segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Série Cartas - Carta II

Acendi um cigarro para te escrever e uma vela. Não sei o quanto isso há de me custar. Mas se escrevo é porque venho contar-te minhas últimas. Não conheço seu interesse por elas. Por isso comecemos assim: palavras ao sabor dos ventos, palavras enxurradas na música do riacho que contorna minha casa.
Explico-me. Acordei e era dia. Não sabia então qual algo estava por vir. É óbvio. Aconteceu de tornar-me assistente de mágico logo pela manhã. Fui enfiada numa caixa escura e atravessada por sem número de facas de papel afiadas pela pedra de uma densa poesia em prosa. Cheguei a chorar, se me permites confidenciar sem constrangimento. Fora isso, fazia sol, hoje, depois de dias cinzas.
Foi tão bonito o atravessamento, tão comovente, que vislumbrei um mito, creio eu. Mas não sei precisar a origem, apenas supus - por alguma maneira boba e qualquer de olhar as coisas que acontecem - que se tratava de uma manifestação em alguma medida mítica. É simples: fui dilacerada, morri em horror e sangrando cada frase senti-me tão plena! Tão nada! Tão plácida! Lia a correr, espantada com tamanha identificação, que me lanço agora aos meus próprios papéis para jorrar conjecturas ressurreicivas. Não sei como, já há tempos, não sei quanto, pensei em você para escrever. Não digo que tento o dividir pois seria bobagem. Não consigo jamais.
No momento em que lia minha boca tremia, a voz vacilava, meu corpo se debatia. Convulsionava pensamentos e queria falar, falar o quê? Queria escrever esta carta que não sei como termina. Precisei parar e organizar alguma coisa saltitante que coubesse ao menos em linhas, sem nunca esperar que essas linhas contivessem qualquer sentido ou serviço. A clareza nas linhas é fim de túnel. A sensação de dentro do túnel se perde na luz do seu fim. Perde-se o melhor. Esquece-se. Enfim, pude ver-me escrevendo estas palavras inexatas, como quem titubeia, em papel vegetal à tinta preta. Para mim, são assim cartas. Ou em folhas amareladas de caderno velho. Possuo um. O caderno velho é bonito, parece que faz a gente escrever como grandes poetas; penso até que inspiraria certa ancestralidade poética, certa visceralidade incontestável daquilo que se molda às palavras num rompante generoso mas que permanece suspenso. As musas. Devem ser elas feitas de papel amarelado e nesse caso, só poderia escrever no papel vegetal, ou seria heresia. Até porque nele a palavra vaza do outro lado. É rara. É latente. É contrária. Não é publicada. É fugidia. Transparente. Não é inspirada, é segredo. Escreveria no ar, mas poderias ler? E para que ler? Se não queres ler, ateia fogo a este papel e a esta tinta. Eu continuo ecoando em algum lugar que não me diz respeito.
Desta não-feita, prossigo. Antes de estar aqui esparramada, fui caminhar, sonhando minha pele estava com o toque do grande sol. Piegas, mas ele é grande mesmo. Pedi a meus pés que me levassem em direção à flor que habitaria uma garrafa de vinho vazia na minha casa. Acreditei que seria levada, e isso existiu porque acreditei. Existir é feito de fé, não é? Essa flor é para você, porque eu nunca te daria flores. Mas a flor que encontrei eram duas, que arranquei do meio de outras muitas flores laranjas. Vívidas sob o sol, trouxeram a mim estupor e inveja... por que eu não sou assim tão, brincalhona? Perto das flores havia três meninas, era uma praça, era de tarde. Olhei pra elas, cheia de vergonha com as duas flores na mão, me sentido a quarta menina e então galopei sumindo do seu campo de visão. Lembrei da menina de cabelos vermelhos que fui eu um dia e da qual resta agora tão pouco, a não ser o fato de que sou ela desde antes e dela nasci. Não faz tempo, foi ontem, talvez.
As flores. Não peguei duas porque pretendia. Antes eram elas as mais proeminentes e pendiam do mesmo galho. Eram como olhos de lagarto, uma para cada lado, mas, diferente dos olhares tensos dos répteis, os pequenos olhos fluorescentes em flor olhavam estrabicamente despojados, sincronizados à vontade com o balanço do meu corpo e o do vento que também dançava meus cabelos.
Se pensas que estou feliz e cor-de-laranja, não me superestime. Essa capacidade bucólica eu não encontrei. Passam dias sem que eu sinta seu cheiro. Apenas te falo. Falo aqui, e talvez preferisse o silêncio, mas ele tem o hábito de me fugir, vez em quando.
Vou te falar uma coisa agora: andei pensando muito em morte nos últimos tempos. Acordava querendo saber a cara da morte. Como se eu não morresse a todo momento possível. Morro agora do medo do que são nos teus olhos minhas palavras. Cheguei aqui onde poderia: nos olhos. Não uso mais óculos escuros, o que não se deu espontaneamente. Só que ainda a pouco vi meus olhos num espelho e vi que são bonitos. Não vou mais omitir meus olhos. Por ora. É que o espelho estava fundo dentro deles, mas não falo de espelhos porque teria de falar em olhos. E isso é assustador. Os olhos.
Ando tão à espreita de algo em onda perpetuamente por vir. Quero falar-lhe sobre as ondas, porque delas eu nada sei. E me rio disso. Salve os trocadilhos infames. As ondas são isso, o que fica por falar na próxima linha, ou tudo aquilo que já se pensou e se perdeu. E decidi de hoje para mais não me apegar às idéias que me voam. Olho o céu absurdamente azul, liso de toda nuvem e minhas idéias se colam cúmplices ao seu infinito nada límpido. C’est le mystère qui m’ensorcelle...
Divirto-me com as idéias desvairadas. Quem passa à frente de minha porta bem agora? Coisas de quando se é um só. Digo um solitário. Você quer falar de solidão? Não é possível. A solidão, déesse et immortelle. Você não quer falar.
Esta carta, não sei a quê vem. Com que propósito, me é vago. Não tome mal minhas palavras. Não respondo por elas porque não as sei senão como algo infinitamente vasto e indigesto. Um buraco lotado de conexões vazias, enfim, de porquês fortuitos. De lampejos. Da irresponsabilidade de quem não sabe escrever. E se são para você e para ninguém, não é culpa minha. A culpa é do que não se pode dizer.
Se dou voltas e voltas é por ser uma dançarina, e como os cães, os dançarinos gostam de correr atrás do próprio rabo. Se falo de mim, perdoa-me, mas é que tento falar-te, só que não sei tua língua. O que posso fazer com uma língua? Pintar um quadro, como se pode fazê-lo com dedos, pincéis ou cotonetes. Com o cotovelo, com imaginação. Sempre começo a pintar com contornos pretos. Esta carta. Não sei por que, o preto chama depois as cores que lhe convém. Talvez não tenha pinturas sem o preto porque ele é o xamã. É o por trás, um regente – ou seria eu? Ele evoca a pujança das cores. E sobre as cores tudo desliza, a verdade desnuda. Logo, é mentira.
Eu também sou um quadro, e como a mim mesma, tomo os quadros que faço e deles enjôo. Destruo-os e pinto novamente e há que se ter força. Por acaso, ou não? Eu sempre apareço nas minhas próprias pinturas. Há quem sempre apareça nos próprios sonhos, mas nos meus sonhos às vezes eu falto, todavia, nas pinturas sou sempre. Nelas, meus olhos costumam estar fechados. A cabeça venta e os olhos estão fechados em pleno derretimento. Estou na sala e os olhos cerrados em dura introspecção. Estou no palco, e dominada por minhas paranoidelias, a face remexida em angústia e gozo, lá estão eles, os olhos, cada um dos dois, fechados. Até quando sou outra natureza, aí é que talvez sequer haja olhos. Um ao menos, bêbedo. Sempre estilhaço com o poder dos olhos de arrepiar vértebras por aí.
Preferiria cortar os pulsos a entregar-te esta carta. No entanto, sendo ela o desdobramento de um pequeno poema ingênuo que fiz há algum tempo atrás e que ainda me engasga, sinto que devo fazê-lo. Porque é para você. É para você também porque é tão meu tudo o que digo, mas não sou eu.
E sobre o tempo nos calemos. Ele é frio. Tão frio quanto se pode ser quente. Não achas? O que vem depois do tempo? E onde é que ele está? Aqui, com você, ou lá, comigo? Faço as perguntas erradas? No tempo em que te encontrei casualmente pelas ruas de pedra, minha voz para você foi cálida. A mais cálida voz que pronunciei. Não a conhecia. Obrigada. Você percebeu? Eu nunca tinha lhe falado daquela forma. E, no entanto, dois passos adiante eu já pensava borboletas com outra voz, a saber, uma que habita minha cabeça e que sou eu sem parecer ser. É que me confundo agora: será sempre a mesma voz, ou sempre diferente sem que me dê conta? O que estou tentado te dizer agora?
Pausa.
Sobre o tempo. O tempo hoje me foi montanha. A montanha é um acontecimento. Ela consegue nos enganar, parece parada e dinossáurica. A mim, ela traz certa palpabilidade ao que sempre esteve e sempre estará. Um remedinho para a cabeça. Suas dobras, são assim, registro inexpressivo do atempo. Ela se acontece; se faz ela mesma horizonte. Parece mas não é, acontece.
Não se trata de algo conhecido. No meu penoso exercício de segundo a segundo – e o tempo não me deixa mentir, mente ele mesmo – o que minha mão quer tocar não é teu rosto. E se tento através de palavras, é porque talvez eu realmente goste de me sabotar. Delicio-me com os solavancos que a facticidade me proporciona. Se me ouvires gargalhar descuidadamente, é que nasci aos trancos, sob a égide de uma coragem súbita que me impulsiona para o stand by. Eu permaneço, eu perpasso, eu consigo. Eu vivo, com tudo isso.
Mas sobre viver, não posso me adiantar. Vivo aqui e já acabou. Viva! Já se foi o que era ontem e o que é agora, porque quando chegas ao final da palavra agora, acabou-se, toda tentativa apenas reverbera, sem que se tenha qualquer domínio sobre os encadeamentos curiosos de um todo inalcançável pois fatalmente inexistente. Fatalmente aficcionada. Cheguei perto de dizer algo que queria, mas não queria dizer. Já se foi o disco-voador.
Não quero cercas. Vim revoltada aos papéis gritar que não sei de nada. E que não me cobrem nunca, pois eu mesma já não o faço. Não olho as horas no relógio. Se como? Muito pouco. Se durmo? Muito menos. Como sou pequena. O que chamo de realidade é uma montanha-russa. E vou comer e dormir? E tudo o mais?
Ontem que era hoje já, dancei a noite, ao som do meu próprio canto. Meu canto é a corda no labirinto. Meu canto são as migalhas de lucidez no ébrio devaneio. Ah, como sou poética. É de matar...
Há momentos em que paro de escrever, que já está bom, que já fracassei em tentar falar, entretanto sinto-me como uma pílula efervescente que não se gasta, mas se nutre das próprias bolhas, umas nascendo de dentro das outras. Talvez seja por isso que me caiba tão bem, ao que parece, ter esses olhos de caleidoscópio. Esses pés que levitam sobre as pedras, essas mãos tensas emanando energia que ora pulsa laranja, ora azul turquesa, dos dedos para o quadro do grande, amplo sei lá o quê que me contém sem que eu abarque qualquer traço. Esse corpo que pensa bailando junto ao ar, cada partícula frenética, tudo girando, pessoas, objetos, noções, plantas, animais, velhas. Nessas horas, posso até morrer.
Toda dose de drama é friamente calculada. Não sei quem calcula pois eu mesma não me entendo com a exatidão matemática. Ela me inspira a mais nobre admiração, me consterna, mas não me quer. E vivemos assim, a nos esbarrar pelas ruelas e goelas, como acontece também conosco. Digo eu e você, a quem endereço esta infame carta não datada.
Quando também eu for uma velha, aquela velha que vejo no fundo do espelho através dos meus olhos caleidoscópicos, não quero me lembrar destes meses, destes dias ou sequer deste lugar. Quero lembrar-me de outra forma, lembrar de uma forma que não se possa chamar de lembrar, que seja outra coisa, assim também contida e suspensa. Mas deve ser coisa de doido, porque poderia fazer tudo de outra forma, se assim quisesse. E por que não mudar os sensos? Isso é delicado. Eu poderia inventar novas palavras. Qualquer um poderia. Se chamasse amor de ‘gantere’. Bom, ele seria a mesma coisa, certo? Digo, da maneira como aprendi que se dá em mim. Então é preciso torturar o termo até que ele se torne um fio. Um mero fio condutor. Porque amor ou gantere, enquanto tal, o que é, para além das letras? Mais interessante talvez fosse explodir ou implodir, não sei, o amor sem que se soubesse, deixá-lo escapar entre o misto de pensamentos e sensações sem tentar encerrá-lo em sílabas, para que ele pudesse ser cada dia coisa nova, movediça, vacante e gauche. Assim, toda qualquer outra coisa poderia ser um desarollo inexprimível e vivível. Engraçado e anárquico – o sentir mesmo, corpo absurdo. Claro que, nesse caso, dar nomes seria pura brincadeira, seria por pura diversão e exercício de fantasia. Finda a brincadeira, findo o mundo.
E agora, por exemplo, me vem à tona o fundo. O fundo profético. O fundo que me guarda, que te guarda, que aguarda a tudos nós. Fundo como sábio que é, não nos aguarda. É óbvio. O fundo só é. É na noite, é no dia, meu caro. E quando digo que me és caro, é porque o é profundamente. É obscuro. No escuro, te trago um pequeno segredo. Havia uma escada na minha vida, quando menina. Dia desses, eu conversava ao telefone com minha mãe, e entre seu pensamento ziguezagueante e sua fala frívola ela diz: ‘a escada de madeira da casa da sua madrinha, lembra? Quebraram tudo. Uma pena... blá blá blá...’. Saí do ar, tomada que fui pelas horas que passei sozinha brincando na tal escada de madeira encerada... a parede de pedras do lado direito de quem desce, do lado esquerdo de quem sobe. As telhas transparentes sobre a escada pelas quais eu via se era noite, a cor do dia, se chovia. No estreito corredor feito da escada, eu era pura criança. Ficava sozinha ali, separada, entre o primeiro e o segundo andar da casa da minha madrinha. Penso qual outra coisa na minha vida lamentarei tanto quanto saber que essa escada só existe nas memórias da família como escada de madeira encerada. Mesmo depois de adulta, voltava lá e passava a mão pelas pedras, procurando as soltas, para ver o que tinha por trás, ou descia sentada deslizando pelos degraus e depois escalava-os como um felino sorrateiro.
Será que encerro por aqui? Peço a conta e afogo-me nos cheiros do meu lençol, do meu cobertor, morro como cigarro aceso afundada na grande angústia que só o próprio quarto pode proporcionar? Há muitas páginas que apontam atalhos para o fundo derradeiro. Tenho tanto a ler. Certas leituras trazem-me um sabor de vazio tão intenso que faz-se em mim a cicatriz da fome, aquela marca indelével dos sem nome.
Eu não tenho um nome. Eu poderia ser Gabriela. Poderia ser Valquíria e adoraria ser Magali. Se meu nome fosse Sandra, quereria chamar-me Beatriz, e invejaria as Isabelas. Mas se fosse Paula, amaria ser chamada de Denise e talvez acordasse Maria Cecília, ou Maria. Já pensei em ser Guilherme e já fui Calímaco. É o de menos, como me chamas. Podes inventar para mim um nome agora mesmo e assinar esta carta. Fica como um segredo teu, porque de qualquer maneira, se me chamasses por esse nome, eu não te atenderia. Estou muito condicionada a ser eu mesma.
Escuta. Estou na tua frente e minha boca se abre cheia de fumaças. O rio continua a correr ele mesmo, Outro. Escrevo rápido tentando amontoar palavras que justifiquem toda essa parvoíce que embrulho e fecho com um belo laço de fita para te entregar. Não posso garantir nada do que disse. Tomemos um café para discutir essas contradições. Em algum lugar no futuro. Sendo que não há o futuro e nunca houve, passado, O passado, não mais desde agora. Se eu te disser que quero uma carta-resposta. Se eu te disser que não quero nada. Que tenho medo. Que não sei. Que não há quando. Que sou isso mesmo e me envergonho. Que me orgulho. Que não sei se estou pronta, se você está. Que não sei para quê.
Se não pude sequer datar esta merda, não poderias esperar que a finalizasse como exige a formalidade das cartas. Mas é simples: estou nas últimas linhas. Escrevi porque senão morreria. E cada palavra é, na dúvida e em certeza, a minha morte mais tenra. Entretanto, é a vida que te quero. É ela a todo momento, e não me tomes por uma otimista simplória. A vida e a felicidade, se quiser falar sobre isso também, são fontes da mais cristalina dor que pode um homem. Sem reducionismos, por favor. Eu, como homem que sou, como mulher que desisti, como essa coisa de espírito feito cativo de corpo, só posso dizer que não existo, mas sinto, na medida em que aconteço. Eu sinto muito que você me acontece.
Olho tuas mãos e vejo nelas encerrados muitos dizeres. Na impossibilidade de tomá-las, digo eu tudo o que me vem à mente atordoada. Não espero mais. Espero a todo instante. O instante que ronda e explode em passado. Olho as minhas mãos e recuso-me a me reconhecer. Não aceito estar assim, dentro de um self-portrait que não sou eu e não é ninguém mais. Eu devo dizer, atenção, leia com muita atenção, que estou passando. Que não sou flor. Estou a passar. Obrigada.
Pensei em revisar a carta, mas desisti. Umas sete vezes. Não faz sentido isso. Não há nada sendo acordado aqui, isso não é um tratado, são linhas, papéis e tinta preta. É dor na mão. Isso não é brega, não é carta de amor, pois o amor me esconde a cara, quer jogar. O amor é tão infinitamente mais outra coisa do que ele mesmo. Desculpe-me, mas vivo amor. Pare já, caso esteja sentindo revirado o estômago, lendo o amor como isso que se vende por aí. Não mereço entrar neste lugar, sou indigna de qualquer piedade e devo ser mal-entendida, miss-under-stood. Quero dizer entendida de outra forma. Mas isto é fácil. Desconfia de mim. E estou mesmo sendo bem clara agora. Pode me chamar Clara. Clara ama a vida. Clara não sabe o que seria amar. Não sabe o que é a vida. Saberia a morte algum dia? Pouco importa. Viste tudo o que escrevi até aqui? Consigo deixar se entrever a diferença no fundo do cômodo?
Conheceste a minha letra. Como fiquei agora bastante constrangida, penso que é hora de parar. Olho minhas mãos e elas me ignoram. Eu também ignoro todo o resto. É preciso rever. Não revisar, tampouco reconhecer. É preciso rever. É como se fosse possível ver. Eu pura textura nas tuas mãos. Eu palavras sem dizer dizendo um mundo de dentro que se desdobra em querer ser. E o ter anda tão démodé... ultimamente a boca anda cheia de paroles que não cessam de se calar, umas engolindo as outras em tumultos de não entendimento, numa caçada atroz ao ato destruidor de tudo que era. Porque não há o que tenha de ser.
O jeito é rir. O jeito é.
A campainha tocou. Que susto. Estou agora sem cigarros. Não se surpreenda se eu lhe enviar outra carta um dia. Não se surpreenda. Deixe-se surpreender, e isto não é conselho, não é nada. Histrionismo literário, falo por falar. Falando, parece que tem outro sentido. Equivoco-me, as palavras me sobem pelos tornozelos, entrelaçando-se, tombam-me de boca na caneta falaciosa. Estou surpreendida de assalto. Roubada de úngulo sentido. Arrombada de mirolhos anfanchantes qui sebariondam porálias laciduantes. Por tudo, por nada e qualquer coisa. Obrigada.

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