Você se lembra? O mundo girando no burburinho de pessoas na rua do cinema, o dia em que o sol dá o ar da graça entre as nuvens como um naco do seio que se desnuda na camisa folgada, suave luz escapando pelo nublado; lembra do vento cheio de cheiros, trazendo risadas de clima ameno? Não é paz, é uma superfície fluida.
Eu sei que ela gosta de mim, talvez pela música que lhe fiz. Acho que ela gosta do jeito que eu preparo as coisas que ela não come. Eu gosto do jeito que ela entende.
Lavava o rosto, eu. Água gelada até o limite dos cabelos. Caradas nas mãos cheias d’água. Delícia. Vejo a luz do sol entrando pela janela, espalhando-se na tampa branca do vaso. O peito aliviou, respirou todo contente, vi no espelho.
Continue a nadar, ela diz, continue a nadar. Amasse a massa, separe-a, enrole-a, junte-a, corte-a, amasse-a... e sobretudo, continue a nadar.
Leitor caro, não me diga que isso que escrevo é auto-ajuda. Leitor raro, cuide de imaginar, não me amole com respostas.
Caneta nova caderneta, convida a café nos fundos dessa espelunca que tem alma de velha, butiquim, pardieiro, substrato poético. Tentam mudá-la, refiná-la,limpá-la, nivelá-la, mas sua arquitetura delata (para mim que a conheci antes da reforma).
Terei eu achado mais uma vez que matando a saudade, nesse caso sentando nesse banco e nessa mesa, terei eu achado mais uma vez que um surto de inspiração justificaria a ânsia, a fome?
A pior coisa é sentar de frente para o banheiro. Explicaria porque mas estou evitando a fadiga. Atende-me. Attendez-moi.
O que eu faço com tanta velocidade? As cores, os rostos, os sentidos, os sentimentos, os quases, as pausas, as vontades, as lembranças, os cheiros, as visões, as conversas, os sabores, os saberes. Parece que alimento uma bomba cuja dimensão do estrago eu não conheço. Pus até um relógio relíquia de família no pulso para a contagem regressiva.
Ah! Quando digo sentidos não são os bons e velhos cinco, são as anti-sacações.
Por que sentar aqui e escrever essas coisas, por que querer que você me leia? Eu não quero falar de você, estou aqui sozinha e não quero falar de você. Não estou olhando as horas no relógio automático para ver se já posso ir a sua casa.
Fiquei imaginando quem daqueles tempos (sim, puro saudosismo, até ela que mal chegou já sente) quem daquela galera mais [...?] iria aparecer por aqui, como eu revivendo um lugar povoado de histórias. Quem tomaria um café ou dois ou três e me presentearia com pérolas das linguagens?
Ao mesmo tempo que me espanta a quantidade e a densidade de livro que se pode ler nessa vida, diverte-me o quanto se pode escrever e as coisas sobre as quais se escreve dessa vida.
Acho que estou tendo uma reação alérgica. Não param de surgir pontos avermelhados pelo meu corpo, incham e coçam como mordidas de pulga. Lembro do momento em que surgem as duas primeiras.
Empolguei na fala de maneira tão comovente que meus companheiros de mesa explodiram em gargalhadas. Eu de olhos arregalados, todos comungando diante de muros brancos e aí coçam-me duas bolotas. Falava sobre algo que não tem controle.
Olha, eu já tentei escrever histórias e não consegui. Em mim a história se dá na boca porque o ritmo da escrita é outro, é esse caminho desencaminhado. Tudo bem, também não entendi o que isso quer dizer precisamente.
Relógio, relíquia, olho o relógio e tenho mesmo que treinar a leitura dos ponteiros. Chego a olhar às vezes, até prolongadamente, e me perder no desenho dos minutos e das horas ou ficar hipnotizada pelos segundos, sendo que deixo o beijo no relógio sem saber das horas. Esqueço-as tão espontaneamente. Porém, são elas, as horas, as minhas ninfas disfarçadas e serelepes banhando-me de caraminholas.
É o terceiro e último café. Um e cinqüenta. A garçonete olha para mim rindo ‘Gosta, né?’. Gosto, moça. Pensei rapidamente em dizer: ‘café para dar inspiração’. Café fresco, meus namoros, teu dedo no meu dente, teus dentes na minha língua. Ela me falou das gotas, me falou dos sonhos, do café.
Por que mesmo comecei a escrever esse texto? Você se lembra?
Ah! Esqueça! O caminho está límpido e vasto como um céu; há uma estrada prenhe e longa onde nos vêem seguir. Te encontro no caminho de casa, deliro te encontrar pelas ruas, é tão acidental. Você me adora quando é acidental. Obrigada, estou indo tomar alguma coisa e fumar um cigarro na sua casa.
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