segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Noites de Ficide
Num arroto do mundo passada a indigestão dos homens, Ficide nasceu. Uma cusparada de plasma da pior cor que os olhos podem conceber, algo como o cinza dos mortos cheio de sulcos, aquilo era filho de todos. Ficide era uma máquina que veio ter com a realidade um tanto quanto irremediavelmente avariada. A começar pela sua incapacidade de cruzar as pernas e braços, passando ainda pela dificuldade de falar: a língua se enrolava em grunhidos e gritinhos agudos sem qualquer pronúncia conhecida de fonemas. Ficide era dejá vu a todo momento, para si e para os outros, o que era assustador. Como fedia um bocado, era mais do que impossível permanecer por perto de tal ser. Fedia a algo seco, bastante agressivo às delicadas narinas. Ficide nascera com uns muitos anos. Os cabelos, não possuía, e eram de um marrom apodrecido. Junto com os cabelos cresciam-lhe pés na cabeça, o que lhe causava tremenda burrice. Seu pensamento cheirava a chulé. Cada vez que Ficide comprava pães, assustava as pobres moças detrás do balcão porque tinha coragem de se dirigir a elas. No seu interior, Ficide sabia que o coração que lhe batia não fazia qualquer som, nem tum-tum, nem nada do gênero. Sua pele fazia barulho ao roçar nos pântanos de contato entre as pessoas; urrava de dor e os demais, urravam de nojo. Mas Ficide tinha uma incompreensível capacidade de sorrir. Fazia-o toda vez que caía de cabeça no chão e tinha aberto um rasgo a sangrar. O sangue, que fedia mais que todo o resto, lhe escorria percorrendo o caminho das sobrancelhas e depois contornavam o resto deformado do que seria um rosto em direção a boca. Sorrir permitia que o sangue fosse direto para a boca sem que Ficide perdesse uma gota sequer. A parte que mais lhe inspirava afeto em si era o ânus. Porque não fora nunca um feto, antes um ânus, desde o começo de sua formação desprezível. Do ânus lhe partiu a coluna a crescer mais torta que o normal, e assim é Ficide, sua coluna é enterrada no próprio cu, o lhe dá uma sensação de algo a espetar enfiado sempre. Uma das poucas coisas que entendeu, quando por estupidez alguém qualquer lhe dirigiu a palavra, é que a isso chama-se fogo no cu. Achava bonito o fogo, se é que essa criatura lamentável pode achar qualquer coisa bonita. O fato é que admirava muito o poder de retorcer todas as coisas, qualquer coisa, e deixá-las absolutamente em negrume que cabia ao fogo. Assim, vez em quando checava o ânus para certificar-se de que ele estava devidamente carbonizado. Tal operação lhe custava um bocado, pois, seu pescoço, demasiado curto e tosco, de pele endurecida, não podia de fato voltar-se para baixo, para cima e nem de um lado ao outro. Ficide olhava apenas para frente, os três olhos boiando, e claro que não enxergava nada. Imagine que tinha então que pedir a alguém que lhe checasse o ânus. Não ouso dizer o que aconteceram aos imbecis que lhe atenderam – pois há no mundo gente terrivelmente bondosa e esse era o passatempo favorito de Ficide: escalpelar quem lhe lançava aquele olhar horrorosamente gentil depois de ver seu cu. Deixava que tentassem se aproximar apenas para dar o bote. Ficide usava um chapéu de chumbo pesado, bem rebuscado. Desde sempre, acho que nascera com ele. É que vez ou outra, quando caminhava pelas ruas, corria em direção aos muros e chocava-se com a maior violência contra os chapiscados, especialmente. Sequer pode-se descrever como era possível que corresse; os ossos também tinham problemas, eram esmagados e as articulações eram secas, inclusive, faziam ruídos ensurdecedores ao se movimentar. Ficide não aparentava. Não teve cães e gatos, pois comia-lhes os pêlos e as unhas, já que isso fazia-lhe vomitar. O vômito sempre lhe foi favorável ao paladar. Comeria as próprias mãos, se as tivesse, no entanto, o que possuía eram cotocos atados com uma fibra dura que era para que o pus abundante não caísse pelo chão. Sua experiência com isso era exaustiva: sempre que deixava pus pelo caminho, escorregava nele e caía de costas ao chão. Eram ao menos dias para que pudesse levantar-se. O que acontecia era que gritava muito durante todo o tempo em que se estendia no solo. Não pela queda em si, mas pelos pesadelos que começavam automaticamente ao tocar o chão: sonhava que se levantava e que ria do tombo; pessoas vinham aos montes ficar ao seu redor e lhe punham o dedo no nariz, ou ainda, cavalos lhe lambiam as axilas e diziam para acalmar-se, acariciando-lhe as orelhas com seus cascos sujos de suas próprias fezes. Ou pior: um arco-íris impresso em negativo lhe saia goela a fora e tudo girava em cores, o que, definitivamente, magoava-lhe. Chorar? Quando chorava, Ficide sentia-se gente. Então não chorava nunca. O que fazia era apenas murmurar uns xingamentos quaisquer – e até aí nenhuma grande novidade, sendo esse seu pequeno repertório de palavras inteligíveis – ou podia jogar terra nos olhos para ver se neles causava algo. Geralmente, o único efeito que surtia era o amor pela terra que lhe tragaria. E que fosse em breve. Se Ficide orava, era por isso. O abraço da terra, não o superficial, mas o completo enterro, era o que lhe fazia esgueirar-se pelas noites eternas onde até o sol participava. Esperava pelo dia em que explodiria a tempestade que lhe afogaria, este animal nojento, nos grânulos da terra marrom e suas raízes cortantes. Nesse dia choraria. Prometeu-se sem a menor intenção de cumprir. Nunca lera ou saíra do lugar que não habitava, e de deus tinha a seguinte impressão: era feito a sua imagem e semelhança. Ficide nunca pintara, escrevera, bebera. O álcool compunha os fluidos de seu corpo. A língua era asquerosamente longa, fina e bipartida. Antes parecesse uma serpente, ou um lagarto, mas o que parecia, seria insulto descrever. Usava-a apenas para reconhecer terrenos e paredes. Às vezes também para pegar algum objeto, e como nunca sabia o que fazer com eles, lançava-os em direção a vidros e janelas alheios. Não se pode dizer ‘pobre Ficide’, ou coisa que o valha. Na verdade se alguém lhe pudesse realmente notar, poderia apenas ser tomado pelo mais profundo desgosto. Repensaria toda a sua visão de mundo, especialmente se fosse positiva demais. Ficide tinha esse único dom: o de matar a alegria das pessoas. Mas não há o que temer, pois basta pisar na cabeça de Ficide para que se recolha ao limbo. Uma coisa que Ficide nunca tivera é a memória. O mundo se ofenderia se houvesse um baú de memórias de Ficide, ou se achassem um dia algum diário contendo-as. O mundo se ofenderia pois seria simplesmente insuportável a descrição desse animal inclassificável que surgira assim, tão natimorto.
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