pausas. Cheia de vãos... Envolta por duros apontamentos. Tenho de recorrer a palavras e formulações que na são minhas. Afeta-me muito isso das cartas. Não têm nomes, não têm datas e assim permanecerão como um grito no vácuo. Não há para onde se propagar. Não há sequer bom ou ruim nisso. É somente mais uma dimensão em aberto. Cartas são para mim como mulheres e cigarros, fetiche.
Imundice será o mesmo corpo poder sentir frio e calor ao mesmo tempo?
As palavras se me vão gastando no tempo, no pão dormido, na garrafa vazia. O que tenho feito é aguardar tranquilamente pelo meu convidado especial para brindarmos ao tempo pela surpresa. Eu que não me conformo apenas por pura convenção ou teimosia, direi a ele quando adentrar por minha porta: sinta-se à vontade, faça o que quiser, estou devidamente concentrada em deixar. E não direi mais uma palavra sequer pela boca. Falarei antes pelas mãos e respirarei lenta e profundamente pelos meus ouvidos. Os olhos sempre ficam perguntando, por isso lhes providenciei cortinas e calmantes, os olhos degustarão apenas. Enquanto isso, a cabeça há de se devorar numa orgia de fogos de artifício.
Estou me perdendo dia após dia e não me decido a respeito de salvar-me ou não. Salvar-me do quê? É uma grande questão. Correr, correr para longe, para nunca, mas correr do quê? Sinto que ao correr me aproximo e então, num impulso saco uma lâmina afiada para assassinar tudo o que me põe em cheque. É que às vezes não me perdôo. Simplesmente porque ainda me preocupo com o que tenho a perder. Mas, tenho o quê? Perder. Ganhar. Desculpe-me, tenho de rir disso tudo. Afinal, pode ser tão aceitável que ser alguma coisa seja não ser suscetível de interpretação (salve Alberto Caeiro). Estive com um fotógrafo e revoltei-me. Só por alguns instantes, pois estou sempre confusa o suficiente para desistir e esperar a poeira assentar. É que não foi ele em si que me provocou. Usamos muitos instrumentos, ferramentas de diversas naturezas e com variadas utilidades. De repente ele me clareou que não nos servimos muito bem dos instrumentos – uma vez que lhes atribuímos fins e lhes pensamos manuais. Escondemo-nos atrás deles e pensei como poderia ser estar por sobre eles. Não para desprezá-los ou assim, usá-los e descartá-los, nem elevá-los, mas para que mostrem a quê vêm quando vêm. A ferramenta é incompleta, qualquer uma delas, lhe falta um objetivo. Falta? Acreditaria que criei outra língua por não suprir a falta da ferramenta? Onde está falta nisso? Está algo que não domino, que inaugura a percepção de outro fluxo que me desvia, que me lança, que me abre. Aff... quanta asneira.
Sonhei que tramavam acabar comigo. Um homem regia tudo, era uma espécie de xamã, ora negro, ora índio, ora de cabelos brancos, ora ria, ora gordo, ora aparecia e depois apenas pairava. Mas eram dois seus executores e estavam em toda parte, seguiam-me, usavam capas negras, sem rosto, manejavam espadas. Às vezes eram homens de sombras e outras vezes eram espectros. Nesse sonho, o ambiente era desértico, humilde – não, decadente está melhor - , coisa de roadmovie, ou de livro do Castañeda. Eu corria, tentava me proteger, estava tensa. Num dado momento, passei muito perto dessas três figuras e voei em direção a uma adaga de cabo branco pendurada num poste que sabia de alguma forma ser minha única defesa. Voei mesmo. Senti um enorme frio na barriga, olhei nos olhos de meus algozes. Quando achei que estava segura depois de sair correndo e tê-los enfrentado com o olhar, ao chegar em casa, alguém mulher me mostrou aflita o musgo se infiltrando e se espalhando pela minha parede: era o sinal de que eu não poderia me salvar. Alguém tinha plantado minha morte, e aquela coisa que se espalhava pela minha parede vinha anunciar que não havia jeito, eles iriam me pegar. Minha casa cheirava a óleo de cozinha. Sinto-me completamente ameaçada.
Já não quero idealizar meu fluxo, como se ele mesmo tivesse uma missão final, então, contradigo meus pés. Tampouco sei até que ponto posso suportar Mme. Contingência. No entanto, quero intimidades com ela. Quero também um choque de alta voltagem e até ando procurando por aí pelas pessoas, pelos olhos, pelos caminhos, pelas vontades, tomadas. Estou cultivando a crosta. Uma hora, vôo curva afora. Ou grito sufocada no travesseiro, entre lágrimas, baba grossa e nós no peito. Não me culpe, fico até com certo mal-humor diante da situação. Começo disfarçando, mas é tão baixo fingir. Entretanto posso fazê-lo, sempre posso fazer o que quiser. Agora, quando te vejo, lembro-me de que você já sabe.
Sinto medo, um medo terrível, tal qual o medo de passar. O que você pensa quando se deita para dormir? Não sei se temo mais dormir ou acordar. Se me perguntasses: passou? Diria que não, de maneira nenhuma. Tudo se há intensificado. O único artifício que tenho é o do disfarce. Sou um ator. É uma dor que age leve. É tão pura como não se pode defini-la.
Sempre eu, eu e eu. Mesmo assim, deixo-me andar por outras pernas. É irritante. O problema sou eu e também a solução. Mas é líquido. Pego-me enlouquecida e tenho de correr para não me derramar. Apelo às lágrimas, gostaria de explodir nelas, só que não consigo. Tudo está sempre pronto a me confundir. Você mesmo, confuzzles me, my dear. A única saída que vejo é meu edredon quente, músicas favoritas e pesadas demolições de EU. Escrevo devagar e trago no olhar tanta dor. Incrível como passei um dia tão cheio de sorrisos e autoconfiança e tudo fundamentado num lixo: a esperança. É realmente uma paixão triste. Penso, penso, penso, não paro de pensar, tenho que deixar e preciso macerar os nódulos, jogar a merda no ventilador. É isso a que chamo de inteligência, pegar o descontrole pelos chifres. E pouco pode me importar todo o resto, ou todas as pessoas. Nada disso me diz respeito. Como escreveu um grande poeta, o que quero ainda não tem nome. Quero a maneira de circular, quero subir à superfície para respirar e depois pesar ao fundo como âncora.
Caras que surgem na madrugada, se revelam aos minutos eternos, e depois, outra noite qualquer, desdobram-se uma vez mais, e de novo, e me tiram a noção. É cada vez outra e outra cara que aparece, que abre uma fenda sob meus pés, sobre minha cabeça ou nela mesma, que me fazem desejar a vida e a morte, numa oscilação sem fim, que me esforço por não tentar entender, mas por viver os momentos raros de deleite que rompem a dúvida, a dor e a expectativa. Minha luz está acesa, não consigo apagá-la. Ouço passos na rua, estou sempre sendo tocaiada pelo aguardo. Ele não me abandona, não me dá descanso. É tortura refinada. Compartilhamos uma coisa, todos nós: nosso gosto pela ficção, pela película do pensamento que gira histórias que jamais acontecerão. É o arrebatamento pelo drama.
I seek for granted access, onde possa reconfigurar alguns sentimentos; a primeira impressão deles não é, na verdade, a primeira. Busco a segunda, a terça, a quarta, a quinta ou a sexta parte. Não concordo com minha entrega de fim de semana. Sou uma pobre devota. Minha atitude devocional, meu caro, me é tão fácil. A culpa não é de ninguém mais a não ser minha, e a culpa me chupa os ossos, me desidrata, é tão difícil deixá-la. Culpa por não já ser algo pronto a caber. Estou morrendo, sim. Vou morrer grávida de raiva, dor, repressão, nostalgia, vontade, apatia, posse, revolta, nojo, felicidade, azedume. Sou culpada. Sou uma grande merdinha. Sou uma grande obsessão no buraco da noite a evocar cúmplices do meu delírio. Não sei me comportar. Sei sofrer. Sei doer. Sei gargalhar. Sei cantar e gritar. Sei correr. Sei me convencer. Mas não sei não querer.
Se em algum momento de hoje pensei que você talvez estivesse guardando um segredo para me dar, me perdoe. Mas me conte. Me conte tudo, encha minha cabeça, me mata de você. Lembra-te que depois de todo crime, lava-se as mãos com esmero. Estou sim, agora sim, é claro, suplicando por algum valor, porque estou tão chão, tão exausta. Pena não conseguir simplesmente virar as costas. Olho as horas porque certamente alguém as olha e com elas se preocupa. Eu não. Preocupo-me apenas com o que elas me trarão. E tenho a intuição de que será sempre assim, insuportável. Terrível.
Tenho dançado andar, tenho atravessado as ruas como aprendi com ela, the emptiness who crosses the path. Estou cansada. Estou com aquilo dentro do peito. E sempre me pergunto como é que se faz por aí? Tomo um porre? Ponho tudo a perder? Esse tudo tão cheirando a nada, essa instabilidade do solo que pode ser inundado a qualquer momento, faz-me saltar de um platô para outro numa corrida infernal contra mim mesma. Ah! Eu também, se fosse como você, rir-me-ia, sem mais nem menos, dessas palavras. Não peço nada além de que acaricie teu espanto diante de mim, com cada uma das tuas caras quando na minha frente ou pelas costas, você sentir nada. Eu aceito, eu sou antes e depois. Eu vou dormir, apesar de tudo, tenho sono nesse momento. Isso é fácil, às vezes, quando não estou perturbada demais sem conseguir distinguir sonhos e pensamentos. Os acidentes que vão se atropelando, me esmagam de inesperado.
Nasci sabendo to weep and moan... mas só agora a pouco adquiri o direito de me calar diante dos incidentes nas palavras e nas atitudes. Que sujeitinho, eu. Que mente doentia quando quero estar longe, muito longe, em algum lugar onde ninguém nunca poderá me alcançar e, no entanto, procuro alcançá-lo. Que tipo de reconhecimento é esse que se busca nos rodamoinhos da imaginação? Onde você está agora? Olhe ao seu redor.
Deixo minha mente passear, transitar por imagens redistorcidas, como um navio quebra-gelo. Ela tem muito o que dar e não há quem possa receber, é só meu. Isso sim, é o meu e o será na sua duração.
Tenho uma cauda longa e garras de rapina para orientar-me na descida vertiginosa da colina de espelho prateada. As faíscas fazem festa aos olhos do transeunte desprevenido. No pescoço uma pesada placa esculpida em advertência de que não me tome pelos olhos, vermelhos em farpas, esfumaçados pela horda de afecções. Esse animal que sou é capaz ainda de cartografar rostos no escuro, através do hálito morno e mordaz. Infectado por um vírus responsável pelo distúrbio dos toques e dos grunhidos, esse animal rasteja sobre as próprias feridas e as lambe lascivamente enquanto as lágrimas escorrem pelos poros junto com a alma. Lama é sua comida e sua companhia, até a linha imediatamente abaixo dos olhos. Ainda assim, ele desliza. Serais ce possible alors?
Lapso no dicionário: 1. Espaço de tempo; 2. Engano involuntário. ‘Isso’ é a parafina da vela sendo consumida pela chama acesa.
Beije-as todas, meu querido, beije-as sempre que possível. Todas as flores da noite. Intensamente. Intensa mente. E depois, se tiver tempo, descreve-me os sabores, responde tua própria pergunta, aquela, do sabor do inefável. E sequer precisa falar algo. Não há cuidado maior que te possa pedir. E sempre, obrigada pelos abraços sinceros.
P.S.: desde que vomitaste em mim, te sonhei três vezes. Foram bons sonhos. Não querem dizer nada, eu creio.
Série Cartas - Carta II
Acendi um cigarro para te escrever e uma vela. Não sei o quanto isso há de me custar. Mas se escrevo é porque venho contar-te minhas últimas. Não conheço seu interesse por elas. Por isso comecemos assim: palavras ao sabor dos ventos, palavras enxurradas na música do riacho que contorna minha casa.
Explico-me. Acordei e era dia. Não sabia então qual algo estava por vir. É óbvio. Aconteceu de tornar-me assistente de mágico logo pela manhã. Fui enfiada numa caixa escura e atravessada por sem número de facas de papel afiadas pela pedra de uma densa poesia em prosa. Cheguei a chorar, se me permites confidenciar sem constrangimento. Fora isso, fazia sol, hoje, depois de dias cinzas.
Foi tão bonito o atravessamento, tão comovente, que vislumbrei um mito, creio eu. Mas não sei precisar a origem, apenas supus - por alguma maneira boba e qualquer de olhar as coisas que acontecem - que se tratava de uma manifestação em alguma medida mítica. É simples: fui dilacerada, morri em horror e sangrando cada frase senti-me tão plena! Tão nada! Tão plácida! Lia a correr, espantada com tamanha identificação, que me lanço agora aos meus próprios papéis para jorrar conjecturas ressurreicivas. Não sei como, já há tempos, não sei quanto, pensei em você para escrever. Não digo que tento o dividir pois seria bobagem. Não consigo jamais.
No momento em que lia minha boca tremia, a voz vacilava, meu corpo se debatia. Convulsionava pensamentos e queria falar, falar o quê? Queria escrever esta carta que não sei como termina. Precisei parar e organizar alguma coisa saltitante que coubesse ao menos em linhas, sem nunca esperar que essas linhas contivessem qualquer sentido ou serviço. A clareza nas linhas é fim de túnel. A sensação de dentro do túnel se perde na luz do seu fim. Perde-se o melhor. Esquece-se. Enfim, pude ver-me escrevendo estas palavras inexatas, como quem titubeia, em papel vegetal à tinta preta. Para mim, são assim cartas. Ou em folhas amareladas de caderno velho. Possuo um. O caderno velho é bonito, parece que faz a gente escrever como grandes poetas; penso até que inspiraria certa ancestralidade poética, certa visceralidade incontestável daquilo que se molda às palavras num rompante generoso mas que permanece suspenso. As musas. Devem ser elas feitas de papel amarelado e nesse caso, só poderia escrever no papel vegetal, ou seria heresia. Até porque nele a palavra vaza do outro lado. É rara. É latente. É contrária. Não é publicada. É fugidia. Transparente. Não é inspirada, é segredo. Escreveria no ar, mas poderias ler? E para que ler? Se não queres ler, ateia fogo a este papel e a esta tinta. Eu continuo ecoando em algum lugar que não me diz respeito.
Desta não-feita, prossigo. Antes de estar aqui esparramada, fui caminhar, sonhando minha pele estava com o toque do grande sol. Piegas, mas ele é grande mesmo. Pedi a meus pés que me levassem em direção à flor que habitaria uma garrafa de vinho vazia na minha casa. Acreditei que seria levada, e isso existiu porque acreditei. Existir é feito de fé, não é? Essa flor é para você, porque eu nunca te daria flores. Mas a flor que encontrei eram duas, que arranquei do meio de outras muitas flores laranjas. Vívidas sob o sol, trouxeram a mim estupor e inveja... por que eu não sou assim tão, brincalhona? Perto das flores havia três meninas, era uma praça, era de tarde. Olhei pra elas, cheia de vergonha com as duas flores na mão, me sentido a quarta menina e então galopei sumindo do seu campo de visão. Lembrei da menina de cabelos vermelhos que fui eu um dia e da qual resta agora tão pouco, a não ser o fato de que sou ela desde antes e dela nasci. Não faz tempo, foi ontem, talvez.
As flores. Não peguei duas porque pretendia. Antes eram elas as mais proeminentes e pendiam do mesmo galho. Eram como olhos de lagarto, uma para cada lado, mas, diferente dos olhares tensos dos répteis, os pequenos olhos fluorescentes em flor olhavam estrabicamente despojados, sincronizados à vontade com o balanço do meu corpo e o do vento que também dançava meus cabelos.
Se pensas que estou feliz e cor-de-laranja, não me superestime. Essa capacidade bucólica eu não encontrei. Passam dias sem que eu sinta seu cheiro. Apenas te falo. Falo aqui, e talvez preferisse o silêncio, mas ele tem o hábito de me fugir, vez em quando.
Vou te falar uma coisa agora: andei pensando muito em morte nos últimos tempos. Acordava querendo saber a cara da morte. Como se eu não morresse a todo momento possível. Morro agora do medo do que são nos teus olhos minhas palavras. Cheguei aqui onde poderia: nos olhos. Não uso mais óculos escuros, o que não se deu espontaneamente. Só que ainda a pouco vi meus olhos num espelho e vi que são bonitos. Não vou mais omitir meus olhos. Por ora. É que o espelho estava fundo dentro deles, mas não falo de espelhos porque teria de falar em olhos. E isso é assustador. Os olhos.
Ando tão à espreita de algo em onda perpetuamente por vir. Quero falar-lhe sobre as ondas, porque delas eu nada sei. E me rio disso. Salve os trocadilhos infames. As ondas são isso, o que fica por falar na próxima linha, ou tudo aquilo que já se pensou e se perdeu. E decidi de hoje para mais não me apegar às idéias que me voam. Olho o céu absurdamente azul, liso de toda nuvem e minhas idéias se colam cúmplices ao seu infinito nada límpido. C’est le mystère qui m’ensorcelle...
Divirto-me com as idéias desvairadas. Quem passa à frente de minha porta bem agora? Coisas de quando se é um só. Digo um solitário. Você quer falar de solidão? Não é possível. A solidão, déesse et immortelle. Você não quer falar.
Esta carta, não sei a quê vem. Com que propósito, me é vago. Não tome mal minhas palavras. Não respondo por elas porque não as sei senão como algo infinitamente vasto e indigesto. Um buraco lotado de conexões vazias, enfim, de porquês fortuitos. De lampejos. Da irresponsabilidade de quem não sabe escrever. E se são para você e para ninguém, não é culpa minha. A culpa é do que não se pode dizer.
Se dou voltas e voltas é por ser uma dançarina, e como os cães, os dançarinos gostam de correr atrás do próprio rabo. Se falo de mim, perdoa-me, mas é que tento falar-te, só que não sei tua língua. O que posso fazer com uma língua? Pintar um quadro, como se pode fazê-lo com dedos, pincéis ou cotonetes. Com o cotovelo, com imaginação. Sempre começo a pintar com contornos pretos. Esta carta. Não sei por que, o preto chama depois as cores que lhe convém. Talvez não tenha pinturas sem o preto porque ele é o xamã. É o por trás, um regente – ou seria eu? Ele evoca a pujança das cores. E sobre as cores tudo desliza, a verdade desnuda. Logo, é mentira.
Eu também sou um quadro, e como a mim mesma, tomo os quadros que faço e deles enjôo. Destruo-os e pinto novamente e há que se ter força. Por acaso, ou não? Eu sempre apareço nas minhas próprias pinturas. Há quem sempre apareça nos próprios sonhos, mas nos meus sonhos às vezes eu falto, todavia, nas pinturas sou sempre. Nelas, meus olhos costumam estar fechados. A cabeça venta e os olhos estão fechados em pleno derretimento. Estou na sala e os olhos cerrados em dura introspecção. Estou no palco, e dominada por minhas paranoidelias, a face remexida em angústia e gozo, lá estão eles, os olhos, cada um dos dois, fechados. Até quando sou outra natureza, aí é que talvez sequer haja olhos. Um ao menos, bêbedo. Sempre estilhaço com o poder dos olhos de arrepiar vértebras por aí.
Preferiria cortar os pulsos a entregar-te esta carta. No entanto, sendo ela o desdobramento de um pequeno poema ingênuo que fiz há algum tempo atrás e que ainda me engasga, sinto que devo fazê-lo. Porque é para você. É para você também porque é tão meu tudo o que digo, mas não sou eu.
E sobre o tempo nos calemos. Ele é frio. Tão frio quanto se pode ser quente. Não achas? O que vem depois do tempo? E onde é que ele está? Aqui, com você, ou lá, comigo? Faço as perguntas erradas? No tempo em que te encontrei casualmente pelas ruas de pedra, minha voz para você foi cálida. A mais cálida voz que pronunciei. Não a conhecia. Obrigada. Você percebeu? Eu nunca tinha lhe falado daquela forma. E, no entanto, dois passos adiante eu já pensava borboletas com outra voz, a saber, uma que habita minha cabeça e que sou eu sem parecer ser. É que me confundo agora: será sempre a mesma voz, ou sempre diferente sem que me dê conta? O que estou tentado te dizer agora?
Pausa.
Sobre o tempo. O tempo hoje me foi montanha. A montanha é um acontecimento. Ela consegue nos enganar, parece parada e dinossáurica. A mim, ela traz certa palpabilidade ao que sempre esteve e sempre estará. Um remedinho para a cabeça. Suas dobras, são assim, registro inexpressivo do atempo. Ela se acontece; se faz ela mesma horizonte. Parece mas não é, acontece.
Não se trata de algo conhecido. No meu penoso exercício de segundo a segundo – e o tempo não me deixa mentir, mente ele mesmo – o que minha mão quer tocar não é teu rosto. E se tento através de palavras, é porque talvez eu realmente goste de me sabotar. Delicio-me com os solavancos que a facticidade me proporciona. Se me ouvires gargalhar descuidadamente, é que nasci aos trancos, sob a égide de uma coragem súbita que me impulsiona para o stand by. Eu permaneço, eu perpasso, eu consigo. Eu vivo, com tudo isso.
Mas sobre viver, não posso me adiantar. Vivo aqui e já acabou. Viva! Já se foi o que era ontem e o que é agora, porque quando chegas ao final da palavra agora, acabou-se, toda tentativa apenas reverbera, sem que se tenha qualquer domínio sobre os encadeamentos curiosos de um todo inalcançável pois fatalmente inexistente. Fatalmente aficcionada. Cheguei perto de dizer algo que queria, mas não queria dizer. Já se foi o disco-voador.
Não quero cercas. Vim revoltada aos papéis gritar que não sei de nada. E que não me cobrem nunca, pois eu mesma já não o faço. Não olho as horas no relógio. Se como? Muito pouco. Se durmo? Muito menos. Como sou pequena. O que chamo de realidade é uma montanha-russa. E vou comer e dormir? E tudo o mais?
Ontem que era hoje já, dancei a noite, ao som do meu próprio canto. Meu canto é a corda no labirinto. Meu canto são as migalhas de lucidez no ébrio devaneio. Ah, como sou poética. É de matar...
Há momentos em que paro de escrever, que já está bom, que já fracassei em tentar falar, entretanto sinto-me como uma pílula efervescente que não se gasta, mas se nutre das próprias bolhas, umas nascendo de dentro das outras. Talvez seja por isso que me caiba tão bem, ao que parece, ter esses olhos de caleidoscópio. Esses pés que levitam sobre as pedras, essas mãos tensas emanando energia que ora pulsa laranja, ora azul turquesa, dos dedos para o quadro do grande, amplo sei lá o quê que me contém sem que eu abarque qualquer traço. Esse corpo que pensa bailando junto ao ar, cada partícula frenética, tudo girando, pessoas, objetos, noções, plantas, animais, velhas. Nessas horas, posso até morrer.
Toda dose de drama é friamente calculada. Não sei quem calcula pois eu mesma não me entendo com a exatidão matemática. Ela me inspira a mais nobre admiração, me consterna, mas não me quer. E vivemos assim, a nos esbarrar pelas ruelas e goelas, como acontece também conosco. Digo eu e você, a quem endereço esta infame carta não datada.
Quando também eu for uma velha, aquela velha que vejo no fundo do espelho através dos meus olhos caleidoscópicos, não quero me lembrar destes meses, destes dias ou sequer deste lugar. Quero lembrar-me de outra forma, lembrar de uma forma que não se possa chamar de lembrar, que seja outra coisa, assim também contida e suspensa. Mas deve ser coisa de doido, porque poderia fazer tudo de outra forma, se assim quisesse. E por que não mudar os sensos? Isso é delicado. Eu poderia inventar novas palavras. Qualquer um poderia. Se chamasse amor de ‘gantere’. Bom, ele seria a mesma coisa, certo? Digo, da maneira como aprendi que se dá em mim. Então é preciso torturar o termo até que ele se torne um fio. Um mero fio condutor. Porque amor ou gantere, enquanto tal, o que é, para além das letras? Mais interessante talvez fosse explodir ou implodir, não sei, o amor sem que se soubesse, deixá-lo escapar entre o misto de pensamentos e sensações sem tentar encerrá-lo em sílabas, para que ele pudesse ser cada dia coisa nova, movediça, vacante e gauche. Assim, toda qualquer outra coisa poderia ser um desarollo inexprimível e vivível. Engraçado e anárquico – o sentir mesmo, corpo absurdo. Claro que, nesse caso, dar nomes seria pura brincadeira, seria por pura diversão e exercício de fantasia. Finda a brincadeira, findo o mundo.
E agora, por exemplo, me vem à tona o fundo. O fundo profético. O fundo que me guarda, que te guarda, que aguarda a tudos nós. Fundo como sábio que é, não nos aguarda. É óbvio. O fundo só é. É na noite, é no dia, meu caro. E quando digo que me és caro, é porque o é profundamente. É obscuro. No escuro, te trago um pequeno segredo. Havia uma escada na minha vida, quando menina. Dia desses, eu conversava ao telefone com minha mãe, e entre seu pensamento ziguezagueante e sua fala frívola ela diz: ‘a escada de madeira da casa da sua madrinha, lembra? Quebraram tudo. Uma pena... blá blá blá...’. Saí do ar, tomada que fui pelas horas que passei sozinha brincando na tal escada de madeira encerada... a parede de pedras do lado direito de quem desce, do lado esquerdo de quem sobe. As telhas transparentes sobre a escada pelas quais eu via se era noite, a cor do dia, se chovia. No estreito corredor feito da escada, eu era pura criança. Ficava sozinha ali, separada, entre o primeiro e o segundo andar da casa da minha madrinha. Penso qual outra coisa na minha vida lamentarei tanto quanto saber que essa escada só existe nas memórias da família como escada de madeira encerada. Mesmo depois de adulta, voltava lá e passava a mão pelas pedras, procurando as soltas, para ver o que tinha por trás, ou descia sentada deslizando pelos degraus e depois escalava-os como um felino sorrateiro.
Será que encerro por aqui? Peço a conta e afogo-me nos cheiros do meu lençol, do meu cobertor, morro como cigarro aceso afundada na grande angústia que só o próprio quarto pode proporcionar? Há muitas páginas que apontam atalhos para o fundo derradeiro. Tenho tanto a ler. Certas leituras trazem-me um sabor de vazio tão intenso que faz-se em mim a cicatriz da fome, aquela marca indelével dos sem nome.
Eu não tenho um nome. Eu poderia ser Gabriela. Poderia ser Valquíria e adoraria ser Magali. Se meu nome fosse Sandra, quereria chamar-me Beatriz, e invejaria as Isabelas. Mas se fosse Paula, amaria ser chamada de Denise e talvez acordasse Maria Cecília, ou Maria. Já pensei em ser Guilherme e já fui Calímaco. É o de menos, como me chamas. Podes inventar para mim um nome agora mesmo e assinar esta carta. Fica como um segredo teu, porque de qualquer maneira, se me chamasses por esse nome, eu não te atenderia. Estou muito condicionada a ser eu mesma.
Escuta. Estou na tua frente e minha boca se abre cheia de fumaças. O rio continua a correr ele mesmo, Outro. Escrevo rápido tentando amontoar palavras que justifiquem toda essa parvoíce que embrulho e fecho com um belo laço de fita para te entregar. Não posso garantir nada do que disse. Tomemos um café para discutir essas contradições. Em algum lugar no futuro. Sendo que não há o futuro e nunca houve, passado, O passado, não mais desde agora. Se eu te disser que quero uma carta-resposta. Se eu te disser que não quero nada. Que tenho medo. Que não sei. Que não há quando. Que sou isso mesmo e me envergonho. Que me orgulho. Que não sei se estou pronta, se você está. Que não sei para quê.
Se não pude sequer datar esta merda, não poderias esperar que a finalizasse como exige a formalidade das cartas. Mas é simples: estou nas últimas linhas. Escrevi porque senão morreria. E cada palavra é, na dúvida e em certeza, a minha morte mais tenra. Entretanto, é a vida que te quero. É ela a todo momento, e não me tomes por uma otimista simplória. A vida e a felicidade, se quiser falar sobre isso também, são fontes da mais cristalina dor que pode um homem. Sem reducionismos, por favor. Eu, como homem que sou, como mulher que desisti, como essa coisa de espírito feito cativo de corpo, só posso dizer que não existo, mas sinto, na medida em que aconteço. Eu sinto muito que você me acontece.
Olho tuas mãos e vejo nelas encerrados muitos dizeres. Na impossibilidade de tomá-las, digo eu tudo o que me vem à mente atordoada. Não espero mais. Espero a todo instante. O instante que ronda e explode em passado. Olho as minhas mãos e recuso-me a me reconhecer. Não aceito estar assim, dentro de um self-portrait que não sou eu e não é ninguém mais. Eu devo dizer, atenção, leia com muita atenção, que estou passando. Que não sou flor. Estou a passar. Obrigada.
Pensei em revisar a carta, mas desisti. Umas sete vezes. Não faz sentido isso. Não há nada sendo acordado aqui, isso não é um tratado, são linhas, papéis e tinta preta. É dor na mão. Isso não é brega, não é carta de amor, pois o amor me esconde a cara, quer jogar. O amor é tão infinitamente mais outra coisa do que ele mesmo. Desculpe-me, mas vivo amor. Pare já, caso esteja sentindo revirado o estômago, lendo o amor como isso que se vende por aí. Não mereço entrar neste lugar, sou indigna de qualquer piedade e devo ser mal-entendida, miss-under-stood. Quero dizer entendida de outra forma. Mas isto é fácil. Desconfia de mim. E estou mesmo sendo bem clara agora. Pode me chamar Clara. Clara ama a vida. Clara não sabe o que seria amar. Não sabe o que é a vida. Saberia a morte algum dia? Pouco importa. Viste tudo o que escrevi até aqui? Consigo deixar se entrever a diferença no fundo do cômodo?
Conheceste a minha letra. Como fiquei agora bastante constrangida, penso que é hora de parar. Olho minhas mãos e elas me ignoram. Eu também ignoro todo o resto. É preciso rever. Não revisar, tampouco reconhecer. É preciso rever. É como se fosse possível ver. Eu pura textura nas tuas mãos. Eu palavras sem dizer dizendo um mundo de dentro que se desdobra em querer ser. E o ter anda tão démodé... ultimamente a boca anda cheia de paroles que não cessam de se calar, umas engolindo as outras em tumultos de não entendimento, numa caçada atroz ao ato destruidor de tudo que era. Porque não há o que tenha de ser.
O jeito é rir. O jeito é.
A campainha tocou. Que susto. Estou agora sem cigarros. Não se surpreenda se eu lhe enviar outra carta um dia. Não se surpreenda. Deixe-se surpreender, e isto não é conselho, não é nada. Histrionismo literário, falo por falar. Falando, parece que tem outro sentido. Equivoco-me, as palavras me sobem pelos tornozelos, entrelaçando-se, tombam-me de boca na caneta falaciosa. Estou surpreendida de assalto. Roubada de úngulo sentido. Arrombada de mirolhos anfanchantes qui sebariondam porálias laciduantes. Por tudo, por nada e qualquer coisa. Obrigada.
Explico-me. Acordei e era dia. Não sabia então qual algo estava por vir. É óbvio. Aconteceu de tornar-me assistente de mágico logo pela manhã. Fui enfiada numa caixa escura e atravessada por sem número de facas de papel afiadas pela pedra de uma densa poesia em prosa. Cheguei a chorar, se me permites confidenciar sem constrangimento. Fora isso, fazia sol, hoje, depois de dias cinzas.
Foi tão bonito o atravessamento, tão comovente, que vislumbrei um mito, creio eu. Mas não sei precisar a origem, apenas supus - por alguma maneira boba e qualquer de olhar as coisas que acontecem - que se tratava de uma manifestação em alguma medida mítica. É simples: fui dilacerada, morri em horror e sangrando cada frase senti-me tão plena! Tão nada! Tão plácida! Lia a correr, espantada com tamanha identificação, que me lanço agora aos meus próprios papéis para jorrar conjecturas ressurreicivas. Não sei como, já há tempos, não sei quanto, pensei em você para escrever. Não digo que tento o dividir pois seria bobagem. Não consigo jamais.
No momento em que lia minha boca tremia, a voz vacilava, meu corpo se debatia. Convulsionava pensamentos e queria falar, falar o quê? Queria escrever esta carta que não sei como termina. Precisei parar e organizar alguma coisa saltitante que coubesse ao menos em linhas, sem nunca esperar que essas linhas contivessem qualquer sentido ou serviço. A clareza nas linhas é fim de túnel. A sensação de dentro do túnel se perde na luz do seu fim. Perde-se o melhor. Esquece-se. Enfim, pude ver-me escrevendo estas palavras inexatas, como quem titubeia, em papel vegetal à tinta preta. Para mim, são assim cartas. Ou em folhas amareladas de caderno velho. Possuo um. O caderno velho é bonito, parece que faz a gente escrever como grandes poetas; penso até que inspiraria certa ancestralidade poética, certa visceralidade incontestável daquilo que se molda às palavras num rompante generoso mas que permanece suspenso. As musas. Devem ser elas feitas de papel amarelado e nesse caso, só poderia escrever no papel vegetal, ou seria heresia. Até porque nele a palavra vaza do outro lado. É rara. É latente. É contrária. Não é publicada. É fugidia. Transparente. Não é inspirada, é segredo. Escreveria no ar, mas poderias ler? E para que ler? Se não queres ler, ateia fogo a este papel e a esta tinta. Eu continuo ecoando em algum lugar que não me diz respeito.
Desta não-feita, prossigo. Antes de estar aqui esparramada, fui caminhar, sonhando minha pele estava com o toque do grande sol. Piegas, mas ele é grande mesmo. Pedi a meus pés que me levassem em direção à flor que habitaria uma garrafa de vinho vazia na minha casa. Acreditei que seria levada, e isso existiu porque acreditei. Existir é feito de fé, não é? Essa flor é para você, porque eu nunca te daria flores. Mas a flor que encontrei eram duas, que arranquei do meio de outras muitas flores laranjas. Vívidas sob o sol, trouxeram a mim estupor e inveja... por que eu não sou assim tão, brincalhona? Perto das flores havia três meninas, era uma praça, era de tarde. Olhei pra elas, cheia de vergonha com as duas flores na mão, me sentido a quarta menina e então galopei sumindo do seu campo de visão. Lembrei da menina de cabelos vermelhos que fui eu um dia e da qual resta agora tão pouco, a não ser o fato de que sou ela desde antes e dela nasci. Não faz tempo, foi ontem, talvez.
As flores. Não peguei duas porque pretendia. Antes eram elas as mais proeminentes e pendiam do mesmo galho. Eram como olhos de lagarto, uma para cada lado, mas, diferente dos olhares tensos dos répteis, os pequenos olhos fluorescentes em flor olhavam estrabicamente despojados, sincronizados à vontade com o balanço do meu corpo e o do vento que também dançava meus cabelos.
Se pensas que estou feliz e cor-de-laranja, não me superestime. Essa capacidade bucólica eu não encontrei. Passam dias sem que eu sinta seu cheiro. Apenas te falo. Falo aqui, e talvez preferisse o silêncio, mas ele tem o hábito de me fugir, vez em quando.
Vou te falar uma coisa agora: andei pensando muito em morte nos últimos tempos. Acordava querendo saber a cara da morte. Como se eu não morresse a todo momento possível. Morro agora do medo do que são nos teus olhos minhas palavras. Cheguei aqui onde poderia: nos olhos. Não uso mais óculos escuros, o que não se deu espontaneamente. Só que ainda a pouco vi meus olhos num espelho e vi que são bonitos. Não vou mais omitir meus olhos. Por ora. É que o espelho estava fundo dentro deles, mas não falo de espelhos porque teria de falar em olhos. E isso é assustador. Os olhos.
Ando tão à espreita de algo em onda perpetuamente por vir. Quero falar-lhe sobre as ondas, porque delas eu nada sei. E me rio disso. Salve os trocadilhos infames. As ondas são isso, o que fica por falar na próxima linha, ou tudo aquilo que já se pensou e se perdeu. E decidi de hoje para mais não me apegar às idéias que me voam. Olho o céu absurdamente azul, liso de toda nuvem e minhas idéias se colam cúmplices ao seu infinito nada límpido. C’est le mystère qui m’ensorcelle...
Divirto-me com as idéias desvairadas. Quem passa à frente de minha porta bem agora? Coisas de quando se é um só. Digo um solitário. Você quer falar de solidão? Não é possível. A solidão, déesse et immortelle. Você não quer falar.
Esta carta, não sei a quê vem. Com que propósito, me é vago. Não tome mal minhas palavras. Não respondo por elas porque não as sei senão como algo infinitamente vasto e indigesto. Um buraco lotado de conexões vazias, enfim, de porquês fortuitos. De lampejos. Da irresponsabilidade de quem não sabe escrever. E se são para você e para ninguém, não é culpa minha. A culpa é do que não se pode dizer.
Se dou voltas e voltas é por ser uma dançarina, e como os cães, os dançarinos gostam de correr atrás do próprio rabo. Se falo de mim, perdoa-me, mas é que tento falar-te, só que não sei tua língua. O que posso fazer com uma língua? Pintar um quadro, como se pode fazê-lo com dedos, pincéis ou cotonetes. Com o cotovelo, com imaginação. Sempre começo a pintar com contornos pretos. Esta carta. Não sei por que, o preto chama depois as cores que lhe convém. Talvez não tenha pinturas sem o preto porque ele é o xamã. É o por trás, um regente – ou seria eu? Ele evoca a pujança das cores. E sobre as cores tudo desliza, a verdade desnuda. Logo, é mentira.
Eu também sou um quadro, e como a mim mesma, tomo os quadros que faço e deles enjôo. Destruo-os e pinto novamente e há que se ter força. Por acaso, ou não? Eu sempre apareço nas minhas próprias pinturas. Há quem sempre apareça nos próprios sonhos, mas nos meus sonhos às vezes eu falto, todavia, nas pinturas sou sempre. Nelas, meus olhos costumam estar fechados. A cabeça venta e os olhos estão fechados em pleno derretimento. Estou na sala e os olhos cerrados em dura introspecção. Estou no palco, e dominada por minhas paranoidelias, a face remexida em angústia e gozo, lá estão eles, os olhos, cada um dos dois, fechados. Até quando sou outra natureza, aí é que talvez sequer haja olhos. Um ao menos, bêbedo. Sempre estilhaço com o poder dos olhos de arrepiar vértebras por aí.
Preferiria cortar os pulsos a entregar-te esta carta. No entanto, sendo ela o desdobramento de um pequeno poema ingênuo que fiz há algum tempo atrás e que ainda me engasga, sinto que devo fazê-lo. Porque é para você. É para você também porque é tão meu tudo o que digo, mas não sou eu.
E sobre o tempo nos calemos. Ele é frio. Tão frio quanto se pode ser quente. Não achas? O que vem depois do tempo? E onde é que ele está? Aqui, com você, ou lá, comigo? Faço as perguntas erradas? No tempo em que te encontrei casualmente pelas ruas de pedra, minha voz para você foi cálida. A mais cálida voz que pronunciei. Não a conhecia. Obrigada. Você percebeu? Eu nunca tinha lhe falado daquela forma. E, no entanto, dois passos adiante eu já pensava borboletas com outra voz, a saber, uma que habita minha cabeça e que sou eu sem parecer ser. É que me confundo agora: será sempre a mesma voz, ou sempre diferente sem que me dê conta? O que estou tentado te dizer agora?
Pausa.
Sobre o tempo. O tempo hoje me foi montanha. A montanha é um acontecimento. Ela consegue nos enganar, parece parada e dinossáurica. A mim, ela traz certa palpabilidade ao que sempre esteve e sempre estará. Um remedinho para a cabeça. Suas dobras, são assim, registro inexpressivo do atempo. Ela se acontece; se faz ela mesma horizonte. Parece mas não é, acontece.
Não se trata de algo conhecido. No meu penoso exercício de segundo a segundo – e o tempo não me deixa mentir, mente ele mesmo – o que minha mão quer tocar não é teu rosto. E se tento através de palavras, é porque talvez eu realmente goste de me sabotar. Delicio-me com os solavancos que a facticidade me proporciona. Se me ouvires gargalhar descuidadamente, é que nasci aos trancos, sob a égide de uma coragem súbita que me impulsiona para o stand by. Eu permaneço, eu perpasso, eu consigo. Eu vivo, com tudo isso.
Mas sobre viver, não posso me adiantar. Vivo aqui e já acabou. Viva! Já se foi o que era ontem e o que é agora, porque quando chegas ao final da palavra agora, acabou-se, toda tentativa apenas reverbera, sem que se tenha qualquer domínio sobre os encadeamentos curiosos de um todo inalcançável pois fatalmente inexistente. Fatalmente aficcionada. Cheguei perto de dizer algo que queria, mas não queria dizer. Já se foi o disco-voador.
Não quero cercas. Vim revoltada aos papéis gritar que não sei de nada. E que não me cobrem nunca, pois eu mesma já não o faço. Não olho as horas no relógio. Se como? Muito pouco. Se durmo? Muito menos. Como sou pequena. O que chamo de realidade é uma montanha-russa. E vou comer e dormir? E tudo o mais?
Ontem que era hoje já, dancei a noite, ao som do meu próprio canto. Meu canto é a corda no labirinto. Meu canto são as migalhas de lucidez no ébrio devaneio. Ah, como sou poética. É de matar...
Há momentos em que paro de escrever, que já está bom, que já fracassei em tentar falar, entretanto sinto-me como uma pílula efervescente que não se gasta, mas se nutre das próprias bolhas, umas nascendo de dentro das outras. Talvez seja por isso que me caiba tão bem, ao que parece, ter esses olhos de caleidoscópio. Esses pés que levitam sobre as pedras, essas mãos tensas emanando energia que ora pulsa laranja, ora azul turquesa, dos dedos para o quadro do grande, amplo sei lá o quê que me contém sem que eu abarque qualquer traço. Esse corpo que pensa bailando junto ao ar, cada partícula frenética, tudo girando, pessoas, objetos, noções, plantas, animais, velhas. Nessas horas, posso até morrer.
Toda dose de drama é friamente calculada. Não sei quem calcula pois eu mesma não me entendo com a exatidão matemática. Ela me inspira a mais nobre admiração, me consterna, mas não me quer. E vivemos assim, a nos esbarrar pelas ruelas e goelas, como acontece também conosco. Digo eu e você, a quem endereço esta infame carta não datada.
Quando também eu for uma velha, aquela velha que vejo no fundo do espelho através dos meus olhos caleidoscópicos, não quero me lembrar destes meses, destes dias ou sequer deste lugar. Quero lembrar-me de outra forma, lembrar de uma forma que não se possa chamar de lembrar, que seja outra coisa, assim também contida e suspensa. Mas deve ser coisa de doido, porque poderia fazer tudo de outra forma, se assim quisesse. E por que não mudar os sensos? Isso é delicado. Eu poderia inventar novas palavras. Qualquer um poderia. Se chamasse amor de ‘gantere’. Bom, ele seria a mesma coisa, certo? Digo, da maneira como aprendi que se dá em mim. Então é preciso torturar o termo até que ele se torne um fio. Um mero fio condutor. Porque amor ou gantere, enquanto tal, o que é, para além das letras? Mais interessante talvez fosse explodir ou implodir, não sei, o amor sem que se soubesse, deixá-lo escapar entre o misto de pensamentos e sensações sem tentar encerrá-lo em sílabas, para que ele pudesse ser cada dia coisa nova, movediça, vacante e gauche. Assim, toda qualquer outra coisa poderia ser um desarollo inexprimível e vivível. Engraçado e anárquico – o sentir mesmo, corpo absurdo. Claro que, nesse caso, dar nomes seria pura brincadeira, seria por pura diversão e exercício de fantasia. Finda a brincadeira, findo o mundo.
E agora, por exemplo, me vem à tona o fundo. O fundo profético. O fundo que me guarda, que te guarda, que aguarda a tudos nós. Fundo como sábio que é, não nos aguarda. É óbvio. O fundo só é. É na noite, é no dia, meu caro. E quando digo que me és caro, é porque o é profundamente. É obscuro. No escuro, te trago um pequeno segredo. Havia uma escada na minha vida, quando menina. Dia desses, eu conversava ao telefone com minha mãe, e entre seu pensamento ziguezagueante e sua fala frívola ela diz: ‘a escada de madeira da casa da sua madrinha, lembra? Quebraram tudo. Uma pena... blá blá blá...’. Saí do ar, tomada que fui pelas horas que passei sozinha brincando na tal escada de madeira encerada... a parede de pedras do lado direito de quem desce, do lado esquerdo de quem sobe. As telhas transparentes sobre a escada pelas quais eu via se era noite, a cor do dia, se chovia. No estreito corredor feito da escada, eu era pura criança. Ficava sozinha ali, separada, entre o primeiro e o segundo andar da casa da minha madrinha. Penso qual outra coisa na minha vida lamentarei tanto quanto saber que essa escada só existe nas memórias da família como escada de madeira encerada. Mesmo depois de adulta, voltava lá e passava a mão pelas pedras, procurando as soltas, para ver o que tinha por trás, ou descia sentada deslizando pelos degraus e depois escalava-os como um felino sorrateiro.
Será que encerro por aqui? Peço a conta e afogo-me nos cheiros do meu lençol, do meu cobertor, morro como cigarro aceso afundada na grande angústia que só o próprio quarto pode proporcionar? Há muitas páginas que apontam atalhos para o fundo derradeiro. Tenho tanto a ler. Certas leituras trazem-me um sabor de vazio tão intenso que faz-se em mim a cicatriz da fome, aquela marca indelével dos sem nome.
Eu não tenho um nome. Eu poderia ser Gabriela. Poderia ser Valquíria e adoraria ser Magali. Se meu nome fosse Sandra, quereria chamar-me Beatriz, e invejaria as Isabelas. Mas se fosse Paula, amaria ser chamada de Denise e talvez acordasse Maria Cecília, ou Maria. Já pensei em ser Guilherme e já fui Calímaco. É o de menos, como me chamas. Podes inventar para mim um nome agora mesmo e assinar esta carta. Fica como um segredo teu, porque de qualquer maneira, se me chamasses por esse nome, eu não te atenderia. Estou muito condicionada a ser eu mesma.
Escuta. Estou na tua frente e minha boca se abre cheia de fumaças. O rio continua a correr ele mesmo, Outro. Escrevo rápido tentando amontoar palavras que justifiquem toda essa parvoíce que embrulho e fecho com um belo laço de fita para te entregar. Não posso garantir nada do que disse. Tomemos um café para discutir essas contradições. Em algum lugar no futuro. Sendo que não há o futuro e nunca houve, passado, O passado, não mais desde agora. Se eu te disser que quero uma carta-resposta. Se eu te disser que não quero nada. Que tenho medo. Que não sei. Que não há quando. Que sou isso mesmo e me envergonho. Que me orgulho. Que não sei se estou pronta, se você está. Que não sei para quê.
Se não pude sequer datar esta merda, não poderias esperar que a finalizasse como exige a formalidade das cartas. Mas é simples: estou nas últimas linhas. Escrevi porque senão morreria. E cada palavra é, na dúvida e em certeza, a minha morte mais tenra. Entretanto, é a vida que te quero. É ela a todo momento, e não me tomes por uma otimista simplória. A vida e a felicidade, se quiser falar sobre isso também, são fontes da mais cristalina dor que pode um homem. Sem reducionismos, por favor. Eu, como homem que sou, como mulher que desisti, como essa coisa de espírito feito cativo de corpo, só posso dizer que não existo, mas sinto, na medida em que aconteço. Eu sinto muito que você me acontece.
Olho tuas mãos e vejo nelas encerrados muitos dizeres. Na impossibilidade de tomá-las, digo eu tudo o que me vem à mente atordoada. Não espero mais. Espero a todo instante. O instante que ronda e explode em passado. Olho as minhas mãos e recuso-me a me reconhecer. Não aceito estar assim, dentro de um self-portrait que não sou eu e não é ninguém mais. Eu devo dizer, atenção, leia com muita atenção, que estou passando. Que não sou flor. Estou a passar. Obrigada.
Pensei em revisar a carta, mas desisti. Umas sete vezes. Não faz sentido isso. Não há nada sendo acordado aqui, isso não é um tratado, são linhas, papéis e tinta preta. É dor na mão. Isso não é brega, não é carta de amor, pois o amor me esconde a cara, quer jogar. O amor é tão infinitamente mais outra coisa do que ele mesmo. Desculpe-me, mas vivo amor. Pare já, caso esteja sentindo revirado o estômago, lendo o amor como isso que se vende por aí. Não mereço entrar neste lugar, sou indigna de qualquer piedade e devo ser mal-entendida, miss-under-stood. Quero dizer entendida de outra forma. Mas isto é fácil. Desconfia de mim. E estou mesmo sendo bem clara agora. Pode me chamar Clara. Clara ama a vida. Clara não sabe o que seria amar. Não sabe o que é a vida. Saberia a morte algum dia? Pouco importa. Viste tudo o que escrevi até aqui? Consigo deixar se entrever a diferença no fundo do cômodo?
Conheceste a minha letra. Como fiquei agora bastante constrangida, penso que é hora de parar. Olho minhas mãos e elas me ignoram. Eu também ignoro todo o resto. É preciso rever. Não revisar, tampouco reconhecer. É preciso rever. É como se fosse possível ver. Eu pura textura nas tuas mãos. Eu palavras sem dizer dizendo um mundo de dentro que se desdobra em querer ser. E o ter anda tão démodé... ultimamente a boca anda cheia de paroles que não cessam de se calar, umas engolindo as outras em tumultos de não entendimento, numa caçada atroz ao ato destruidor de tudo que era. Porque não há o que tenha de ser.
O jeito é rir. O jeito é.
A campainha tocou. Que susto. Estou agora sem cigarros. Não se surpreenda se eu lhe enviar outra carta um dia. Não se surpreenda. Deixe-se surpreender, e isto não é conselho, não é nada. Histrionismo literário, falo por falar. Falando, parece que tem outro sentido. Equivoco-me, as palavras me sobem pelos tornozelos, entrelaçando-se, tombam-me de boca na caneta falaciosa. Estou surpreendida de assalto. Roubada de úngulo sentido. Arrombada de mirolhos anfanchantes qui sebariondam porálias laciduantes. Por tudo, por nada e qualquer coisa. Obrigada.
Assinar:
Comentários (Atom)

