sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Mais do mesmo
Morrerei pela boca mesmo que não por agora; mas morrerei de palavras tóxicas, pensamentos hidrogenados, atos açucarados de burrice refinada. Morrerei de palavras careadas, exalando odores alcoólicos, olhos vítreos fritos de catarata, cascata de misturas erradas. Morrerei porque o bafo da verdade não encobre a podridão do meu estômago lotado, das minhas fomes ocasionais e os fétidos restos nas galerias intestinais desse corpo deformado. Com meus vasos sanguíneos petrificados, o que me sai pela boca é derrame das coisas que eu invento; torrões de enxaqueca para as goladas de café a litro por hora. O que é, o que é: pele em frangalhos, vergonhas vermelhas putas, idéias gonorréicas, fixações bolorentas, medos ralo abaixo, sonhos inflamando espinhas na cara, cano de descarga? Não seja trouxa, não sou eu, é antes você no que me vê. Eureca! Tudo isso pra dar um peso a mais ao tricô da vida. Poderia dizer que a vida é linda, é bela, funcionaria quase da mesma forma, poderia crer nos sinais, nos acasos objetivos mas, fumando este cigarro, estou sem paciência para me debulhar em pieguices; estou deveras decepcionada com minha capacidade de não viver, com minha habilidade para a charlatanice e não se trata de ser feliz ou triste e sim dos olhos que bóiam, da boca que baba preguiçosas baboseiras aqui e acolá, roseiras secas com espinhos agudos cravados pelos pés com as mãos por entre eles metidas. A questão é cisto no meu útero, a dor da penetração da realidade no cérebro. Da maquinaria pesada onde jorrei minhas últimas investidas sobrou a fumaça e os ferros retorcidos no remorso lambe-lambe da ingênua. Essa vil, essa má companhia. E se o céu é hoje azul, tanto melhor que eu não chore e não ria, melhor ainda que saiba que tudo o que sempre quis não queria. Morrerei em pleno gozo de porco na roleta pingando óleo queimado na chapa. Morrerei conectada esperando alguém entrar na minha joça. Morrerei brincando de viver no dia-a-dia escuro do meu sopro inautêntico. Deverei passar antes da morte pelos vales vitimados pela ignorância e ser tragada pelo implacável fantástico do infinito. Vê como tento escapulir: lustrando com meus paninhos o espelho refletindo o absurdo das árvores que bailam ao vento, o som da água que segue seu curso, as nuvens que atravessam ligeiras o céu todo poderoso. E é tanta harmonia que meu seio palpita indignado e quereria eu ser verde e seria, se minhas articulações articulassem, se meu baço fosse um braço; palavra na face, palavra fácil tanto quanto ilegível; onde tudo se mistura e nada se conclui, eu de bordas dissolvidas sob o sol da compreensão ardida. Morrerei pela boca como morrem os flagelados: gritando em troca de um olhar de piedade, buscando alguém que não se cale. Agora que sou cego, o que seria de mim se não fosse o tédio onde abraço meu amigo eco? Agora que estou cego, o que será das palavras nas folhas do caderno? Agora rezo, para que troquem o papel higiênico pelos jornais e depois pelos dólares. Lugar de sentido é no lixo do banheiro onde morrerei sem ver que morri mais uma vez. Morrerei como minha mãe, morrerei baixinho; mas até lá, lá onde também não há receita, nem remédio, consumirei todas as esquisitices e zombarei das tentativas de quem me quiser ajudar com a minha cara de morto há muito. Nada disso me emociona e nada mais, mesmo que não por agora. Morrerei pela boca, engasgada com o vômito dos pudores fermentados e nojos indigestos. Morrerei casta e cínica, zonzo e pálido como sempre, sempre que retorna e escapa. Mas principalmente, morrerei sem dó.
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..não sei como pode uma pessoa - casca, corpo, fibra, pulsão.. - transfirgurar-se em palavras que se aproximem tanto de outra, outra pessoa que mesmo sendo assim outra, lê-se, assustadoramente, em cada ponto de respiração sua aqui.
ResponderExcluirSaudações, minha cara.