quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Je suis une bête de silence

‘She left. She did leave. He did it. [tudo passa, não me lembro onde estava] (...) the midday sun above the top of my head (...) mirrors, children, motorcycles, a woman and her face [passo a olhar os rostos, pois de repente eu não soube precisar, interpretar e ler aquele rosto. Franzia-o pela claridade esturricante? Era feliz? Esperava alguém?] Olhe: podia ser que jamais novamente poderia entender um rosto. Another woman. A mesma falta de rosto, olhar vago, vaguíssimo. No sonho desta noite os muros caíam. They tumbled down, the dust raised up like dancers in spirals, i see it, and there is the silence. You watch the ruins, you know the noise of it used to be deafening, but the only thing now is the silent dust and you’re still alive. You walk your promenade. Eu ruí com os muros, e ainda estava lá. Não, eu não era aquela mesma, com o mesmo cabelo, os mesmos pensamentos. Era? Não. Impossível e desnecessário. Só seria uma coisa mesma se o admitisse. Contudo, os olhos não desconfiavam, antes estavam estrangeiros e seguindo em zigue-zigue, suspensos, se se pode dizer uma cousa dessas. O silêncio de vão. O silêncio de não. Memória puro silêncio. O sim do silêncio no carretel de vácuo, onde o silêncio não é dor não é e não está nem no vácuo. O silêncio do meu rosto, sim. Não quando não há música, e não há ruído e há o morto que não ouve. Estou dizendo que o silêncio é morte poética de quem vê, é borda que transborda, dissolvida sempre, bolha de sabão rosa verde, metal. Fogo-fátuo não porque é mudo, porque brilha, porque ressuscita um morto, que não é ele mesmo. Perguntar de silêncio será pensar em vida após a morte (...) não o paraíso, silêncio bom ou ruim. E os rostos que já conhecia? Conheci? Digo, os rostos familiares. Não parece prudente confiar neles – em mim. Eu sobrava de silêncio. O silêncio serpente, sorrateiro, irmão do silêncio de repente, primo de pausa, esposo do fim de lágrima. O silêncio onde está? No ouvido? No que não se ouviu? Dentro ou fora? Nas coisas? Ouve-se mais? Ou se pode ouvir menos, quando se fica velho, e que os ouvidos já se deterioraram. Mas serão necessários ouvidos, se ouve a pele arrepiada, os ossos deslizando nas articulações, um bolo no peito é ouvido e mesmo o sonho, o silêncio é sonho, porque, o que você ouve quando sonha? Dorme-se de silêncio? Dorme-se sem saber em leitos silenciosos, mesmo as vozes do corpo, leitos de rios de interrogações e quando clamamos a deus os olhos os ouvidos o cu os micróbios e as formigas param: param! E ainda tudo acontece maior que o silêncio de tanto ser ele próprio. Ó, servo da dúvida, inventastes o silêncio e amaldiçoado será, um predador a caçar entre os buracos, os poros, os seios, copos e vozes, instrumentos imaculados, se for capaz! Busca um silêncio onde pode estar, e não se engane de fossas abissais, de outros planetas, que o silêncio não precisa dos teus meios para ter-se. Não se engane com as mãos, queres comer o silêncio? Encher-se dele sem palavras? Esperas, sem titubear, corre até ficar oca, ó fera, oca debatendo-se sem testemunhas do túnel em seu olho eternamente percorrido do ponto de luz, sua língua pura e dura, cheia de nada, cheia de cor, cheia de lacunas, interrompida aqui ali silêncio da frenagem, derrapagem, debandagem. O silêncio resta. Sucumbe o eco da paradeza. ”

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Série Curtos

Vou ficar aqui
Os amores se vão e vou ficar aqui
Aqui comigo onde posso estar em qualquer lugar
Sem esperar uma recompensa
Por tanto amor
Tanto mais que cresci
Ficando aqui
Where I've always been

Where the words have no meaning
Se as mentiras se avolumam
E que tal eu morra em brasas
Se me pedes, pai
Tal qual a tua fênix
Vou morrer porque queres
E mais uma vez com minha mala
Vou partir

Do tempo em que eu tinha certeza
Se queres, eis as cinzas
Ainda que eu não queime teu nome
Mas sei que ficas bem, eu também
Não quero pensar que errei
Quando estiveres onde quereis estar
E o que olhos não vêem, já se sabe
Vou embora sem dizer adeus
Já aprendi

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A rua São José naquela madrugada era cousa p'ra gênio da pintura. A fileira de portas fechadas, trios e duplas de portas coloridas, as mesmas portas do comércio de todo dia, cada uma calada e reticente. Os sobrados que as portas guardavam formavam uma enorme garganta de histórias a céu aberto e cobrindo a curva sem fim, as luzes, muitas luzes, paralelas e compridas faziam as vezes de céu, faziam as vezes de ares, faziam o mundo parecer maravilhoso, mesmo na noite mais triste.
Eu, que vinha caminhando só, sob a chuva, seguindo pelo tapete de paralelepípedos, escuros, molhados, sem saber o que pensar, não podia mais que dançar ao som de um piano que não tocou.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Sobre a intempestividade das almas penadas

Enfim...passei um pano sobre a poeira grossa e fez-se aquela mancha prateada. eram então meus olhos chafurdados em olheiras escuras. depois de tanto silêncio e de tanta censura, senti o des-gosto das palavras que me fugiram. chorei por elas. frases soltas foram tudo o que me restaram. foi por isso que voltei àquela casa.

caminhei vagarosamente sobre o assoalho esperando a mágica acontecer, esperei que as palavras se aglutinassem a cada ranger de madeira, a cada nuvem de pó que subia quando eu mexia nas cortinas, a cada vez que eu me dirigia ao sótão e abria os livros abandonados. desci a escada espiralada e vaguei pela cozinha, pelo banheiro, pelo jardim procurando os textos, procurando as razões, procurando, quiçá, a poesia. já não havia mais nada lá, nada que remetesse a coisa alguma.

quando dei por mim, já não tinha dormido e havia muito que isso não acontecia, ficar desperta toda uma madrugada esperando amanhecer para poder esquecer o dia anterior. foi quando percebi que não estava realmente sozinha. me acompanhava, com a mão sobre meu ombro, um fantasma sem correntes e sem memórias, me perseguindo, me entrando nos sonhos, ou melhor ainda, nos pesadelos. nunca tive muita convicção sobre nenhuma teoria de pós-morte, mas realmente tentei buscar na mente algo que justificasse tal presença. em vão. tácito e curvo, ele não tinha olhar e nem falar.

por mais que eu estivesse à base de remédios para aliviar a dor, aquela presença sutil não parecia ser alucinação. quando eu gritava no casarão, o fantasma era meu próprio eco; quando eu agachava num canto qualquer, ele era minha ressaca moral. e a casa toda continuava vazia, embora eu pudesse ouvi-los rindo da louca miserável, com as expressões deformadas pela complacência, eles todos que encheram aquela casa já há tanto tempo atrás.

também a lua andava morta nesses tempos e eu não entendia tamanha turbulência que provocava o estalido de alguns nomes nos meus tímpanos. voltei aos meus olhos e ordenei que ficassem indiferentes, e disse-lhes duramente que chorar era cousa de criança. o espectro desceu as escadas da entrada e dando a volta pelo lado de fora da casa, conduziu-me até o limite do terreno. o vento frio engrossou, senti o cheiro de papel queimado no quintal e zás! o uivo desesperado dos cães bem dentro do meu peito, como aconteceu no dia em que ele morreu. comecei a lembrar-me vagamaente de suas feições e foi como, inconseqüentemente, cutucar um vespeiro. a verdade é que isso durou dias, essa reconstituição e o cheiro do papel queimado sobrara do feitiço que eu fiz com as próprias mãos para matá-lo. Mas alguma coisa saiu errado, algo faltou, talvez mais do meu sangue, e o feitiço parece não ter-se dado por completo. Meus sorrisos, minha inquebrantável força, minha aparente tranqüilidade, tudo mostrou-se ineficaz no fim das contas, pois nada disso cegou-me o suficiente para esconder o que mais machuca: a pura alucinação do vivo que num passe eu criei e não fui capaz de destruir. agora me ronda e me põe depressa a fugir chorando feito menino dessa alma penada.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Início ou

Estou cansado. É verdade, mas já não significa muita coisa. Já me cansei de estar cansado. Mas ainda mal comecei, ou então comecei mal. Devo tentar recomeçar? Pouco importa. Isso. Isso é que é importante. Devo começar por isso. “O Importante é que pouco importa”. Parece bem humilde. Eu poderia tentar explicar, poderia vasculhar minha memória em busca de sintomas e causas capazes de construir um laudo. Talvez eu até encontraria um culpado. Encontraria nele, no culpado, ligações subterrâneas com as mais inimagináveis desgraças. Feito isso, despejaria sobre ele toneladas e toneladas de fracassos existenciais que insistem em impedir meu caminho, aí com um pouco de sorte poderia me sentir melhor por 1, ou talvez 2 minutos. Posso contar e recontar essa história como tantos outros fizeram antes de mim, mas vou poupá-los, pois estou cansado e também porque sou humilde. Basta dizer por enquanto que de qualquer forma não faria muita diferença. Pois daqui a pouco tempo, eu, que me encontro neste momento no poder, eu, que seguro esta caneta como um cetro e que com ela desenho, vacilante, um esboço de meu reino, eu, o rei, serei destituído do poder e junto comigo todas as imagens e sons que carrego também perderão o comando. Darei lugar então a um outro, nem mais, nem menos humilde que eu, mas para o qual o culpado que criminalizei a pouco, aparecerá como um estranho qualquer, distante demais para ser acusado das desgraças da existência que agora responderão por outro nome e outro som. Libertarão então o ex-culpado e mais uma vez o machado não cairá sobre cabeça alguma. Portanto, enquanto não houver um carrasco para executar sua função, pouco importa. Nem sempre foi assim. Desconfio que nem sempre tenha sido assim. Há aqui comigo algumas histórias antigas, de outros reis provavelmente, Devo contá-las? Vou contá-las, não porque estou menos cansado mas porque gosto mais delas.

Um menino corre, corre e corre, ele tem os braços abertos e empurra o chão com toda força, ninguém está olhando pra ele, corre sozinho contra o vento. Então ele decide parar de respirar, assim ele pode correr mais rápido. E é verdade, ele está mais rápido, num momento ele sorri, no outro ele tem a impressão de ouvir um enxame em sua cabeça, seu estomago desesperado tenta pular pra fora da boca e seus olhos vão ficando escuros, escuros. O menino cai. E respira. Agora ele já sabe que não é livre.

É uma boa história, gosto dela, apesar do menino não ser muito humilde. Ela daria uma ótima história para carrascos, se houvessem carrascos. Vejam só, que ironia, eu, um rei, se é que ainda sou rei, estou completamente submisso a um carrasco. Na verdade nós reis somos muito mais submissos do que se pode imaginar. Eu mesmo mal consigo começar, quem diria então terminar. Deveria tentar ?.............o que ?

M.F.

Série Cartas - Carta Provisória àquele que suplanta

Esta é a última carta que lhe escrevo. E assim espero. Embora às vezes eu até ache bonito se estiver fadada a continuar a lhe escrever por anos e anos.

Estou embrulhando cousas singelas, souvenirs dos gratos, que quero deixar para você, em nome das delícias e das mazelas que você me viveu e que não é possível pôr dentro de uma caixa; vindas de você, esteja certo de que são preciosidades todas as cousas. Ademais, essas tais, só existem depois de você, para você e por você. Este voluntarismo ingênuo não me envergonha, antes desloca-me para um dos poucos lugares onde me encontrei plena: meu pensar na tua figura. Talvez tua caricatura, você engraçado, assim mistura de E.P. e C,G. (e esse segredo fica entre nós).

Mando-te um retrato pintado de que gostas, músicas desse tempo de um ‘nós’ inconstante, um livro para lhe divertir e todas as cartas que não te mandei por falta de você querer, mas agora que estamos assim tão bem, tão amigos e tão distantes, fica com elas, guarda de mim essa cousa sincera que me brotou num dia qualquer em que te olhei e minha vida mudou para longe de seu uso ordinário.

Abriste para mim vários caminhos ao me destruir, pois, tudo o que senti, o que sinto e o que sentirei sempre - mesmo que no buraco de ti em meu peito um aterro de amores vindouros se faça - é o néctar do poeta que morre a sonhar com sua musa. Qual néctar este, que de nenhuma boca sorvi antes com tanta doçura! A tua boca ausente, tua boca que a mim não pertence e penso que é bom, uma vez que não te quero ser dona, ainda que eu lamente que outra pessoa tenha recebido tal honra, tal presente. Mas sei que é alguém que te faz feliz hoje e sempre, amém.

Nós que temos nossos eternos namorados, sabemos como é que o coração bate sincronizado com o abraço amado. Sabemos a respiração combinada dos pares. Pena talvez não termos espaço para mais abraços eternos. É o homem tão pequeno, é o dia tão curto, é o caso tão rápido. É a porta trancada, é a luz tão fraca, é a conversa tão disfarçada, é o desejo tão velado, é a abertura tão estreita, é o acolhimento ao diverso tão preguiçoso. Porém, é a companhia tão saborosa, é o momento tão propício, é o subtexto tão longo, é a saudade tão grande, é o beijo tão peculiar, é o olhar tão profundo, é o sono tão tranqüilo, é a mão tão pegar...

Entre suspiros e tiques nervosos, vi a cara dos meus demônios ante a luz das tuas palavras e dos teus gestos. E embora eles me parecessem horrendos no início, são todos, depois de você, obsoletos. No entanto, não estão ainda domesticados, serão sempre xucros sobre os quais ponho o arreio a fim de continuar a longuíssima viagem dos esquecimentos.

Meu querido... menino, na tua luta com deus – ou talvez na minha - fizeste-me tão feliz sem saber. Fizeste da minha palavra suja poesia e canção, do meu corpo cheiro e passagem, da minha cabeça vento e da minha língua teu nome sagrado. Tu es si charmant! Qu’en est-il écrit à ce sujet...? Un jour j’ai lu ce que vous écrivez, tout ce qui vient de votre âme...

Mando também num vidrinho as últimas lágrimas que te chorei, antes de secarem por completo em lembranças de um tal amor que cumpre sua sina de não se realizar. E choro, bem agora, ao escrever estas palavras, mas acredite, é mais felicidade que tristeza... pois não haverá um ocaso daqui para frente que não me traga o tom longínquo da tua voz e o tamborilar dos teus dedos sobre os móveis.

Lembra da última vez em que te toquei os cabelos? Disse-lhe que queria tudo o que você tivesse para me dar. Acusou-me de ambiciosa e eu agora admito; não obstante, aproveito e confesso que quis muito mais. Espero que você entenda o quanto você é. Agora, passada a tempestade da minha triste paixão, sei que há ainda uma cousa que te posso pedir, mesmo que me negues mais uma vez, mas é assim que eu te amo, é assim, é você. Então, lembra de mim de vez em quando. Lembra de mim e sorri, que este é meu ofício. Lembra de mim no meio de uma noite, que este é meu sonho. Lembra de mim no meio de uma rua, e segue teu caminho.

P.S.: Olha no fundo da caixa, uma partitura escolhida a dedo para teus dedos... que tua vida seja música para que você dance com a desenvoltura dos gatos os teus medos e muito mais o teus amores.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Essa noite, sou mais um dos caras

Falávamos dos loucos. Dos mais loucos e dos menos loucos. Dos quase loucos e dos sempre loucos. Sou louco. Não sou louco. Posso ser louco. Posso ficar louco. Loucos são eles. Loucos são estes. Loucos são vocês. Eu sou louca, mas você, meu amigo, é muito louco.

Falávamos dos ressentidos. Fale mais sobre isso. Como você fala comigo? Os papos das moças eu não sei corresponder. Nem os dos caras. Então virei a cabeça para o lado esquerdo, olhei o nada mais para baixo. As pernas cruzadas e cobri os joelhos com a saia preta. A mão direita sobre a boca. Respirei e mergulhei, saí dali, saí de vocês, estátua, pintura, sei lá o que eu fui.

Quem é aquele louco? Mas me senti sorridente quando olhei todos os caras, a gente na roda, cada pé apontando uma direção. Eu só vou quando você me chamar. Pensei nas minhas amigas, será que estarão pelas ruas, por aqui, por essas bandas? Será que algum louco chega bêbado de madrugada aqui na minha porta?

Falávamos das viagens. Falávamos das moedas. Falávamos do quanto era bom. Nós, jovens, achamos algumas coisas boas de verdade. Boas como deveriam ser. Me procura pela rua e me falta o ar. Falávamos da bebida e dos cigarros. Meu Marlboro, meu caso. Alecrim, o alecrim é dourado.

Quem quer parecer o que é? Quem quer dizer o que pensa? Não. Se for repetir, não diga mais nada.