Havíamos passado horas e horas juntos e em silêncio. A luz parca que incidia na sala era perfeita para os olhares que eu disfarçava. Quanto a ele, não creio que tenha me olhado por um instante sequer. Mas gentilmente, permitiu-me ficar ali, observando-o.
É óbvio que eu tinha perdido a cabeça e já há muito tempo. Minha razão toda ficara em algum lugar no momento em que passei a amá-lo. Ah, sim, eu o amo. Já tentei convencer-me que é paixão, que logo se acaba. Houve dias que me senti restaurada, esquecida de tudo! Mas bastava o cair da noite para que todo meu desesperado sentimento me pusesse em perigo como numa avalanche mortal.
Em verdade, sou uma doente do coração. Meu caso não traz cura. E dói, dói demais, e aliás, aproveita-se de meus dotes histriônicos para agravar-se ainda mais. Vais entender se eu disser que sou um ímã e ele um enorme bloco metálico, que não se abala com minha chegada... a questão é que sou atraída - já não me importa descobrir o princípio pois a mera constatação dos fatos não os altera - vôo até ele, e não me sinto viva, nem feliz se ele não está sob minha vista.
Enquanto eu destilo tantas conjecturas e mordo meu próprio cotovelo para não lhe estourar os tímpanos com meus gritos de amor - já falei sobre minhas qualidades dramáticas... - vejo pequeninas chancletas jogadas na sala, que não são de ninguém que mora naquela casa, mas daquela que habita seu pensamento, que lhe tomou a alma. É seu vestígio.
Não é culpa de ninguém: nem dela, nem dele, nem minha. Cheguei atrasada nessa história e entendo perfeitamente que não é possível corresponder sempre. Quisera eu saber gostar de quem gosta de mim, e o leitor com certeza já ouviu esta falácia...
No entanto, ele me tem em boa conta, de qualquer maneira, e ela, parece muito preciosa mesmo.
Foi apenas um momento de insanidade, uma pane; misturaram-se minhas esperanças e frustrações, delírios e quereres, mais a esquivança e inconstância dele, bem como seus beijos e depois as memórias, as minhas e as deles, todas que apenas vislumbrei em minha imaginação deveras loquaz.
Agora que anoiteceu, a luz escasseou por completo, estou aqui deitada sobre seu peito largo e imóvel. Trago as chancletas em meus pés, que foi para não falhar a promessa que ele provavelmente fez a ela: de que ao morrer, sua lembrança de toda a vida se resumiria no rosto dela, naquele dia especial. Mas morto ele, morta toda a minha angústia. Ademais não há culpas aqui para ninguém. Quanto a mim, posso refestelar-me no seu abraço, mesmo que gelado, até...
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