segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Série Cartas - Caríssimo

Estive trabalhando muito. Em quê? Trabalho braçal, marretando muros, implodindo pilares, escavando fossas, revolvendo terras, arrebentando canos, retorcendo vigas de aço, jogando fora a mobília, sacudindo tapetes, queimando papéis, arrancando raízes, arreganhando janelas, apedrejando telhas, rasgando roupas, enfim, burning down the house. É que vou viajar; já é hora de partir.
Um cigarro antes? Bom... (acendo o cigarro – meu isqueiro é branco, meu cigarro é branco) Uma folha e uma mente em branco. E letras. O que fazer? Veja bem, depende – um pouco – de onde se quer chegar. Mas não quero me repetir. Quem é você a quem dirijo as minhas vergonhas?
Dedico-me a escrever que é para não pronunciar. O ato pronúncia é que me fere. Há muito e sempre o que ouvir. Ainda assim, minhas sentenças na página são carregadas de metafísica vocálica. Mas, não sei o que falo, escapa-me, como todo o resto da composição.

Dia desses, quero ouvir da tua trajetória. Não quero saber.

Vacilo sempre diante da tua porta. Pressinto tal densidade por detrás dela. Hoje entendi isso: pode se querer companhia querendo continuar sozinho. Querer ficar só em alguma companhia. Uma vizinhança, talvez. Vão livre: toda vez que batemos o cigarro no cinzeiro sem que haja cinza para cair.
Hoje o tempo me foi milharal. No silêncio estalado da palha nos beijamos. Não. Sentamo-nos lado a lado, rodeados por uma filosofia longilínea. Trazíamos baixas as cabeças, a olhar os pés sobre as palhas que descansavam em decomposição depois de já terem cumprido sua função. Não acho que elas tiveram qualquer dúvida.

Ontem isso era devaneio, era mesmo o silêncio.

Num encontro com a rua pela madrugada, ela era só violência: atropelos, sermões, olhos fechados, pessoas de quinta, copos quebrados, quedas e saltos, cabelo queimado, maço fumado, tempo imaginado. Blasfemei a mágica. Eis, pois, minha confissão. Talvez tenha chorado aos pés dela como menina boba de olhar embriagado. No entanto, ela continuava irrefletida no espelho à minha cara. Só a poucos minutos percebi o que lhe fiz. E o que ela me fez: assim como deus mostrou-me várias vezes onde punha o dedo - na época em que lhe acreditava - também a mágica puxou-me a orelha em direção a seus glimpses. Ela, veementemente, eu. Jogou sobre mim uma chuva fina depois de ter-me feito rir o dia todo pela não-noite anterior. Abusou-me com o frio vento no rosto. Fez-me gato a saltar, soturno no escuro, brincando de ciranda com loneliness. Caminhou-me pelas ruas aos pensamentos de estar dançando e depois, escrevendo-os com cores, esgueirava-me.
Minha voz é grave agora, meu blues é doído, minha escrita torta. Torta na cara. Ao menos você sabe que não pode entender. Eu perdoei deus pelos aleijados. Tive de fugir. Sim, de mim. Sempre. Ouve: a noite de ontem tinha violence and violins, mas percebi hoje, já que esta outra noite estava menos hostil, que não era violence que a tornaria, como aquela, ríspida, mas os danados dos violins. E já que hoje eles não cortam o ar, violence está acolhedora. A grande violência está no calar.
Deixe-me falar um pouco sobre os violinos. Que audácia! Sobressaiam-se nas ruas dentre ruídos tortuosos. Tão sinuosos são os violinos – por isso escorregam pelos vãos entre os ruídos. É uma hipótese. Os violinos são de uma sutileza serelepe. São capazes de nos fazer passeios nos ouvidos, passeios sonhados e profundos, longos como a cadência dos segundos. Eu seria um violino agora.

Violência é buzina de carro no domingo.

Violência, é a necessidade. Como dizer do que me ocorreu agora à noitinha? Quando presenciei em teu rosto algo que não compreendi mas compartilhei. Galerias subterrâneas, uma complexa malha de túneis cortando toda a cidade embaixo dos pés. O lugar de não ver. Sombrio, quieto, lúgubre, escorregadio, claustrofóbico. Escrevo e a caneta me falha. Emociono-me. Também a memória falha, a voz falha. Falha o sentido. Agora é assim: olho para você e tenho uma encruzilhada.
Tento o que procuro. Estou sempre tentada. (Tenho um poemóide dedicado às minhas tentações.) Estou a escarafunchar. A palavra tem som e tom tão grosseiros, que me cabe. Estou esfomeada. Terreno que comporta infinito varal de lençóis brancos, o eterno esconde-esconde para o fôlego da criança. Desejo deseja. Olhando daqui, chegadas são vulgaridades.

Esta carta me sai diferente. De outra cor folha, letra outra. Sai desconfiada. Sai magoada. Sai pensando em encontrar um analista. Sai cheia de pausas. Cheia de vãos... Envolta por duros apontamentos. Tenho de recorrer a palavras e formulações que na são minhas. Afeta-me muito isso das cartas. Não têm nomes, não têm datas e assim permanecerão como um grito no vácuo. Não há para onde se propagar. Não há sequer bom ou ruim nisso. É somente mais uma dimensão em aberto. Cartas são para mim como mulheres e cigarros, fetiche.

Imundice será o mesmo corpo poder sentir frio e calor ao mesmo tempo?

As palavras se me vão gastando no tempo, no pão dormido, na garrafa vazia. O que tenho feito é aguardar tranquilamente pelo meu convidado especial para brindarmos ao tempo pela surpresa. Eu que não me conformo apenas por pura convenção ou teimosia, direi a ele quando adentrar por minha porta: sinta-se à vontade, faça o que quiser, estou devidamente concentrada em deixar. E não direi mais uma palavra sequer pela boca. Falarei antes pelas mãos e respirarei lenta e profundamente pelos meus ouvidos. Os olhos sempre ficam perguntando, por isso lhes providenciei cortinas e calmantes, os olhos degustarão apenas. Enquanto isso, a cabeça há de se devorar numa orgia de fogos de artifício.
Estou me perdendo dia após dia e não me decido a respeito de salvar-me ou não. Salvar-me do quê? É uma grande questão. Correr, correr para longe, para nunca, mas correr do quê? Sinto que ao correr me aproximo e então, num impulso saco uma lâmina afiada para assassinar tudo o que me põe em cheque. É que às vezes não me perdôo. Simplesmente porque ainda me preocupo com o que tenho a perder. Mas, tenho o quê? Perder. Ganhar. Desculpe-me, tenho de rir disso tudo. Afinal, pode ser tão aceitável que ser alguma coisa seja não ser suscetível de interpretação (salve Alberto Caeiro). Estive com um fotógrafo e revoltei-me. Só por alguns instantes, pois estou sempre confusa o suficiente para desistir e esperar a poeira assentar. É que não foi ele em si que me provocou. Usamos muitos instrumentos, ferramentas de diversas naturezas e com variadas utilidades. De repente ele me clareou que não nos servimos muito bem dos instrumentos – uma vez que lhes atribuímos fins e lhes pensamos manuais. Escondemo-nos atrás deles e pensei como poderia ser estar por sobre eles. Não para desprezá-los ou assim, usá-los e descartá-los, nem elevá-los, mas para que mostrem a quê vêm quando vêm. A ferramenta é incompleta, qualquer uma delas, lhe falta um objetivo. Falta? Acreditaria que criei outra língua por não suprir a falta da ferramenta? Onde está falta nisso? Está algo que não domino, que inaugura a percepção de outro fluxo que me desvia, que me lança, que me abre. Aff... quanta asneira.

Sonhei que tramavam acabar comigo. Um homem regia tudo, era uma espécie de xamã, ora negro, ora índio, ora de cabelos brancos, ora ria, ora gordo, ora aparecia e depois apenas pairava. Mas eram dois seus executores e estavam em toda parte, seguiam-me, usavam capas negras, sem rosto, manejavam espadas. Às vezes eram homens de sombras e outras vezes eram espectros. Nesse sonho, o ambiente era desértico, humilde – não, decadente está melhor - , coisa de roadmovie, ou de livro do Castañeda. Eu corria, tentava me proteger, estava tensa. Num dado momento, passei muito perto dessas três figuras e voei em direção a uma adaga de cabo branco pendurada num poste que sabia de alguma forma ser minha única defesa. Voei mesmo. Senti um enorme frio na barriga, olhei nos olhos de meus algozes. Quando achei que estava segura depois de sair correndo e tê-los enfrentado com o olhar, ao chegar em casa, alguém mulher me mostrou aflita o musgo se infiltrando e se espalhando pela minha parede: era o sinal de que eu não poderia me salvar. Alguém tinha plantado minha morte, e aquela coisa que se espalhava pela minha parede vinha anunciar que não havia jeito, eles iriam me pegar. Minha casa cheirava a óleo de cozinha. Sinto-me completamente ameaçada.
Já não quero idealizar meu fluxo, como se ele mesmo tivesse uma missão final, então, contradigo meus pés. Tampouco sei até que ponto posso suportar Mme. Contingência. No entanto, quero intimidades com ela. Quero também um choque de alta voltagem e até ando procurando por aí pelas pessoas, pelos olhos, pelos caminhos, pelas vontades, tomadas. Estou cultivando a crosta. Uma hora, vôo curva afora. Ou grito sufocada no travesseiro, entre lágrimas, baba grossa e nós no peito. Não me culpe, fico até com certo mal-humor diante da situação. Começo disfarçando, mas é tão baixo fingir. Entretanto posso fazê-lo, sempre posso fazer o que quiser. Agora, quando te vejo, lembro-me de que você já sabe.
Sinto medo, um medo terrível, tal qual o medo de passar. O que você pensa quando se deita para dormir? Não sei se temo mais dormir ou acordar. Se me perguntasses: passou? Diria que não, de maneira nenhuma. Tudo se há intensificado. O único artifício que tenho é o do disfarce. Sou um ator. É uma dor que age leve. É tão pura como não se pode defini-la.

Sempre eu, eu e eu. Mesmo assim, deixo-me andar por outras pernas. É irritante. O problema sou eu e também a solução. Mas é líquido. Pego-me enlouquecida e tenho de correr para não me derramar. Apelo às lágrimas, gostaria de explodir nelas, só que não consigo. Tudo está sempre pronto a me confundir. Você mesmo, confuzzles me, my dear. A única saída que vejo é meu edredon quente, músicas favoritas e pesadas demolições de EU. Escrevo devagar e trago no olhar tanta dor. Incrível como passei um dia tão cheio de sorrisos e autoconfiança e tudo fundamentado num lixo: a esperança. É realmente uma paixão triste. Penso, penso, penso, não paro de pensar, tenho que deixar e preciso macerar os nódulos, jogar a merda no ventilador. É isso a que chamo de inteligência, pegar o descontrole pelos chifres. E pouco pode me importar todo o resto, ou todas as pessoas. Nada disso me diz respeito. Como escreveu um grande poeta, o que quero ainda não tem nome. Quero a maneira de circular, quero subir à superfície para respirar e depois pesar ao fundo como âncora.
Caras que surgem na madrugada, se revelam aos minutos eternos, e depois, outra noite qualquer, desdobram-se uma vez mais, e de novo, e me tiram a noção. É cada vez outra e outra cara que aparece, que abre uma fenda sob meus pés, sobre minha cabeça ou nela mesma, que me fazem desejar a vida e a morte, numa oscilação sem fim, que me esforço por não tentar entender, mas por viver os momentos raros de deleite que rompem a dúvida, a dor e a expectativa. Minha luz está acesa, não consigo apagá-la. Ouço passos na rua, estou sempre sendo tocaiada pelo aguardo. Ele não me abandona, não me dá descanso. É tortura refinada. Compartilhamos uma coisa, todos nós: nosso gosto pela ficção, pela película do pensamento que gira histórias que jamais acontecerão. É o arrebatamento pelo drama.
I seek for granted access, onde possa reconfigurar alguns sentimentos; a primeira impressão deles não é, na verdade, a primeira. Busco a segunda, a terça, a quarta, a quinta ou a sexta parte. Não concordo com minha entrega de fim de semana. Sou uma pobre devota. Minha atitude devocional, meu caro, me é tão fácil. A culpa não é de ninguém mais a não ser minha, e a culpa me chupa os ossos, me desidrata, é tão difícil deixá-la. Culpa por não já ser algo pronto a caber. Estou morrendo, sim. Vou morrer grávida de raiva, dor, repressão, nostalgia, vontade, apatia, posse, revolta, nojo, felicidade, azedume. Sou culpada. Sou uma grande merdinha. Sou uma grande obsessão no buraco da noite a evocar cúmplices do meu delírio. Não sei me comportar. Sei sofrer. Sei doer. Sei gargalhar. Sei cantar e gritar. Sei correr. Sei me convencer. Mas não sei não querer.
Se em algum momento de hoje pensei que você talvez estivesse guardando um segredo para me dar, me perdoe. Mas me conte. Me conte tudo, encha minha cabeça, me mata de você. Lembra-te que depois de todo crime, lava-se as mãos com esmero. Estou sim, agora sim, é claro, suplicando por algum valor, porque estou tão chão, tão exausta. Pena não conseguir simplesmente virar as costas. Olho as horas porque certamente alguém as olha e com elas se preocupa. Eu não. Preocupo-me apenas com o que elas me trarão. E tenho a intuição de que será sempre assim, insuportável. Terrível.
Tenho dançado andar, tenho atravessado as ruas como aprendi com ela, the emptiness who crosses the path. Estou cansada. Estou com aquilo dentro do peito. E sempre me pergunto como é que se faz por aí? Tomo um porre? Ponho tudo a perder? Esse tudo tão cheirando a nada, essa instabilidade do solo que pode ser inundado a qualquer momento, faz-me saltar de um platô para outro numa corrida infernal contra mim mesma. Ah! Eu também, se fosse como você, rir-me-ia, sem mais nem menos, dessas palavras. Não peço nada além de que acaricie teu espanto diante de mim, com cada uma das tuas caras quando na minha frente ou pelas costas, você sentir nada. Eu aceito, eu sou antes e depois. Eu vou dormir, apesar de tudo, tenho sono nesse momento. Isso é fácil, às vezes, quando não estou perturbada demais sem conseguir distinguir sonhos e pensamentos. Os acidentes que vão se atropelando, me esmagam de inesperado.
Nasci sabendo to weep and moan... mas só agora a pouco adquiri o direito de me calar diante dos incidentes nas palavras e nas atitudes. Que sujeitinho, eu. Que mente doentia quando quero estar longe, muito longe, em algum lugar onde ninguém nunca poderá me alcançar e, no entanto, procuro alcançá-lo. Que tipo de reconhecimento é esse que se busca nos rodamoinhos da imaginação? Onde você está agora? Olhe ao seu redor.
Deixo minha mente passear, transitar por imagens redistorcidas, como um navio quebra-gelo. Ela tem muito o que dar e não há quem possa receber, é só meu. Isso sim, é o meu e o será na sua duração.

Tenho uma cauda longa e garras de rapina para orientar-me na descida vertiginosa da colina de espelho prateada. As faíscas fazem festa aos olhos do transeunte desprevenido. No pescoço uma pesada placa esculpida em advertência de que não me tome pelos olhos, vermelhos em farpas, esfumaçados pela horda de afecções. Esse animal que sou é capaz ainda de cartografar rostos no escuro, através do hálito morno e mordaz. Infectado por um vírus responsável pelo distúrbio dos toques e dos grunhidos, esse animal rasteja sobre as próprias feridas e as lambe lascivamente enquanto as lágrimas escorrem pelos poros junto com a alma. Lama é sua comida e sua companhia, até a linha imediatamente abaixo dos olhos. Ainda assim, ele desliza. Serais ce possible alors?

Lapso no dicionário: 1. Espaço de tempo; 2. Engano involuntário. ‘Isso’ é a parafina da vela sendo consumida pela chama acesa.

Beije-as todas, meu querido, beije-as sempre que possível. Todas as flores da noite. Intensamente. Intensa mente. E depois, se tiver tempo, descreve-me os sabores, responde tua própria pergunta, aquela, do sabor do inefável. E sequer precisa falar algo. Não há cuidado maior que te possa pedir. E sempre, obrigada pelos abraços sinceros.


P.S.: desde que vomitaste em mim, te sonhei três vezes. Foram bons sonhos. Não querem dizer nada, eu creio.

Um comentário:

  1. ...estou deitada, assistindo um filme sem ver...lendo um livro, rodando os pensamentos e as palavras de um lado para o outro...então entrei aqui, e como é , é...(caberia aqui uma palavra inventada pra dar corpo pra sensação de agora), mas digo então que é curioso, curioso beber palavras suas, até me embriagar delas...e toda essa verborragia, tudo aqui sempre me mata e me come...eu como também...uma das poucas coisas que - nesse olho do furacão cotidiano - não quero vomitar. Aqui é de sangrar pelos poros, mas não me sangro pra dentro, libertador... longe dos eufemismos e falsas idealizações da 'liberdade'...refúgio.

    Com afeto, minha cara!

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