segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Série Cartas - Carta para um dia

Oh, como é generosa a terra. Deixa que eu deite minha cabeça sobre seu travesseiro de grama, montinho fofo esperando meu corpo repousar. Travesseiros sob todo o corpo e por cima o sol. Para o sol não há olhos fechados, ele queima as córneas enquanto vemos os mais intensos vermelhos, grande maravilha dos efeitos. E ao levantar fugida do calor insuportável, corro dentro de um mundo azul, azul de contrastes e assim vejo tudo em tons de azul.

Você sabe o quanto custa tudo isso? O quanto custa sair da bolha? E sabe o valor de olhar para o lado e ver alguém que com olhos cúmplices faz o mesmo? Sabe o que significa ser assim? Quando eu fumo este cigarro e ainda te amo. De novo... voltei a dizer que te amo. Acabo de me dar conta, a muito pouco do quanto minhas palavras se extrapolam tentando encobrir isso de amar. Sempre no esforço de não usar a palavra amor e sim de dissolvê-la.

Meu querido, você já virou tantos outros e todos os dias... ainda te olho com ternura e te quero os beijos e nada mais. Ainda te ouço chegar. E se agora me tranco e te ofendo aqui onde você não pode ouvir,é porque quero me aprontar para ser um elástico capaz de te alcançar. Naquele rascunho era o que eu te dizia que te amo e que queria aprender com você a amar outro amor. Eu talvez tenha fracassado na imprecisão das palavras, mas principalmente, não pude perceber antes de tudo acabar, o meu atuar amante livre de discursos, livre de manias. Eu sei que não preciso pedir-te desculpas por isso o faço para que talvez entendas que reconheço. Todavia, sei que não me cabe tentar voltar e sim ir, ir-me para quando for. É que ao te olhar me vem o luto de não ter podido viver-te mais. Mas vives, isso me deve bastar.

A amoreira pende frutas das suas mãos generosas e estou lá sob sua copa a me esbaldar. Oferece-me as frutas maduras e oferece-me também o azedume da pressa, sou eu que escolho as frutas.

Escondi teu nome e não consigo mais achar. Contudo, sei que não posso mais ficar perto de você e é assim que você me faz correr, me faz viajar, me encoraja a me lançar para outros braços, outros acasos. Nisso, te agradeço e te amo, no resto prefiro deixar de pensar. E você sabe o quanto isso custa?

Ameniza o peso das minhas palavras, faz delas flores ao vento. Venha um dia, sim. Por favor. Sob essa neblina, sob essa solidão, sob essa rachadura. Venha sim. Deita no meu colo pronto pro teu corpo repousar e me entrega teus cabelos e tuas mãos. Ouve as músicas que ponho a tocar.

Sigo querendo ver-te ou seguro-me?

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