I.
sabia que nisso de comer-se
nisso de envenenar-se
havia um hábito mordaz de minar as defesas
por anos vacilei em perceber
com tanta claridade
que sou eu a deformar as coisas
a engolir sem pestanejar
todos os fetiches
a tratar-me às chibatas
a colocar bolas de cera sobre os ouvidos
e a calar-me com fibras de linho esgarçadas
agora sei quando me como.
II.
Eis, pois, minha nova paixão. Não dói, não foge, não isso, não aquilo.
Minha nova paixão não me afoba, não me ignora.
Essa nova paixão não sabe de nada mas vai saber.
Saber que não quero nada demais.
Que quero apenas...
Muito mais do que se imagina por aí.
Minha nova paixão não é igual, não faz sofrer, não é normal.
Eis, pois, o que quero sem medo, sem vergonha, sem dedos.
Conheser.
Porque, pelo que me consta, é o que há de paixão nisso tudo.
III.
Se me tomas pelas mãos, faz-me um favor
Tenta ouvir as palavras mais rebuscadas que não sou capaz de saber
Mas delas, embriaga-te apenas do seu mais simples
Dos harmônicos que lhes escapam ao significado.
Na praia, as palavras são areia
Diante de você, acredita, sou mar
IV.
Como é pobre
Essa metade em gente
Essa inclinação enganosa
Como é dissimulado
Esse talento em esboço
Esse truque mal-feito
V.
O buraco na goela
Cato no rasto
Um cheiro, um quero
A ex-lágrima
O sem tido
O fim do não-começo
Dor no olho da lua
O refluxo da questão
Passente do preturo doído
Moído
Peito tísico
Estômago gastrítico
Amargor de partida
A punhalada do impossível
VI.
Outrora
Roga o pensamento que a chance não
tenha Passado Semana passada cheguei
a tentar Tentada que estava diante de
tantos Nãos talvez quem sabe se
verdade se outro dia outro agora
Outrora.
VII.
Meu coração bate ansioso.
Fruto do cão que ladra
e nada morde.
Só agora meus pés fincam o chão
São sugados pela realidade gravitacional.
O pensamento bate as asas
longe, longe
Mas a carne jaz na porra dos pauís da terra
Sei muito! Ora!
sei que falar menos
é [querer] ser mais
E no susto do veraneio
Do janeiro que veio
Nem consigo pensar no meu próprio aniversário.
É hora de fazer planos – eu digo.
Canso-me de planar sobre a merda
Achando que lá:
longe, longe
estão as flores no campo
Eu nesse tempo de se
Não semeei
Mas ainda posso se não colher flores
Tomar chá de cogumelo
VIII.
O Duro da pedra
Dura
Contra o osso
Outch!
Que estupidez
o osso duro
vibra
contra a pedra
Dura
[...]
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