"Descompassadamente os beijos se descolam das bocas mais profanas em vôos altos."
Depois de datilografar esta frase, a única que conseguira formular nas horas em que esteve tentando desenvolver certa poesia em prosa, Lúcia desceu as escadas e pegou seu sobretudo negro dependurado atrás da porta de entrada. Vestiu-o com muita presteza e parou ainda por dois minutos diante da porta com a mão direita a maçaneta. Ficou ali por dois ou três minutos, e digo ao leitor que não se sabe o que passava em sua cabeça. Então, abriu a porta e lançou-se no ar gelado da noite.
A cidadela era um convite aos passeios noturnos, alheios à realidade e Lúcia lambuzava-se de tanta quietude. Caminhou pela ruela demoradamente, como quem não quer incomodar as pedras, seguindo a noção dos pés apenas, pois o pensamento, não podia ser acompanhado.
As luzes da noite, já é sabido há muito, tem grande poder sobre as almas mais passionais, de maneira que Lúcia andava um tanto alucinada, perdida entre os ouriços de raios de luz dos postes. O mergulho que dava vez ou outra nas sombras das árvores e dos altos muros daquela gente precavida e ávara com seus jardins lhe fazia na verdade, tanto bem quanto os ouriços luminosos. Lúcia sentia-se ela mesma o lado escuro da lua, punha uma pitada de invisibilidade a sua passagem.
Esqueceu-se porém da possível força de sua inexistência quando a cabeça que fitava ora os pés, ora os postes, fez o seguinte percurso: dos pés a uma porta que lhe barrara o caminho. Não era, no entanto, a porta de sua casa, tampouco a porta de Carlos, seu amigo favorito e algo mais. Era uma porta muito simples, sem relevos, uma porta de madeira escura.
Bateu. O coração simcopado às batidas da porta não cessou como as mãos depois do terceiro knock. O que fazia? Eram já duas e meia da madrugada e sequer sabia diante de quem estaria caso alguém abrisse a porta. Pensou correr, mas não teve tempo: a porta abriu-se tão violentamente produzindo um vácuo que puxou-a para dentro.
O susto foi assaz grande. Imagine que Lúcia mal soube o que aconteceu pois; de repente estava com a face enterrada num peito que bloqueava a entrada da porta. Não tinha cheiro. O certo é que era um homem alto e magro.
Eis que a voz sonolenta e grave lhe ordena:
- Senta.
A porta se fechou e Lúcia foi tateando no escuro vários móveis, esbarrou em coisas, livros, retratos, copos, não sabia direito a não ser pelos ruídos. Achou então um sofá, deixou-se cair nele e irrompeu em um choro comovente e estrépito. Assim ficou, com as mãos sobre o rosto até parar, mas é impossível dizer o quanto isso durou. Quando já se recompunha, ainda no mais absoluto negrume, um isqueiro acendeu-se e alumiou brevemente um rosto barbado com olhos que não a fitavam. Lúcia esforçou o olhar ao máximo para apreender a imagem; não pôde. Foi muito rápido, vira um vulto e agora permanecia apenas a brasa do cigarro acesa, movendo-se de vez em quando de baixo para o alto, na direção de onde lhe pareceu ver a boca do homem.
Sentia o cheiro do cigarro. Ouvia a respiração dele. Pensou em falar-lhe, creio que chegou a mover os lábios, mas deteve-se. Ele estava de pé, bem uns dez passos a sua frente. Era o que supunha. Pensou em perguntar seu nome, ou antes desculpar-se. Logo indagou a si própria porque não pedia licença e se retirava. Talvez devesse dizer que enganou-se de endereço. Então ocorreu-lhe pedir que acendesse as luzes. Aquilo tudo começava a sufocar-lhe, sentia uma angústia crescente embolando-se no peito. Era possível que esse homem lhe fizesse algum mal. Se lhe quisesse o corpo, lutaria até a morte. Depois, voltando-lhe à memória o esboço da figura à luz efêmera do isqueiro, ponderou sua atitude. Um amor no escuro, sem nome, sem rosto, sem cheiro.
- Cigarro? - indagou-lhe o fantasma.
Antes que ela respondesse, ele pegou-lhe as mãos depositando nelas um maço de cigarro e o tal isqueiro. Lúcia ficou gelada, as mãos eram grandes e nem quentes, nem frias, foi tudo o que sentiu; ele já se tinha afastado quando ela levou um cigarro aos lábios. É que Lúcia não fumava. Mas naquele momento nada poderia ser melhor, refletiu.
O silêncio devastador só foi quebrado quando ela o ouviu deslocar-se a passos calmos até uma outra porta que se abriu sem que ela precisasse a direção, problema que foi resolvido quando dentro da tal porta uma luz foi acendida. Não, ela não o viu, viu de relance que tinha cabelos castanhos e era realmente alto. Notou que ele tinha se dirigido à uma cozinha pelo pouco que via iluminado dentro daquele cômodo à sua direita. Pensou em adentrá-lo, talvez fosse um convite à claridade. Mas ele não a chamara. Melhor esperar.
Fazia chá e oferecer-lhe-ia? Preparava a faca com a qual iria matá-la dali a cinco minutos? Seria um gentleman ou um monstro? E não lhe diria nada à respeito de sua estranha visita? Bom, dada sua própria conduta, Lúcia achou que ele não estaria mesmo em condições de julgá-la.
Já se passaram quantos minutos desde que chegara ali?
- Horas.
Pelo diabo, ele lera seu pensamento! Já chega, era preciso sair dali. Lúcia levantou-se de supetão e saiu tropeçando em coisas que imaginou serem tapetes e talvez muitos livros pelo chão rumando à porta, a qual encontrou trancada e sem chave. Voltou-se para os lados buscando algum móvel onde a chave a aguardaria tranquilamente, mas o que encontrou foi um abajur que não suportando o choque contra as mãos estabanadas de Lúcia, espatifou-se no chão estrondosamente. Perdera a chance de dar à situação uma luz.
- O que você está fazendo?
Ela olhou na direção da voz: diante da porta da cozinha, a luz vinha pelas costas revelando a silhueta esguia. Foi então que notou que também a sala onde se encontrava estava levemente iluminada pela mesma luz. Era bonito o lugar.
- Quer sair?
- Apague a luz, por favor.
Ele ascentiu e tudo voltou à mais perturbadora escuridão. Ela o buscou nas trevas. Tocou levemente seu rosto como que delineando as formas, depois tocou-lhe os cabelos finos e fartos. Ele não se moveu. Não precisava.
- Eu já estava te esperando. Mas esqueci de passar o chá.
Dizendo isso, ele saiu ao alcance das mãos de Lúcia que ficaram saudosas no ar. Ele era um bom homem, pois lhe supriu a dor do vazio rapidamente, entregando-lhe um livro volumoso de capa dura. Lúcia agarrou o livro com força e deitou-o de encontro ao peito.
- Eu não volto para devolvê-lo.
Ele abriu a porta da rua. Os cabelos de Lúcia agitaram-se do mesmo ar gelado da madrugada que lhe abraçara ao deixar a própria casa.
Quando deu por si, vagava por ruas e becos que já estavam iluminando-se em dia vindouro. Esforçou-se por lembrar de como fora a despedida daquele desconhecido, porém não guardara sequer o barulho da porta se fechando, ele dentro e nunca mais, ela de fora e para além.
E assim que deu-se conta de que os dedos, as mãos e os braços doíam pela força com que apertava o livro, resolveu olhá-lo e abri-lo. Uma bela capa verde escuríssima, sem uma palvra, e dentro, muitas, muitas páginas amarelas por escrever; Lúcia olhou para o céu divertidamente, o sol se achegava sem pressa e os pássaros que começavam a cantar traziam-lhe à pena os cheiros, os olhos, as formas e expressões que não vira, os pensamentos que não soube. Tinha todo um livro para desenhar palavras no escuro.
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