Corria ao vento dos corações embotados, olhar vazado e desertor, as coxas pesadas. Não via senão as foices da Frustração a escaparem destas mãos ardilosas em direção aos sonhos seus. Certa força de espírito lhe faltava como o fôlego, e qualquer ginástica de gênio já lhe parecia de antemão infrutífera.
O fato: corria não sabia do que. Não traçara o caminho por tentar fazê-lo assim, de chofre. Vã tentativa! Pois, só iria até onde lhe era conhecido e pior, voltaria para casa no fim da imolação daquela carne confinada longamente na inércia torturante do não-pode-ser, fingindo não temer a sombra da solidão, da campanhinha que jamais será tocada. Corria por correr, para gastar aquilo que, ao que tudo indica, não se admite nas leis da mutabilidade. Não digo do que ou de quem falo porque não quero. Dou-me este direito pela dor que toma esse escrito que por capricho qualquer do destino lhe cai defronte aos olhos.
‘Aquilo’ é o princípio obscuro, é o que esmorece um guerreiro diante da iminente batalha, é o que persegue uma vida fazendo as vezes dos mais intrigantes disfarces. ‘Aquilo’ é o que se pretende afastar fingidamente enquanto nas camadas mais porosas e difusas do ser forma-se um amontoamento explosivo de vontades que se arremessam a um objeto em meio à paisagem.
Artista que era, deixava-se estar com a alma indignada e logo punha a mão sobre a testa refletindo dolorosamente sobre a escultura que haveria de operar em si. Sim, escolhera-se de gelo. Digo isso porque era antes um gás, mas queria-se gelo a ser modelado. Por alvitres dispersos, embora contundentes, queria a mais gélida forma do amor em si, o mais longínquo pensamento sobre o amor, o mais cruel esquecimento das belas faces que lhe poderiam ameaçar a paz n’alma. Queria jogar-se nos braços das musas... e morrer ali, em pura poesia dos renegados da alheia Vênus.
Houve noites eternamente angustiantes e dias pranteados em que a única solução era a mutilação a frio. A consternação advinda destas práticas de segundo a segundo não lhe bastava para sufocar a sempre pronta-resposta ao único chamado ao qual se dava o luxo de atender. Pensava: fraqueza lastimável. Pensava: devo sumir. Pensava: e as grandes questões da vida? Não me fazem jus? Pensava: que pequenez, ai de mim, vulnerável às frivolidades das torrentes de paixão! Incapaz de ausentar-me. Pensava: não! Pensava, ou melhor, gritava: ah! Pensava: desista! E nesse emaranhado de golpes sanguinolentos, ainda persistia uma ponta de esperança, paixão triste como bem definira certo filósofo, que lhe molestaria indefinidamente.
Conquanto tivesse ao seu lado aquilo que lhe fazia disparar o coração e tanto as pernas, teria de ser gelo para derreter silenciosamente, gota a gota, até que a morte os separasse, teria de ser da brancura das geleiras eternas para ignorar seus impulsos flamejantes e sobreviver à lâmina cortante dos não-olhares e dos toques da indiferença personificada. Sua quase-vida por um fio de perseverança em negar-se o que mais lhe importava, desvelava-se em um letargo prolongado que lhe fazia boiarem os olhos e deambularem os gestos. São assim as estátuas de gelo, bem assim e pasme o leitor conspícuo ao dar-se nota de que este corpo desejante da morte de suas peculiaridades auto-flagelantes, corre apenas montado na veleidade alada, num céu borrado de dores velhas companheiras e nuvens carregadas do vazio de amores não correspondidos. O que estou lhe querendo dizer é que este corpo ainda está aqui, prostrado ele mesmo aos pés de outra estátua que olha ao longe, muito longe. Os pés desta estátua afastam essa alma obstinada não porque sejam vis – embora talvez sádicos, e assim, sádica ela toda – mas pela natureza própria das estátuas mais admiradas em seus pedestais como pela vocação sisífica deste espelho ambulante que só sabe amar devorando, engolindo o outro, querendo sê-lo e sabê-lo. Ser gelo para não ser amorfo, mimético, vago e melancólico. Ser nada em meio a tudo.
Dói-me tamanha ingenuidade. Dói-me porque o gelo queima quem o toca e espatifa-se nos tombos para tornar a ser água. As estátuas de gelo não passam de água, mas se te pões a recordar os mares, os rios, as chuvas e as tempestades, entenderá que cabeça de estátua é quimera...
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